Pular para o conteúdo principal

DUÑA EXPLICA "BULHUFAS"




Ilutração: Thiago Cayres

Aproveito o ínterim entre o escalda-pés das quatro e meia e o das sete e quarenta e cinco para uma lauda de esclarecimento acerca do real significado de algo que permeia nossas vidas, da primeira escovação de dentes até a hora de vestir as ceroulas: BULHUFAS.



O Dicionário Houaiss define o termo como “coisa alguma; nada”. Balela do ilustre filólogo! Fosse assim tão vazia, a expressão não teria atravessado os séculos e chegado incólume aos dias de hoje, onde é empregada com tanta frequência e propriedade – de discursos parlamentares a teses de pós-doutorado, passando pelos blogs de autoajuda e tabloides sensacionalistas.


Incorporado à norma culta, não são raros os sonetos e contratos de seguradora que aplicam BULHUFAS ao seu escopo. E estranharíamos se assim não fosse, pois sua importância é de tal envergadura que chega a ser referência de grafia quando se soletra alguma coisa. Nas ligações de telemarketing, vira e mexe nos deparamos com a operadora dizendo: “A” de Abelha, “B” de BULHUFAS, “C” de Casa, e por aí vai.


Mas nem tudo são glórias no caminho da inserção definitiva de BULHUFAS à língua de Camões. Estejam meus devotados seguidores avisados de que zombeteiros vêm disseminando, levianamente, uma acepção equivocada e difamante de BULHUFAS, atribuindo-lhe o sentido de negação de entendimento. Assim, propagam aos quatro ventos absurdos semânticos como “Não entendi BULHUFAS”, em contexto análogo a “Não entendi patavina” ou “Não entendi necas de pitibiriba”. Nunca tais nefelibatas estiveram tão distantes da luz da verdade, e a infâmia que hoje cometem a eles retornará carmicamente em encarnações vindouras. Assim é a lei Duñesca, justa e inapelável, que recompensa ou pune o homem conforme seu merecimento.


Ora, hão de convir meus contritos discípulos que, se alguém diz "Não entendi BULHUFAS" está na verdade afirmando que entendeu tudo, caso contrário diria "Entendi BULHUFAS". Está clara a fundamental e necessária distinção? Da mesma forma, os que declaram "não entender patavina" não entendem patavina sobre “patavina”. E os que se arvoram a dizer "não entendi necas de pitibiriba" não entendem necas de pitibiriba de "necas de pitibiriba", ressalvando aqui que, etimologicamente, "Pitibiriba" tem raízes morfológicas no tupi-guarani, língua a que me dediquei com afinco quando estas barbas que me envolvem o rosto ainda eram negras como a asa da graúna.


Com a autoridade que os céus me investiram e com o mérito que fez de mim o líder inconteste desta seita, afirmo que é blasfêmia das blasfêmias a forma com que alguns inconsequentes reduzem BULHUFAS a termo raso e sem função. Incorrem em erro crasso os que lhes dão ouvidos, estando sujeitos à expulsão sumária da Ordem Duñesca os fiéis que doravante fizerem uso inapropriado do vocábulo, incluindo aí sua forma abreviada, sem o "BU" original, ou seja, "LHUFAS".


Publique-se esta missiva, que a partir desta data passa a ter força de Decreto, o qual selo agora com meu lacre cor de abóbora, meu brasão de família e minha firma reconhecida pelo tabelião de notas desta província.






© Direitos Reservados


DICA PARA OS MEUS VISITANTES: ACESSEM O PORTAL AQUI BRASIL, GRANDE SITE DE CURITIBA DO JORNALISTA MHÁRIO LINCOLN, ONDE TENHO COLUNA.

CLIQUEM E CONFIRAM: http://www.mhariolincoln.com/

Comentários

  1. LHUFAS... BULHUFAS... ou PATAVINAS... ou NÉCAS DE PITIBIRIBA... to aqui lendo e me divertindo com suas crônicas! Ah! Também passei no PORTAL BRASIL e, conclui: com quem pode, não se brinca... se trinca! Parabéns, muchacho! Abração da Célia.

    ResponderExcluir
  2. Marcelo!

    Em primeiro lugar, preciso saber quem ou o que é DUÑAS. Algum ser extra terrestre? Algum Buda?

    Estas barbas não cresceriam tanto por causa de um simples "bulhufas" e seu emprego semântico.

    Já que estamos nesse impasse, pergunte ao venerável DUÑAS o que significa " a rebimboca da parafuseta"

    Tudo o mais que explicou faz sentido. Algo que não sei bem o que é está por trás deste texto, ou nas entrelinhas.

    Beijos, amigo!

    Mirze

    ResponderExcluir
  3. Cristina Siqueira2:17 PM

    RENDEU LEGAL …BULHUFAS.

    BEIJO

    CRIS

    ResponderExcluir
  4. Marco Antonio Rossi2:18 PM

    CARO AMIGO E VIZINHO

    AGORA DEFINITIVAMENTE POSSO AFIRMAR QUE ENTENDI BULHUFAS!!!!!!!
    MUITO OBRIGADO.
    UM OTIMO FINAL DE SEMANA.
    ABRAÇO
    ROSSI

    ResponderExcluir
  5. Você me levar a pensar em n bulhufas, num final de semana de aulas...eu mereço!! Um abraço, querido!

    ResponderExcluir
  6. Diante de tantas defesas à 'Bulhufas', não direi bulhufas nenhuma.

    Grande abraço blogal.Para quem não entende bulhufas sobre abraço, é abraço de blogueira.
    E´, acho que o bulhufas caiu bem aí.

    ResponderExcluir
  7. Jorge Cortás Sader Filho4:43 PM

    Bulhufas. O sr. escrivão negou-se a registrar, por ordem do MM Juiz. Só registra o que é do tal magistrado. O resto, neca de pitibiriba.
    Grande abraço, doutor Marcelo!

    ResponderExcluir
  8. Sua lavra é bulhuficamente divertida. A rasa compreensão de palavra tão rica é um dos fatores que impedem o progresso bulhufesco do Brasil. Que a Ordem Bulhufética lute para reparação da injustiça léxica.

    ResponderExcluir
  9. Claudete Amaral Bueno12:08 AM

    Amigo:
    Obrigada por salvar as bulhufas, no meio de tanta incompreensão!!!!
    Mesmo qdo n/ entendo bulhufas do texto.....amo esse termo!!!! que exprime bem n/ falta de massa cinzenta......
    Parabéns!!!!! (Entendi seu texto, viu????)....rssssss Um abraço!

    Claudete

    ResponderExcluir
  10. Claudete Amaral Bueno1:43 AM

    Parabéns ao Thiago Cayres tb……gosto mto de s/ ilustrações!

    ResponderExcluir
  11. Tony Marques6:48 AM

    Marcelo,

    Diante de Sua Santidade Duña, esta instituição transcendental que tudo sabe e que para tudo tem uma explicação plausível e convincente, o Guru Maharishi Mahesh Yogi que um dia encantou os garotos de Liverpool e Mia Farrow e que segundo ainda as más línguas, cobrava seu cachê de forma não muito convencional, se sentiria um vunerável menino passarinho diante de tanta sabedoria.

    Um forte abraço!

    ResponderExcluir
  12. Evelyne Furtado12:57 PM

    Entendi Bulhufas . Que o Duna me mantenha como sua fiel seguidora e leitora. Que me perdoe por minhas risadas confessas ao ler a missiva dunesca. Delícia de texto, Marcelo! Beijos e boa semana, meu amigo.

    ResponderExcluir
  13. Clotilde Fascioni12:57 PM

    Marcelo, do Duña faz tempo que não ouvia falar, “necas de pitibiriba” ouço ate com certa frequencia por estes lados, assim como constato o tempo todo que da vida entendo patavina, agora meu amigo poucas vezes vejo alguem escrever tão lindamente sobre nada, ou melhor: bulhufas.
    Adorei! Você eh realmente escorreito, sem igual. Abçs

    ResponderExcluir
  14. Bem, eu vim ler este blog, como de costume, pontualmente às 20:17h, porque neste horário tenho uma conexão especial de neurônios e posso entender bulhufas ou não entender bulhufas. Porém, se é decreto em sua forma mais clássica, cabe a nós, meros asseclas, acatarmos. E acho que a água já deve ter esfriado, heim???
    Hahaha, ótimo, adorei!

    ResponderExcluir
  15. Vania3:27 AM

    Perfeito. Corretíssimo. Dentro do raciocínio, é como uma amiga diz, ao expressar que as pessoas não prestigiaram certo acontecimento: “ninguém não foi”. Ora. Se ninguém não foi, alguém foi. Essa colocação me arrepia. Adoro seus textos.

    ResponderExcluir
  16. Zezinha3:28 AM

    Original, divertido, inteligente e convincente. Parabéns, Marcelo, mais uma vez, fico de pé e ….
    Bravo!!!!
    (Aplausossssss!!!!!!! )
    Você merece!!!
    Beijos!!!

    ResponderExcluir
  17. Eliza3:29 AM

    Marcelo, este texto nos faz pensar como usamos acidentalmente duas formas negativas para, na verdade, expressar algo que imaginamos como negação. De agora em diante, “bulhufas” , “necas de pitibiriba” e “patavina” terão um uso certeiro em meu vocabulário. Um abraço e adorei a ilustração.

    ResponderExcluir
  18. Genial, Marcelo.Ri muito. Já sei que vou arder no inferno.
    Cansei(o) de utilizar,lançar mão(s) de "bulhufas, "patavina" e "neca de pitibiriba". Ainda mais no mundo de hoje, um mundo de "lhufas". Agora..."nefelibatas" é forte também.Foi muito bom rever/ler a palavra. Lembrei do "Os Bruzundangas", de Lima Barreto. :)
    Adorei!!!!
    Um beijo e muitos parabéns!!

    ResponderExcluir
  19. Gina Soares6:51 AM

    rssss.. costumo usar o termo direto!! rssss
    No sentido de negação: não entendi bulhufas!!! rsss
    Excelente!!

    ResponderExcluir
  20. Ellen Cristine4:19 PM

    oi, amigo tudo em paz?
    Qdo dá tenho lido seus textos.
    ainda bem q vc avisa qdo tem novo pois na loucura acabo me esquecendo de entrar, não tenho muito o hábito de entrar em blogs e coisas assim.
    bjs

    ResponderExcluir
  21. Aracelli4:21 PM

    Que aula de linguagem…

    abraço

    ResponderExcluir
  22. Obrigada pela visita, Marcelo.
    O neme não é virtual, é real mesmo.
    Um abraço, aguardo o próximo texto.

    ResponderExcluir
  23. Um abraço pelo dia do Amigo!

    ResponderExcluir
  24. Rosa Pena4:45 PM

    meu comentário não foi aceito 2 vezes no blog../ Entendi bulhufas rs .. beijos amigo/rosa

    ResponderExcluir
  25. José Carlos Carneiro4:46 PM

    1) Dunã explica "Bulhufas"

    Um dos "imblóglios" mais esclarecedores. Quem não ver humor e criatividade na matéria, certamente teve o bom senso usurpado, ou sequestrado, ou esfarelado.

    2) Gazeta 16/7/2011

    Saiu "Zero à esquerda"

    Um abraço.

    ResponderExcluir
  26. Mara Narciso8:39 AM

    Marcelo, conhecia a expressão "necas de pitiritiba", trazida da Natal pelo meu ex-marido. Quando se trata de falar sobre nada durante uma lauda inteira, você dá nó na língua, vai e volta sem se perder. Um achado para nós.

    ResponderExcluir
  27. Caro amigo,
    Esse Dunã é aquele que a gente chingava o outro de:"Ô Dunha!"?
    Já virou seu personagem recorrente.
    Parabéns,
    Excelente!!!
    Abração!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A CAPITAL MUNDIAL DO BILBOQUÊ

Para os menores de 30, é natural não conhecê-lo. Então comecemos por uma sucinta porém honesta definição.

Bilboquê: originário da França, há cerca de 400 anos, foi o brinquedo favorito do rei Henrique III. Consiste em duas peças: uma bola com um furo e um pequeno bastão, presos um ao outro por um cordão. O jogador deve lançar a bola para o alto e tentar encaixá-la na parte mais fina do bastão. (fonte:www.desenvolvimentoeducacional.com.br).

Mais do que um brinquedo, Bilboquê é o nome de uma cidade, localizada a noroeste da pacata estância de Nhambu Mor. Chamada originalmente de Anthero Lontras, foi rebatizada devido ao número desproporcional de habitantes que fizeram do bilboquê a razão de suas vidas, dedicando-se ao artefato em tempo integral (incluindo-se aí os intervalos para as necessidades fisiológicas).

A tradição se mantém até hoje, ganhando novos e habilidosos adeptos. Nem bem raia o dia na cidade e já se ouvem os toc-tocs dos pinos tentando encaixar nas bolas. Uma distinção se…

SANTA LETÍCIA

Letícia, em seu compartimento estanque, se bastava. Vivia debaixo de uma campânula guardada por um querubim estrábico, numa imunidade vitalícia às dores do parto, à lavagem da louça, às filas nas repartições e à rabugice dos maridos sovinas e dominadores. “Façam o que quiserem, contanto que poupem a Letícia” era o veredito invariável sob qualquer pretexto e em qualquer ocasião, naqueles sítios de lagartos e desgraças.
Nada que se comparasse àquela que chamavam de Letícia, e que raras vezes se afastava de seus cães e de sua coleção de abajures. Era o tesão das rodas regadas a cerveja. Era a inveja e o assunto nos salões de beleza. Era o exemplo de virtude no sermão do padre, que botava as duas mãos no fogo do inferno e uma terceira se tivesse pela sua inteireza de caráter.
Assim a vida corria daquele jeito de costume, com a cidade a lhe estender tapetes, a lhe levar no colo e a lhe cobrir de afagos, soprando-lhe o dodói antes que se machucasse. Passou a ser o tema das redações escolares …

ESTRANHA MÁQUINA DE DEVANEIOS

Habituais ou esporádicos, todos somos lavadores de louça. Lúdico passatempo, esse. Sim, porque ninguém vai para a pia e fica pensando: agora estou lavando um garfo, agora estou enxaguando um copo, agora estou esfregando uma panela. Não. Enquanto a água escorre e o bom-bril come solto, o pensamento passeia por dobrinhas insuspeitas do cérebro. Numa aula de história, em 1979. O professor Fausto e a dinastia dos Habsburgos, a Europa da Idade Média e seus feudos como se fosse uma colcha de retalhos. O Ypê no rótulo do detergente leva ao jatobazeiro e seu fruto amarelo de cheiro forte, pegando na boca. Cisterna sem serventia. Antiga estância de assoalhos soltos. Rende mais, novo perfume, fórmula concentrada com ação profunda. A cidade era o fim da linha, literalmente. O trem chegava perto, não lá. Trilhos luzindo ao meio-dia. Inertes e inoperantes. As duas tábuas de cruzamento/linha férrea dando de comer aos cupins. Crosta de queijo na frigideira, ninguém merece. Custava deixar de molho? A…