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Mostrando postagens de Setembro, 2011

RELATOS LITERAIS - VIAJAR NA MAIONESE

Duvido que você conheça alguém que tenha ido até lá e não tenha voltado cheio de histórias fantásticas para contar. Coqueluche do mercado turístico brasileiro e internacional, a chamada Costa da Maionese vem atraindo, com seus deslumbrantes encantos, um número cada vez maior de veranistas mineiros, gaúchos, amazonenses e polinésios.



Nossa equipe de jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas decidiu conferir de perto, quilômetro a quilômetro, toda a adrenalina desta espetacular aventura.


Como seria de se prever, durante o percurso o veículo apresentou dirigibilidade comprometida e comportou-se como se estivesse num rinque de patinação. Além da falta de agarre dos pneus e da instabilidade na suspensão, o atrito constante com o creme interferiu na aerodinâmica, efeito que tornou-se mais intenso à medida em que aumentávamos a velocidade. Mas não se impressione: em pouco tempo você se habitua às condições da pista e ganha confiança suficiente para transportar as crianças, a sogra e até um boit…

ESTA É A SUA VIDA

Ilustração: Thiago Cayres


- É daí que publicaram o anúncio "Sua vida inteira com preço pela metade"?


- Isso. Eu escrevo biografias por encomenda. Tenho quatro na fila, só pra esse mês.
- Mas essa oferta é pra todo mundo ou é só pra quem tem uma vidinha do tipo mais ou menos, sem muitas peripécias?
- Olha, tanto faz se a vida é da Dilma Rousseff ou da tia-avó dela, que ficou lá na Ucrânia.
- Bulgária.
- Isso, Bulgária. É indiferente, meu camarada.
- Então, mas pra aproveitar a promoção existe um limite de páginas?
- O meu sistema de cobrança é por vida, não por página. Caso o livro fique fininho, não tenho nada a ver com isso. Se a vida do sujeito é inexpressiva a culpa é do biografado, não do biógrafo. Agora, uma vida cheia de sobressaltos é mais trabalhoso, enquanto que uma vida sem muitos altos e baixos é mais tranquilo de fazer. De qualquer forma, não tem diferença de custo.
- Mas você concorda que, se eu tenho uma vida comum, eu não vou querer uma biografia, certo? Vou falar o qu…

12 YEARS OLD

Ilustração: Thiago Cayres

I



Chamemos de “platô” aquele efeito áureo, a sensação boa do pileque propriamente dito. Pena ser efêmero demais, raramente vai além de dez minutos esse golden moment. E não adianta querer prolongá-lo. Está quase sempre entre o fim da primeira e o começo da segunda dose. Interessante a percepção da lindeza extrema que emana das coisas desimportantes, nesta fase do processo. Mesmo você, quem diria, acaba ficando lindo. Veja até onde pode chegar a alucinação da bebida...






II


Três ou quatro generosas bicadas e se instala o fator solidário, a ânsia de dar e receber calor humano, a qualquer preço. Sem que você tenha a menor possibilidade de controle, esse espírito natalino fora de época se esparrama por tudo e todos. Sobra até para o rato no ralo do quintal - a quem você não negaria um trago nem um abraço caloroso, fosse ele do seu tamanho e chegado numa birita. Vai um queijinho pra acompanhar, ratão velho de guerra?










III


Vamos de cowboy porque está frio. Você desliga do …

EQUINO EQUÍVOCO

Imagem: Thiago Cayres

Eu não poderia estar aqui. O homem do abate deve estar bêbado. Cavalos não vão para o matadouro, morrem de velhos. E não me venham, por favor, com a propalada mortadela equina, que isso é lenda infundada. O que se poderia aproveitar da minha carne adocicada e gordurosa para fazer embutido não justificaria o custo, o trabalho e a duvidosa aceitação do paladar humano.



Entrei na fila errada, e ela está andando rápido. Digo que é doído o sentimento do boi, a agonia adrenando as tripas, a certeza ancestral de saber ser este o caminho da morte. O boi conhece a sua hora e aceita sua fatalidade assim como se conforma com o afastamento prematuro da mãe, com o leite surrupiado dele para fartar os meninos de bigodinhos brancos e poupar os seios de pera das mamães novas. O boi é triste e conformado, tem a noção instintiva de que nasce para abandonar a vida no auge do viço.

Com cavalo é diferente. O máximo que fazem é usar nossa crina em arco de violino. Até o esterco é subapr…