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Mostrando postagens de Junho, 2011

OU NÃO

ILUSTRAÇÃO: THIAGO CAYRES

Sou motorista de táxi, sim, e com orgulho de um tamanho que olha, vou falar pra você, se bobear nem cabe no porta-mala. Nem no porta-mala do Logan, que leva pra mais de 500 litros.



O Francisco Petrônio, seresteiro de marca maior, antes de ficar famoso com a “Festa Baile” e os Bailes da Saudade pelo Brasil afora, foi taxista – naquele tempo chamado “chauffeur de praça”. E foi cantando pra um e outro enquanto dirigia que um belo dia um sujeito levou ele pra fazer teste na TV Tupi, e deu no que deu. Largou do ponto e ganhou programa de auditório. Veja você, meu colega. Como já estou no bico do corvo e é muito tarde pro estrelato, vou me conformando em levar celebridade pra baixo e pra cima. Se não dá pra ser uma, pelo menos vou tocando a vida perto delas.


Vai daí que, de taxista, eu passei pra motorista particular. Comecei com o Jackson do Pandeiro, quando tinha uma Belina II que fundiu o cabeçote. Essa Belina era minha, não era dele não. Dirigi para o Luiz Gonza…

SÍTIO ARQUEOLÓGICO

Deus sabe o quanto acho tedioso e sem atrativo esse novo caminho de terra batida a que chamam de “Paulista”. Mas enfim, a vida na administração dos cafezais pede ares urbanos, e não me resta alternativa a não ser usufruir deste meu casarão no planalto de Piratininga, já que as economias escassas impossibilitam os três meses de veraneio pelo velho mundo a que estava acostumado.



Anuncia-se para amanhã um grande comício com o candidato Campos Salles. Passo ao largo de manifestações públicas, ainda mais correndo o risco de encontrar no meio do populacho o dono da casa bancária da qual sou devedor.


Dona Veridiana Prado convidou-me para um sarau no sábado, e não sei ainda que desculpa sacar do bolso do colete para que não seja forçado a ostentar, entre os abonados paulistanos, meu único e puído fraque. Que vergonha ver o brasão de minha família perder o brilho de outrora, conquistado bravamente à custa da cana e do ouro. Agora fico à mercê dos altos e baixos deste amaldiçoado café, submetid…

FEIRA VINTAGE

O relógio

De hoje acho que a gente não escapa. Estamos brilhando como nunca, improvável que ao menos um desses turistas de sandália e meias ¾ não se apaixone. Meus queridos, são 208 anos com a corda toda, trabalhando 24 horas. Chega de garoa e de poeira nessa carcaça suíça. Tudo tem seu tempo, e o meu por aqui já está chegando ao fim.






O bule de prata


Acreditem ou não, já fui posto uma vez na mesa de café da manhã do Getúlio Vargas. Mas pra falar a verdade ele nem ligou pra mim. Estava cheio até o bico de café preto, fumegava convidativo, só que o baixinho de São Borja preferiu chimarrão. Eram dias difíceis, um pouco antes do tiro no peito. Anos depois fui à leilão, embrulhado numa nojenta folha de jornal, levado num porta-malas por cinco intermináveis horas. Lustrado, fui parar na cristaleira de uma quatrocentona de Sampa, moradora de um apartamento de enorme pé direito na Alameda Santos. Logo em seguida houve a briga dos herdeiros e ganhei esse amassado vitalício, ao ser arremessado na…