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FAZENDO JUSTIÇA A IGNÁCIO ESCORBETA




Existem vultos injustamente esquecidos pela história, não obstante sua farta contribuição ao progresso da humanidade e ao bem-estar social. Dessa malfadada classe faz parte Ignácio Escorbeta, inventor da serpentina carnavalesca e do prendedor de roupas.

A serpentina foi concebida por Ignácio na segunda metade do século 19, a quatro mãos com outro Escorbeta, um primo residente em Mossoró. Desenvolvido o protótipo, de 75 metros de comprimento por 6 cm de largura, Ignácio arregimentou a mulher, os filhos e vizinhos e forjou uma folia doméstica, sem música alguma para animar. Enquanto lançava os rolos da recém-nascida invenção sobre os saltitantes convivas, observou que em 100% dos casos os mesmos não se desenrolavam, sendo arremessados intactos sobre as cabeças das vítimas.

Escorbeta atribuiu o fiasco à excessiva dimensão dos "rolinhos", que mais pareciam bobinas. Perseverante, voltou com ânimo redobrado ao laboratório.
Após meses de pesquisas e cálculos de resistência, Ignácio finalmente brindava o mundo com a serpentina na forma como a conhecemos hoje. Em comemoração o bairro todo foi saudá-lo com uma chuva de confetes, já inventado naquela época - daí se originando a dobradinha que tanto abrilhanta os festejos de momo.

Igualmente complexo foi o processo de criação do prendedor de roupas, outro prodígio de Escorbeta. A bem da verdade esse artefato já existia, com a finalidade de manter fechadas as embalagens de Cheetos na despensa. Coube ao nosso herói o lampejo de adaptá-lo a outro contexto. O problema é que o prendedor não chegava a prender a roupa, apenas a indiciava em inquérito. Somente as peças mais leves, como meias, cuecas, calcinhas e camisetas regata ficavam devidamente suspensas para secagem. O inconveniente foi sanado dobrando-se o número de espirais do arame que unia as duas partes de madeira do prendedor, garantindo assim maior poder de fixação. Os bons resultados não tardaram a aparecer. Maravilhado, Escorbeta foi às lágrimas ao constatar que seu invento prendia eficazmente qualquer tipo de roupa. Incluindo blazers, japonas, sobretudos e até vestidos de noiva.

Enquanto isso, do outro lado do mundo uma nova revolução se processava. Cansado de prender as roupas para secar em encostos de cadeiras, Vladislav Varal, um tcheco naturalizado belga, decidiu inventar algo mais prático. Mas isso pede uma outra crônica.

© Direitos Reservados

Comentários

  1. Muito bom começar o dia, abrindo aquele sorriso. Obrigada, Marcelo, por esse momento. Sensacional!!
    ..." o prendedor não chegava a prender a roupa, apenas a indiciava em inquérito"...
    Qualquer semelhança com a realidade é pura ficção???[rs]

    Marcelo,sempre gostei de serpentina. E de lança-perfume também. :) Não muito de confetes. São pegajosos.
    Engraçado...esse Ignácio Escoberta não me é estranho...:)

    Beijosss e bom dia!!!

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  2. Alice Miura4:07 AM

    "Fechador de embalagem de Cheetos foi ótimo! Achava ser a única a usar a invenção do Escorbeta para isso, rsrsrs"

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  3. Marcelo

    Sempre tive vontade de saber quem inventou o prendedor de roupas, o clip, os grampos de cabelo...São inventos tão perfeitos que ninguém criou outros que o substituissem com a mesma função. Adorei seu texto, e não vou esquecer o nome do inventor.

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  4. Marcelo!

    Consoantes tanbém é cultura!!!!!!

    Ignácio Escorbeta jamais será esquecido. Mas já existia Cheetos naquela época?. O prendedor de roupas deve lhe render homenagens do mundo todo. Como se prendia a roupa antes no varal? Certamente secava na pedra ou em cabides, será que existiam cabides?

    Nossa, vou acabar fazendo tantas perguntas que dará mil contos, ou textos. Mas reconheço que ele foi um gênio. E você outro por nos revelar o que jamais eu pensaria.

    Grande Marcelo!

    Beijos

    Mirze

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  5. Francisco Simões3:35 PM

    Prezado Marcelo, obrigado por me ensinar quem foi enfim o inventor da serpentina. Já usei tanto na juventude tanto em bailes quanto nos desfiles, ou corsos, de rua, que aconteciam em minha terra natal, Belém do Pará. Grande Scorbeta.

    Veja minha santa ignorância, eu nem desconfiava. E o cabra era nordestino.... pois é. Agora também, ao pendurar minha toalha de banho aqui no quintal de casa igualmente vou lembrar dele..... Acredite que me agradou saber dessa história, sim senhor. Há coisas que parecem insiginificantes mas têem todas elas o seu valor.

    Bom que o amigo mergulhou nesse assunto e não no que muitos gostam de fazer, talvez porque dê mais "status", como inventores de coisas mais sofisticadas. Obrigado pela aula, caro Marcelo. Valeu mesmo.

    Abraço amigo do
    Francisco Simões.

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  6. Marco Antonio Rossi3:36 PM

    MEU CARO AMIGO

    VOU TENTAR ADIVINHAR A OUTRA ESTÓRIA, SERÁ QUE FOI O INVENTOR DO ESTILINGUE E DO CARRINHO DE ROLIMÃ?
    UM GRANDE ABRAÇO
    ROSSI

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  7. Ana Christina Victorelli3:37 PM

    Adorei, como sempre... vc é ótimo !!! Dá um bjão na Tia Glorinha pelo dia das Mães !!

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  8. Jorge Cortas Sader Filho3:49 PM

    Ignácio Escorbeta, perdão, meu amigo Marcelo. Havia esquecido do meu companheiro, que foi, inclusive, vereador em Campina Grande.
    Mas ainda prefiro o prato que ele inventou, a galinha à polonesa, cuja receita não passo por motivos da morte da pobre, um tanto sórdidos.
    É, Marcelão! Se você não existisse, teríamos parado em Stanislaw Ponte Preta!
    Aquele abraço.
    Jorge

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  9. Cissa Oliveira3:49 PM

    Gostei da crônica, e desse tom descontraído.

    Abraço,

    Cissa

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  10. José Adriano Neves12:18 AM

    Muito engraçado isso cara!!! rsrsrsrsrsr

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  11. José Carlos Brandão12:19 AM

    Veja também:

    Memória da Terra no Cronópios: http://www.cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=5013

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  12. Claudete Amaral Bueno12:20 AM

    Agradeço a ele pelos prendedores de roupa....qto às serpentinas, poderia ter continuado como no início....caindo intacta na cabeça dos foliões!!!!! rssssss
    Um abraço!!!!!!

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  13. Dade Amorim1:56 AM

    Mal posso esperar a história de Vladslav Varal, que deve ter sido uma figura tão insigne a ponto de dar o nome ao dito, ou seja, o varal. Também, de um tcheco naturalizado belga não se poderia esperar menos que isso.
    Tuas histórias completam nossa cultura, Marcelo. Não fosse você, jamais saberíamos disso tudo. A propósito, você podia declinar a fonte de onde anda tirando esses dados? Compreenderei se preferir guardar segredo, é justo.

    Beijos!

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  14. Que bom que ainda existe alguém que presta homenagem ao velho e bom Escorbeta. Apesar de não ter nenhum parentesco com ele, obrigado, Marcelo!

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  15. Olá Marcelo!Varais, prendedores,confetes e serpentinas,objetos insignificantes, descartados mesmo da atual tecnologia, mas que têm sua utilidade no dia a dia! E, como! Quantos "Escorbetas" por ai na vida escondidos, anônimos sem nenhum destaque. Pessoas e não objetos!Ótimo que ainda há "Marcelos" a resgatá-los!Parabéns, pela sensibilidade transferida ao humano!Abraço,Célia.

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  16. Fernando Dezena1:30 PM

    Boa!
    Acho que Graham Bell merece uma crônica sua rsrsrsrsrs
    abraço

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  17. Belvedere Bruno1:32 PM

    Essas suas ideias me deixam aboada…Haja imaginação!

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  18. Lâmpada, telefone, motor... nada disso me empolga... prefiro as invencionices periféricas do Escorbeta, esse Pardal do terceiro mundo que só mesmo MPS para trazer à luz. a propósito: qualquer hora pode lavrar sobre outro geniozinho dos trópicos, Aderbal Maçaneta. abs,

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  19. Este comentário foi removido pelo autor.

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  20. Me fez lembrar um discurso que ouvi, num palanque à beira-mar...em Maceió, este ano, os alagoanos brindaram na Festa do Pinto (evento disputadíssimo frente ao Galo da Madrugada, em Recife) pelo simples fato de ter na cidade várias lojas que vendem serpentinas e confetes...imaginei a tristeza do povo antes da inauguração dessas lojas, já que para comprar essas preciosidades, precisavam deslocar-se para Recife, em busca desse "quase-ouro carnavalesco"!!! kkkkkk Bj, querido!

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  21. Evelyne4:54 AM

    Mais prático do que prendedor de roupas? Quero ver se o techo naturalizado belga conseguiu essa proeza. Ri do começo ao fim. Adorei a “folia doméstica forjada”, apesar dos danos causados pelos rolos de serpentina nas cabeças das vítimas. Parabéns, Marcelo! Bjs.

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  22. José Carlos Carneiro4:59 AM

    Bom saber que você é um pesquisador de coisas inusitadas. Afinal de contas, seriedade demais não dá camisa para ninguém. Mas há quem tenha o dom de nos fazer rir do inusitado e você é uma dessas pessoas. Todavia, em grande estilo.
    Um abraço e boa semana.

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  23. Mais o que é isso ? KKKKKKK
    Só rindo mesmo.
    Ainda bem que alguém teve a brilhante ideia de inventar o computador, e nele outro alguém a inventabilidade do blog senão, como eu iria adquirir tanto conhecimento? Somente passando por aqui.
    Obrigada por todas as informações, moço inteligente.

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  24. Renata Miranda8:13 AM

    Muito bom!
    não prende, só indicia em inquérito, rolei de rir...num mundo perfeito a gente seria vizinho...

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  25. Olá. Tudo blz? Estive por aqui. Muito legal e interessante. Gostei. Apareça por lá. Abraços.

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  26. Clotilde Fascioni4:58 PM

    “O problema é que o prendedor não chegava a prender a roupa, apenas a indiciava em inquérito.”
    Para mim ésta, misturada a tantas deliciosas, matou a pau.
    Parabéns meu amigo virtual, mas não menos importante para mim.
    Abraços e obrigada por me divertir tanto e instigar minhas lucubrações, hahahah…

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  27. Ótimo como sempre! hahaha, provavelmente o tcheco naturalizado belga era chinês e o varal foi surrupiado da Neanderthal mais evoluída porque mulheres não tinham voz... E as serpentinas, sempre me serviram para fazer sanfoninhas coloridas , e por isso eu as pegava no chão dos bailes nos clubes enquanto todos as jogavam.Claro que levando lufadas de confetes na boca , atirados pelas outras crianças que insistiam em brincar com aquilo. É que elas não sabiam toda a tecnologia envolvida...
    Adorei!
    Um beijo!

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  28. Tony Marques12:34 AM

    Seu senso de justiça é algo que, realmente, comove. Parabéns pela bela homenagem a esse gênio da criação que tanto colaborou para o bem estar da humanidade, o Ignácio Escorbeta e vamos aguardar, ansiosamente, sua não menos justa homenagem ao glorioso Vladislav Varal. Muito divertido!

    Um forte abraço!

    Tony Marques

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  29. Escorbeta se deu bem na invenção do prendedor de roupas Todas as familias de qualquer classes sociais sempre tem um prendedor de roupas em casa. Conheço pessoas que usa o prendedor de roupas pra fechar vários tipos de mantimentos, que as vezes você usa e sempre fica um pouquinho na sacola. Muito prático é só fechar a sacola e prender com o prendedor de madeira. Tudo fácil e prático. Entrei pra conhecer e me deparei com um ótimo texto, ótimo blog, parabéns.Abç!

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