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FEIRA VINTAGE





O relógio

De hoje acho que a gente não escapa. Estamos brilhando como nunca, improvável que ao menos um desses turistas de sandália e meias ¾ não se apaixone. Meus queridos, são 208 anos com a corda toda, trabalhando 24 horas. Chega de garoa e de poeira nessa carcaça suíça. Tudo tem seu tempo, e o meu por aqui já está chegando ao fim.






O bule de prata


Acreditem ou não, já fui posto uma vez na mesa de café da manhã do Getúlio Vargas. Mas pra falar a verdade ele nem ligou pra mim. Estava cheio até o bico de café preto, fumegava convidativo, só que o baixinho de São Borja preferiu chimarrão. Eram dias difíceis, um pouco antes do tiro no peito. Anos depois fui à leilão, embrulhado numa nojenta folha de jornal, levado num porta-malas por cinco intermináveis horas. Lustrado, fui parar na cristaleira de uma quatrocentona de Sampa, moradora de um apartamento de enorme pé direito na Alameda Santos. Logo em seguida houve a briga dos herdeiros e ganhei esse amassado vitalício, ao ser arremessado na cabeça da amante do marido da finada. De lá para onde estamos foram mais uns meses, e daqui provavelmente não saio nunca mais. Quem se habilita em me levar quer um desconto muito alto por conta da minha escoriação.






O terço de cristal


Eu rezo para que todos permaneçamos juntos e para que minha antiga dona nunca passe por aqui, me reconheça e me leve de volta para aquela incômoda gaveta da penteadeira. Lá fiquei durante décadas numa escuridão terrível, ao lado de alguns cordões umbelicais secos e duas pontes móveis de dono(s) ignorado(s). Prefiro a luz do sol da praça, gente passando e me olhando, admirando meu brilho, deslizando de mão em mão – ainda que ninguém me leve. Quando me vendeu a velha estava na pior, precisava de dinheiro para comprar comida. Se já tiver morrido, o risco de ser reconhecido é zero porque só deixou filhos homens, e homem que é homem não se lembra com detalhes do terço da mãe. Embora, pelo que me recordo, o filho mais novo não parecia tão macho assim...






A câmera


Que tal um retrato para a posteridade? Vamos aproveitar que o Diógenes comprou um veludo novo pra gente, e esse azul marinho na luz do inverno vai dar um instantâneo e tanto. Torçam para que o meu obturador não engripe e que o meu rolo de filme já não esteja vencido... vamos lá, agora, ninguém se mexe, digam x... bule, vira um pouquinho a asa... isso... ô relógio, para um segundinho senão você vai sair tremido na foto.






O retrato


Detesto ser desmancha-prazeres, mas dentro de você, câmera, não deve ter filme nenhum. E ainda que houvesse, quem iria revelar? O tempo passou e você não registrou as mudanças, essa é a triste realidade. Eu ainda sou o que sou não sei como, pois quase todos os retratos da minha época já viraram farelos. Portanto, esqueça. Ao invés de tentar guardar, viva este bom momento enquanto nos derem chance. Sei que, sendo um retrato, não deveria falar assim. Estou defendendo uma tese que contraria a minha própria utilidade. Porém, inútil por inútil, quem dentre nós ainda acha que serve para alguma coisa?










© Direitos Reservados

Comentários

  1. Sabe o que é atualíssimo e não vai estar NUNCA em desuso? Te visitar, por essas suas criativas linhas, a qualquer hora...adoro! Bj, bom fim de semana!

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  2. Ana Christina Victorelli8:10 AM

    Marcelo, será que as lindas coisas que nossos olhos tocaram na infância estariam já perambulando em feiras vintage ??????? Fernando e eu só víamos com os olhos na casa da Mandinha e da minha Vó. Educação rígida... para mamãe não passar vergonha. Perto do que vejo a criançada fazer hoje, penso que pouca coisa sobrará para ter como destino uma feira vintage !!! Bjos, bom fim de semana

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  3. Evelyne Furtado10:30 AM

    Não sei de qual gostei mais: bule de prata, terço ou a câmera. Aliás, todos ótimos. Acho que sempre fazemos especulações sobre a orígem dos objetos expostos em feiras de antiguidade e você deu voz a eles esbanjando talento. Amei. Beijos e bom fim de semana, Marcelo.

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  4. Olha só, também gosto de observar "a vida que se foi" nos objetos que teimam em ficar. Me agradei do terço de cristal e seus companheiros de gaveta, pois me fez lembrar que tenho ainda o meu cordão umbilical guardado(!?!), veja só, aos 64 anos! Muitas vezes quis jogá lo fora, depois pensei: -se os meus pais o guardaram e me deram, porque desvalorizar tal cuidado?-
    Dai o guardo até hoje, mas com certeza não irá para nenhuma feira, nem de curiosidades.Porque ter o próprio cordão umbilical guardado depois de 64 anos é realmente algo pouco comum. Abraço Marcelo. Adorei.♥

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  5. Fantástico, Marcelo!

    Penso muito nisso quando vou à uma feira de antiguidades. À quem pertenceram, quantas viagens fizeram, se o dono seria doente, porque se desfizeram etc... Acredito que todos devem ter pelo menos um tipo de fantasia em relação ao objeto. Dar "voz" à eles me fez delirar. A estória de uma obra antiga, desperta um tipo de curiosidade que o vendedor jamais saberá passar. Seria bom que viessem com um panfleto, dizendo a origem, à quem pertenceu, porque estaria à exposição etc... O terço e a câmara foram fenomenais. Eu adoro foto tirada em câmera antiga, lambe-lambe, em preto e branco. Tem seu charme que as digitais não trazem. A hora do "olha o passarinho", deixa sempre a expectativa de susto. E o terço, quantas vezes teria sido usado e para que fim senão de uma boa causa.

    Maravilhas assim, só você para nos trazer.

    Parabéns!

    Beijos

    Mirze

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  6. José Carlos Carneiro12:51 PM

    Excelente, Marcelo. A do Getúlio, que optou pelo chimarrão, foi uma sacada genial. A menção ao suicidio do criador do Estado Novo me fez lembrar que meu avô materno morreu no mesmo dia que ele, porém de morte natural e aos 93 anos de idade.

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  7. Marco Bastos2:23 PM

    Olá, Marcelo.
    Muito interessante, como todos os textos que escreve. Você é muito criativo.
    No entanto não se pode duvidar da utilidade de um velho retrato. Tenho ou tive uma cópia de uma foto tirada pelo Walter, um japonês, nosso amigo de adolescência, que depois de velho foi promovido a fotógrafo oficial da nossa turma dos anos 50´s do calendário, porque na idade todos estamos na casa dos 60´s e só uns poucos adentaram a escala de tempo dos dinus. Dentre nós, era o único que tinha uma máquina automática, com tripé, jogo de lentes e filtros, com câmera de sanfona que orgulhosa convivia com as kodaks e as kapsas de caixão, as olympus de menino, e as yashicas, prováveis precursoras daquelas que fotografaram as marcas das botas impressas no solo lunar na missão Apollo 11 e que fizeram mais sucesso que a Martha Rocha no seu maiô catalina, na década anterior. rs. Mas vamos à foto. O amigo hoje aos setenta e poucos, quando tinha os seus dezesseis era um exímio saltador da plataforma da piscina e especializou-se no salto anjo. Walter num aborto de sorte conseguiu flagrá-lo voando entre duas núvens ao fundo, muito brancas, em um perfeito anjo nos céus da Noroeste. Uma linda fotografia. Essa foto foi copiada muitas vezes e distribuída com amigos e namoradas. Passados cinquenta anos caí na besteira de dizer ao amigo que ainda devia ter a tal foto, que ele já não tinha. Tinha sido presenteada à minha irmã, já falecida, e depois ficou esquecida nos albuns e caixas com fotografias. De lá prá cá acabou-se meu sossego. Depois de ser mal-sucedido ao tentar recuperar o negativo da foto com o Walter, para o amigo eu sou a única possibilidade de reaver aquela foto. Já revirei minha casa toda, a casa de minha mãe, uma casa no interior e não encontrei a fotografia. E o amigo não desiste de cobrá-la a cada três ou quatro meses. Estou achando que para ele a foto tem especial utilidade, tamanha é a obstinação ou caduquice. rs. : quando São Pedro mandar subir o “anjo”, acho que pretende mandar a fotografia. rs.
    abraços e parabéns.
    Marco.

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  8. Carmo Vasconcelos - Portugal3:45 PM

    Estimado Marcelo!

    Adoro o seu humor elegante... Ele casa com a minha alegria e com o meu optimismo natos.
    Também com a minha estética que não perfilha todos os humores.
    Queria poder divulgar todos os seus textos, não que o meu amigo e ilustre escritor
    necessite de divulgação, seria apenas pelo gozo que me dão as suas leituras, como se estivesse rindo
    consigo numa amena tertúlia literária.

    Parabéns, amigo!
    O meu abraço
    Carminho

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  9. Claudete Amaral Bueno3:46 PM

    Gostaria de ter a sua imaginação!!!!!!rsssssssssssMuito bom!!!!!!
    Abraços!

    Claudete

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  10. Jorge Cortás Sader Filho1:39 AM

    Linda fábula!
    Como? Estou errado, fábula é com animais? E esta que mestre Marcelo inventou, o que é? O relógio fala, o bule fala até uma máquina fotográfica fala!
    Alguém aí pode dizer como classificar este texto?
    “Marcelóbula”?

    Meu amigo, inventar e manter o leitor preso e com você mesmo.
    Abraço
    Jorge

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  11. Bem, Marcelo, não gosto de baús... elimino o quanto posso as velharias... e feira de antiguidades não frequento, pois vai que de repente eu vire objeto da mesma? Nunquinha! Tô fora! Agora, que foi divertido ler e me encontrar entre muitos desses "arquivos sentimentais" de uma época bem vivida... ah! Isso foi! Abraço, amigo! Célia.

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  12. Tony Marques7:09 AM

    Marcelo,

    Você, realmente, está ficando muito bom em prosopopéia! Ou esse seu talento é congênito?

    Tony Marques

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  13. Gina Soares7:10 AM

    Simplesmente maravilhoso….
    Descrição fantástica de todos os “personagens”… cada qual com sua estória…
    Abs, amigo!!

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  14. Caro amigo,
    Te admiro pelo dom herdado.
    Somente alguém com muita tranquilidade pode ainda enxergar as coisas assim nos dias de hoje.
    Abração!

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  15. todas perfeitas. A cämera foi a ótima.

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  16. Lindo manifesto pró objetos de antanho. Me ligou um amigo paulistano dizendo que, já emoldurado, esse texto está sendo vendido na feirinha dominical no vão do MASP.

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  17. Djanira1:08 PM

    Interessantíssimo Marcelo, gostei.Abraços, Djanira.

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  18. Interessante como os valores são variados, não? O que teve valor um dia, com o passar do tempo passa a ser uma "coisa" aliás, "coisa nenhuma".
    Somente o vinho, que quanto mais antigo, mais valioso.
    Se objetos de valores chegam a esse ponto, quanto mais gente.
    É, já fui... agora...

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  19. Sou a favor da reinvenção, por isso daria novos significados às antiguidadesm tipo trasformar o bule do Getúlio num porta-lápis , a máquina fotográfica em base para abajour, o terço em colar para visual gótico, ...
    Tudo devidamente lavado na água benta, para descarregar energias anterioeres e até mesmo pintado com novas cores.
    E tudo ganha vida, voz e graça no universo de Marcelo...
    Beijos
    (ainda em recesso com espinhela caída)

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  20. Marco Antonio Rossi8:07 AM

    BOM DIA MEU AMIGO.
    SO FALTOU O CAFÉ COADO NA MEIA E O CUCO CANTAR AS HORAS....
    ABRAÇO
    ROSSI

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  21. Adriano Neves8:37 AM

    Muuuiiitto legal mesmo. Como bom saudosista que sou, essa linha de crônica eu curto demais mesmo. Parabéns!!! Outro dia te pedi pra reenviar aquela crônica que vc. fala da cadeira e da mãe numa adeirea de balaço. Se lembra qual era? Achei muito bonito e gostaria de reler. Não consegui encontrar o e-mail!


    Abs.


    Adriano

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  22. Ah, todos os objetos irmanados e revividos, perpetuados. Texto up grade para eles e para nós. Parabéns.
    Abraços

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  23. Sonia2:59 PM

    Parabéns pela criatividade! Amei!
    Beijos meus!

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  24. Uma feira dessas é mesmo inspiradora, Marcelo. Seu texto, sempre muito bom de ler, me atiçou a curiosidade sobre objetos antigos e casas, herança do meu pai.

    Abraço.

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  25. Belvedere Bruno1:59 AM

    Marcelo, queria muito te ver numa revista ou jornal daqui do Rio, mas um jornal de grande circulação, entende? Que te descubram!

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  26. Salete Cardozo Cochinsky2:00 AM

    Caro Marcelo
    Gostei imensamente do humor e da história de cada objeto. FEIRA, ANTICUÁRIOS!
    Ah, como encontramos coisas, objetos cujas histórias contam sobre a vida de tantos.
    De fato, esses objetos estão aqui, ali ou lá, representando alguma coisa para que o olha.
    Tivestes um ótimo olhar para escrever a história deles.

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  27. Risomar Fasanaro2:01 AM

    Adorei, Marcelo! Gostei de todos os bjetos, mas o bule…Imaginar um bule de prata que foi desprezado por Getúlio e atirado sobre a amante da mulher morta…Você é demais!!!!Parabéns!
    Bjs

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  28. Mara Narciso2:44 AM

    As pessoas passam e a história e objetos ficam. Tenho na minha sala uma cristaleira de 61 anos de idade, que brilhou na sala dos meus avós e esteve presente no casamento dos meu pais. Em cima dela guardo fotos dos meu mortos. A fala dos objetos antigos está cheia de sentimentos humanos, de quem passou e perdeu a importância. Dá vontade de levá-los para casa para acalentar a nossa própria tristeza.

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  29. Nubia2:44 AM

    Arremataria se pudesse o terço de cristal.
    Ressuscitaria nele todas as preces reivindicando
    suas bençãos.
    Abraços

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  30. Este comentário foi removido pelo autor.

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  31. Rosana disse...
    Oi Marcelo...Eu deveria ter fotografado mais...Teria mais lembranças dos tempos que hoje não me recordo...Sabe que eu gostei do texto? PARABÉNS...beijooooo

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