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ZERO À ESQUERDA




- Perdão, meu senhor, mas não estou lhe reconhecendo.


- Senhor? Para com isso ou eu também te chamo de senhora. Apesar da careca e das rugas que eu tenho e você não tem, somos do mesmíssimo ano de 62.


- Meu Deus. Desculpe a franqueza, mas ou o senhor, quer dizer, ou você está muito acabado ou eu estou conservada demais.


- Por cavalheirismo, sou obrigado a ficar com a segunda hipótese. Sob protestos.


- Tá certo, agradeço. Agora, se me dá licença…


- Eu usava cabelo repartido e aparelho nos dentes.


- Sei, sei.


- Sentava na mesma fileira, 3 carteiras atrás de você. Professora Maria Luiza, antigo quarto ano primário. Ah, bala Soft de limão, isso não te lembra nada?


- Absolutamente. Porque, deveria?


- Não é possível, olha bem pra minha cara.


- Desculpa, sou péssima fisionomista. Ai, que situação chata, senhor, ou melhor, moço. Quarto ano primário… sei lá, José Alfredo?


- Tá frio, bem frio.


- Reynaldo?


- Ichi, chutou a bola pra fora do estádio.


- Dézão. Você é o Dézão!


- Nossa, esse era feio demais. Acabou comigo agora.


- Erivelton.


- O Jurema? O Erivelton Jurema? Tá querendo dinamitar minha autoestima. Na aula de Educação Física chamavam ele de Buda. Faça-me o favor… uma vez, estudando na sua casa pra prova de recuperação de matemática, você ficou passando o pé na minha canela debaixo da mesa. Tava um gelo naquela noite, você usava meia de lã toda listada, igual a das Frenéticas. Só não correspondi ao afago porque tinha na época um chulé insuportável. Outra dica: Carnaval de 81 e 82, eu fui de Barney nos dois anos…


- Ok, agora chega. Meu marido é aquele ali que tá buzinando, tenho que ir e acho que não é o caso de saber quem você é. Depois de tanto tempo, não vai fazer diferença mesmo.


- Espera aí, mas aquele lá no carro é o Marquinho Bereba. Vai dizer que você casou com aquele tranqueira?


- Bom, depois que levei o fora do Silvio, foi o ombro amigo dele que me valeu e me tirou da depressão. Fizemos bodas de prata no ano retrasado. Ah, mas chega de ficar dando satisfação da minha vida pra quem não devo. Até mais, senhor…


- Silvio.






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Comentários

  1. Você é terrível, Marcelo! Imagino a cena da esclerose repentina da "madame"... que jamais queria te rever... e eis que no final... você se apresenta!Que folhetim, hein? Afinal... "bodas de prata"...
    Abraço, Célia.

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  2. Ana Lucia Finazzi7:38 AM

    Oi Primo,tudo bem?
    A respeito da sua crônica, ótima como sempre, lembrei-me de um texto que li há algum tempo, não sei se era do Jabor ou do Veríssimo. Falava deste sucesso que as pessoas com quem nos relacionávamos na adolescência ostentam quando nos encontram. Estão todos muito bem conservados ( sem plástica, naturalmente) e são super bem sucedidas profissionalmente. Aí a gente fica pensando: "Puxa vida, acho que eu sou um bundão mesmo, pois estou velho, careca, flácido, etc... E além de tudo, não fiquei rico como eles." É a ditadura do sucesso, ninguém quer assumir que tem problemas, que mata um leão por dia para viver relativamente com conforto.
    É isso aí.
    Fiquem com Deus!
    beijo
    Ana Lucia

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  3. Marco Antonio Rossi7:39 AM

    MEU CARO AMIGO MARCELO

    COMO É DIFÍCIL LEMBRAR DO TEMPO DE ESCOLA.......
    MAS TAMBÉM DÁ UMA SAUDADE..................
    ABRAÇO
    ROSSI

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  4. Cacá9:20 AM

    Acho que a dona (ops, a moça) tinha razão na primeira apresentação . O Silvio parece que ficou mesmo acabado. hahahaha! Ótimo, Marcelo. Meu abraço e um ótimo fim de semana. Paz e bem.

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  5. Evelyne Furtado9:20 AM

    Que delícia, Marcelo! Além de me identificar com as meias das frenéticas e outras coisitas mais , seu talento me encantou outra vez. Perfeito! Beijos e bom fim de semana, meu amigo.

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  6. Sensacional!

    Marcelo, quero dizer, Silvio, você já se colocou no lugar dela?

    Acredito que durante todos esses anos, o zero à esquerda era ela. Ela não se perdoou pelo fora do Silvio r na sua imaginação, o Silvio era demais, tanto que ela lembrou do fora.

    Casos assim são muito comuns.

    Super interessante!

    Mais uma vez, parabéns, amigo!

    Excelente crônica!

    Beijos

    Mirze

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  7. Clauduarte Sá11:48 AM

    Amigo Marcelo, PARABENS pelo ZERO A ESQUERDA! Excelente texto. Como sempre, impecavel.
    ClauduArte Sa

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  8. Mario Bonzanini1:08 PM

    "...eu não vi Kennedy morrer...

    ...eu não conheci Martin Luther King...

    ...nasci em 62, nasci em 62..."

    Essas linhas são do Ira uma banda paulistana!

    Sou de uma década anterior, e envelhecer é bem engraçado, já passei por cenas como seu texto. Semana passada mesmo cortei o cabelo de uma 'senhora' que foi minha colega no Cotuca em 75. Claro que somente depois de algum tempo conseguimos descobrir isso. Enquanto eu sileciosamente tesourava seus fios ao som de Miles Davis em Kind of blues é que caiu a ficha, pois era o lp mais rodado do centro acadêmico. Depois de nos reconhecermos podemos perceber que o olhar adolescente ainda resiste num corpo nem tão adolescente.

    Mario

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  9. José Carlos Carneiro1:10 PM

    Zero à esquerda é pouco, cara. Outras alternativas podiam ser tirar leite de pedra, chover no molhado, beliscar tartaruga par ver se ela ri, tomar sopa com garfo etc. No frigir final dos ovos, excelente.

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  10. Ótimo. Faz a gente lembrar de tanta coisa!

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  11. Claudete Amaral Bueno4:11 PM

    Coitado!!!!!
    Quantos zeros à esquerda mesmo?????????????rsssssssssss
    Um beijo!

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  12. Marcelo,

    Ótimo texto, do tipo que prende a atenção do começo ao fim. Parabéns!

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  13. Eliza Beghini4:26 PM

    Marcelo,

    Ótimo texto, do tipo que prende a atenção do começo ao fim. Parabéns!

    ResponderExcluir
  14. amigo, que show, que imaginação super linkada com situações reais... tenho alguns amigos que estão caídaços, tipo Silvio, mas não se emendam e se acham com 20 anos... vou mandar o texto pra eles...

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  15. Jota Effe Esse12:34 AM

    Depois de uma dessas o cara vai ficar se olhando no espelho toda vez que passar por um. Meu abraço.

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  16. Jorge Sader Filho12:35 AM

    Caramba! Marcelo vai acabar me convencendo que o azar existe mesmo.
    Trombada igual a esta é rara!
    Abraço, e vai aprontar esta longe daqui. Excelente, como de costume.

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  17. Francine12:35 AM

    Marcelo,
    É sempre um grande prazer ler seus textos!
    Parabéns! Ótimo texto!

    bom fim de semana pro c,
    Francine

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  18. Mara Narciso12:36 AM

    Vingança malígna! Tão insignificante que foi esquecido. Essa foi pior do que um chute na canela. E assim caminha a humanidade. Gostei da forma e do conteúdo.

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  19. Miriam Sales12:36 AM

    ‘Magina se ela ficasse c/ o Silvio,esse maracujá de gaveta…rsss
    Olha,alguns namorados q/ re-encontro depois quase 40 anos,-bom- dei graças a Deus de n/ ter ido em frente. bjks

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  20. Anônimo1:19 PM

    Que situação!!!!
    Mas é uma realidade! Às vezes encontramos pessoas que mudaram tanto, que nos surpreendemos….
    Adorei!!
    Parabéns sempre!!
    bjs

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  21. Adriano Neves4:54 AM

    rsrsrrsr.........muuuiiiito bom isso!!!!

    Marcelo, segue os e-mails das minhas duas irmãs pra vc. enviar suas crônicas. A Lídia é professora de português e a Ellis é locutora.


    Abs

    Adriano

    lidia.margareth.ramos@gmail.com

    ellis.marina764@gmail.co

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  22. Clotilde Fascioni4:56 AM

    Oi Marcelo, eu que sou pessima fisionomista jamais reconheceria alguem da minha juventude que não visse envelhecer. E vamos combinar, tem gente que quando “passa do meio dia” parece que veio de outro planeta, aquele de onde veio o ET de Varginha…hahahah.
    Muito bom, meu amigo. Muito bom mesmo…

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  23. " O que é bom dura pouco"; "Antes só do que mal acompanhado"; "Quem ri por último ri melhor" e entre tantas outras que cabem no seu texto eu fico com esta:

    O que é pra outro homem, bicho nenhum come primeiro.
    KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK
    dinovu
    KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK
    peraí , mais uma vez
    KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

    Grande abraço blogal
    KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

    ResponderExcluir
  24. Olha só... Eu poderia ter protagonizado esta cena... Mas sou de 64...Ora, são apenas dois anos depois e a bala soft veio tomar o lugar da bala chita e do mentex em minha vida. Até meu irmão se engasgar e quase morrer...Por que será que as coisas mudam tanto, nossos sonhos podem seguir caminhos tão diametralmente opostos dos que imaginamos??? Adorei Marcelo! Um beijo!

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  25. Sílvio se safou de uma mulher nada romântica...risos...beijo!

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  26. Oi,eu sou da época da bala chuquinha,que delíiiiiiiiiicia!Esse Sílvio deveria estar um bagaço,bem feinho.Ô crônica boa sô!

    Abraços,Lúcia

    12/07/011

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  27. Tony Marques5:26 PM

    Marcelo,

    Muito bacana seu texto. Agora, é bom que aprendamos que nem sempre a persistência é um bom negócio… No caso do nosso amigo e coetâneo, foi uma tremenda pisada na bola… Ele poderia, muito bem, ter dormido sem essa desilusão porporcionada pela sua antiga, desprezada e vingativa namorada, caso fosse mais sensato. O troco quando bem dado, quase sempre, vem carregado de farta crueldade.

    Um forte abraço!

    Tony Marques

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  28. Dade Amorim5:26 PM

    Situação assaz embaraçosa, né não? Mas há quem goste dessas coisas, fazer o quê?

    = )

    Um abraço, Marcelo.

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  29. Lucia Helena Vallim4:12 PM

    Adorei seus textos,costumo ler no Correio Popular, fiquei profundamente tocada em especial pelo texto " Lamentacoes de um pe de alface",tanto que estou com problemas com minha dieta,pois sempre que vejo hortalicas e verduras choro de tristeza,ja adotei algumas especies livrando-as do sofrimento de serem trituradas por uma boca cheia de dentes! Inclusive estou pensando em criar uma ONG de protecao as verduras e hortalicas,espero seu apoio! Abraco! Rssss...

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