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OU NÃO




ILUSTRAÇÃO: THIAGO CAYRES

Sou motorista de táxi, sim, e com orgulho de um tamanho que olha, vou falar pra você, se bobear nem cabe no porta-mala. Nem no porta-mala do Logan, que leva pra mais de 500 litros.



O Francisco Petrônio, seresteiro de marca maior, antes de ficar famoso com a “Festa Baile” e os Bailes da Saudade pelo Brasil afora, foi taxista – naquele tempo chamado “chauffeur de praça”. E foi cantando pra um e outro enquanto dirigia que um belo dia um sujeito levou ele pra fazer teste na TV Tupi, e deu no que deu. Largou do ponto e ganhou programa de auditório. Veja você, meu colega. Como já estou no bico do corvo e é muito tarde pro estrelato, vou me conformando em levar celebridade pra baixo e pra cima. Se não dá pra ser uma, pelo menos vou tocando a vida perto delas.


Vai daí que, de taxista, eu passei pra motorista particular. Comecei com o Jackson do Pandeiro, quando tinha uma Belina II que fundiu o cabeçote. Essa Belina era minha, não era dele não. Dirigi para o Luiz Gonzaga, o velho Lua, que era conhecido do Jackson. Fiquei depois até 2003 com o Alceu Valença e daí pra frente tô direto oferecendo meus préstimos pro Seu Gilberto Gil.


Não vou dizer pra você que é o melhor emprego do mundo, mas o Seu Gilberto é muito boa pessoa, quando dá pra entender as esquisitices que ele fala. Em vez de cortar caminho e ir direto ao assunto, o cabra gosta de ficar dando volta. Comigo então, nem se fala. E aí fica naquela: “você pegue a direita, ou não. Você me leve até o apartamento de Bethânia, ou não”. E fico nesse vou-não-vou até ele aprumar as ideias e resolver pra onde vai. Mas às vezes custa, heim. Ah, custa. O homem parece que tem a cabeça que nem carburador engasgado, rateia que parece bateria pra pegar no frio. Já ouvi falar na televisão que ele fuma aquele negócio que o Fernando Henrique disse que não traga, mas eu a bem dizer nunca vi nada, nadinha que desabone a pessoa do Seu Gilberto.


No caminho ele tem o costume de ficar sempre com o laptop aberto, às vezes me pede o bloco de anotação que levo no porta-luva e fica rabiscando rápido, diz que é pra não esquecer depois. Só não entendo porque me pede o bloquinho, já que tá com o computador no colo. Ele me disse que são uns começos de música e letra que ele vai fazendo. Quase sempre o trajeto é da casa dele pro aeroporto, daí ele fica uma temporada boa fora e eu confesso que até pego o carro de vez em quando pra dar uma vadiada, que ninguém é de ferro. Teve um dia que juntei uma quenga no banco de trás, lá na garagem da casa de Salvador, e fiz o serviço sem pressa porque sabia que o Seu Gil estava lá em Moçambique e a Dona Flora tinha ido pro Rio, passar uns dias com a Preta. Na volta ele reparou numa mancha esbranquiçada no estofamento, eu falei que era canjica que a netinha do Seu Gil tinha derrubado quando fui buscar ela na escolinha. Ele engoliu (a história) e não falou mais nada.


Uma vez o homem encasquetou e inventou de me pedir pra ficar falando a esmo enquanto o sinal não abria. Assuntei ele pra saber o que era esse negócio de “esmo” que eu nunca que tinha ouvido falar, não. Falei que conhecia torresmo, mas aí ele deu aquela risadona dele e disse que não era isso, falou assim: “Desencana, Oduvaldo, desencana”, e começou a assobiar aquela música do abacateiro e depois aquela outra que manda o abraço pro Chacrinha. Ê, Seu Gilberto...






© Direitos Reservados

Comentários

  1. Muitas vezes, os taxistas são grandes amigos, ou no mínimo, os mais reconfortantes ouvidos... ou vozes? ou não...risos...muito bom, querido! receba, 'aquele abraço'

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  2. Eles sabem de tudo e de todos, inclusive que o FHC curte um base mas não traga!!! Hilário, mais uma vez!
    Abração.

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  3. Clauduarte Sá10:44 AM

    Grande Marcelo!
    Esse texto e muito legal! Fiquei imaginando aquela prosa entre o motorista e Gil. Gostei muito desse texto e desse espirito gozador, leve. Por acaso esse personagem existe, ou e fruto de sua imaginacao?
    Eu nao comentei mas gostei muito de outros textos anteriores tambem. Lembro-me daquele da queixa do alface, achei genial.
    Um grande abraco, saude, sucesso,
    ClauduArte Sa

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  4. Boa tarde. Marcelo!

    Seu humor é realmente algo, ou não.

    Essa estória eu achava que era só do Caetano, que depois de explicar todo o problema de mais ou menos dez minutos de fala, ele repete,"ou não".
    Daí para lembrar o começo, é difícil.

    Mas pelo visto, e segundo o motorista, se o Gil também tem esse hábito, deve ser da época dos "novos baianos".

    Gosto tanto desse "ou não", que quando sinto que "viagei" , sempre brinco com um termo assim.

    Tudo que eles dizem pode ser verdade, ou não. Inclusive o taxista.

    Excelente!

    Parabéns!

    Beijos

    Mirze

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  5. Sandra11:54 AM

    hahahaha daqui a pouco você recebe um e-mail do Gil, e Oduvaldo perde o emprego de taxista. êta cabra bom, Marcelo, antes que amanheça tomate receba aquele abraço.

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  6. Jorge Sader Filho11:54 AM

    O Gil, é? Então eu pergunto: se ele ainda fosse ministro iria participar das marchas? O Supremo liberou. Ele iria sim. Iria não, ele vai. Muitos outros também. O cheiro espanta mosquito que nem ele, seu Marcelo!
    Inventa nada, este moço! É verdade mesmo, tá nos jornais todinhos.
    Aquele abraço.

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  7. N/ sou Seu Gil,meu conterrâneo,nem nunca dei um tapa no cigarro do capeta,talvez por que n/ sou uma escritora tão boa qto o FHC,mas,adoro conversar co taxista.
    Na verdade,tenho grandes amigos entre eles.
    Sua crônica tá porreta,mano! bjs

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  8. Esse texto está caetanicamente irrepreensível, aliás, caro Marcelo, conversei com vários taxistas em Salvador. Eles são uma instituição lá e têm histórias hilárias, embora bem inverossímeis.
    Teve um, veja você, que socorreu a Ivete Sangalo numa madrugada em que ela trancou seu carro com a chave dentro.

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  9. Claudete3:12 PM

    Oi...
    O Gilberto Gil....pode ficar bravo....ou não!......
    Qdo vc n/ escrever mais, vá ser taxista que vai bem!!!!
    Abraços!,

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  10. Ah Marcelo, "viajei" nesse taxi do Oduvaldo, muito divertido.Abrçs♥
    Clotilde♥Fascioni

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  11. Oi,adorei!Mas esse taxista sabe tudo e você também.

    Abraços,Lúcia

    18/06/011

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  12. Excelente Marcelo!! Até porque que é íntimo de um taxista "que come canjica..." (hehehe)em carro alheio... dá vivas à São João!! Ou não??
    Abraço, Célia.

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  13. Lídia Maria de Melo3:02 AM

    Parece tão real que eu acredito que é mesmo! Impressionante!
    Sempre uma delícia ler o que você escreve. Abraço

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  14. Evelyne Furtado3:02 AM

    Fiquei pensando que ser motorista de Gil deve dar direito a adiconal de insalubridade. Ele fala demais! Mas gosto dele e adorei ler você, Marcelo! Beijos e bom domingo.

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  15. Gina Soares3:03 AM

    rsss… às vezes penso que o que você escreve é de verdade, pois a narração nos remete a isso…
    Excelente!!

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  16. Celi Estrada1:17 PM

    Gostei muito e dei boas risadas...
    Celi

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  17. Cissa de Oliveira3:41 PM

    Obrigada Marcelo, por compartilhar. É um texto gostoso, leve.
    Eu achava que o “ou não” era todo do Caetano.

    Bjs
    Cissa

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  18. Cacá3:42 PM

    Êta crônica gostosa! Aquele abraço, Marcelo! Paz e bem.

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  19. Marco Antonio Rossi3:48 PM

    MEU AMIGO, BOA NOITE.
    UMA BELA LEMBRANÇA DO MOTORISTA DO GIL, MAS ELE NÃO CONTOU O DIA EM QUE LEVOU O GIL AO DOMINGO NO PARQUE E ACABOU NA DELEGACIA.......
    UM GRANDE ABRAÇO
    ROSSI

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  20. Djanira3:49 PM

    Oi Marcelo, gostei. Muito inspirado, diversificado e bem ilustrado. Parabéns e abraços, Djanira.

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  21. José Carlos Carneiro4:55 AM

    O Gil desnudado, esmiuçado e dissecado em suas mais íntimas incertezas, ou tiques nevosos próprios do seu autoendeusamento.

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  22. Jota Efe Esse3:00 PM

    Como outros, eu também achava que “ou não” era esclusividade do Seu Caetano e você me diz que Seu Gil também fala? Mas tá certo, esse menino, tudo é baiano! Meu abraço.

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  23. Cruz credo, amigo! Esse negócio da canjica foi esquisito. Só faltava o Gil querer cheirar pra ter certeza da coisa, depois passar o dedo e saborear, ou não? ou sim?

    Aquele abraço, moço inteligente.

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  24. Ahahahah
    Seria bom se os empregados dos famosos pudessem nos apresentar relatos desse porte.
    Adorei, Marcelo!

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  25. Marcelo,

    Muito legal esse conto! Tanto quanto o genial Gil Gil. Esse baiano cheio de swing.

    Tony Marques

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  26. Gostei bastante do Blog.
    Muito interessante !

    É bom ver a cada dia que passa mais originalidade nessa "blogosfera". :)

    Deixo o meu aqui caso queira dar uma olhada, seguir..;
    http://bolgdoano.blogspot.com/

    Muito Obrigada, desde já !

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  27. Araceli12:34 AM

    Sendo (ou não) do Caetano ou do Gil, a crônica é bem convincente! Abraço

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