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12 YEARS OLD




Ilustração: Thiago Cayres

I



Chamemos de “platô” aquele efeito áureo, a sensação boa do pileque propriamente dito. Pena ser efêmero demais, raramente vai além de dez minutos esse golden moment. E não adianta querer prolongá-lo. Está quase sempre entre o fim da primeira e o começo da segunda dose. Interessante a percepção da lindeza extrema que emana das coisas desimportantes, nesta fase do processo. Mesmo você, quem diria, acaba ficando lindo. Veja até onde pode chegar a alucinação da bebida...






II


Três ou quatro generosas bicadas e se instala o fator solidário, a ânsia de dar e receber calor humano, a qualquer preço. Sem que você tenha a menor possibilidade de controle, esse espírito natalino fora de época se esparrama por tudo e todos. Sobra até para o rato no ralo do quintal - a quem você não negaria um trago nem um abraço caloroso, fosse ele do seu tamanho e chegado numa birita. Vai um queijinho pra acompanhar, ratão velho de guerra?










III


Vamos de cowboy porque está frio. Você desliga do que interessa – as coisas enfadonhas sujeitas às leis de ação e reação, causa e efeito – como, por exemplo, deixar de pagar a parcela de financiamento do carro e ter suas garrafinhas de Buchanan’s confiscadas. A partir daí, você começa a entrar numas até com o rejunte do azulejo, filosofando longamente sobre o papel fundamental de suas vias lisas e pavimentadas para a locomoção segura das formigas caseiras. Você olha para o hominho de saiote do rótulo e se pergunta se é aquele cara desenhado a bico de pena quem engarrafou o bálsamo, ou quem seria o escocês dono da destilaria, ou porque os paraguaios são tão grosseiros em suas falsificações, ou o que faz o Natu Nobilis provocar furúnculos no rosto de seus apreciadores.






IV


A questão é que a sua autocrítica muda bastante depois do primeiro copo esvaziado, e aquela promessa de fazer da primeira a única dose fica na promessa. E do fugaz platô você escorrega pra fase xarope e decididamente torpe, onde tenta o resgate do estado de graça bebendo mais, e mais, e mais. É justamente essa a hora do seu pai chegar, com o mesmo bigode fino e o mesmo terno de linho da foto no criado-mudo, trazendo debaixo do braço uma penca de lembranças bem mais envelhecidas que os 12 anos do uísque. Ao lado vem seu avô, arrastando os chinelos e deixando um rastro de polvilho Granado pelo corredor onde você neste momento passa trançando as pernas, a caminho da geladeira e em busca de mais gelo. Sim, o gelo faz render mais o líquido precioso.






V


Você baixa os olhos. O livro sobre a mesa. A página misteriosa, a mais intrincada e hermética passagem da Clarice Lispector, uma que você marcou para tentar decifrá-la daqui a alguns anos, ganha entendimento tão elementar quanto um gibi do Chico Bento. Um sentido que só se anuncia com os neurônios assim, meditando em seus divãs. Isso é o que se passa enquanto o entorno flutua e parece sussurrar vozes de outros planos, a estranha certeza de estar a um fio da próxima dimensão. Você volta ao kilt do hominho da garrafa, a curiosidade aumenta e, já que o computador está à sua frente, você acessa o site do fabricante. O patrocinador da sua trip falando dele mesmo. A história, o portfólio de produtos, fale conosco. A realidade é movediça, o dedo de Deus mexe o drink onde você turbilhona como se estivesse dentro de uma máquina de lavar.




© Direitos Reservados

Comentários

  1. Maravilha, Marcelo!
    Adorei !
    Tenha um excelente final de semana!
    Abraço

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  2. Essa utopia que um "on the rocks" ou "cawboy" aparentemente nos proporciona é a demonstração correta da insanidade e fragilidade de uma pessoa. Nada apaga seus dissabores; nada a entorpece mais que tentar fugir. Enfrentá-los é a melhor solução. Visível em noticiários de pessoas socialmente bem realizadas, profissionalmente, ídolos que se entregaram à garrafas e copos "meio cheios" e hoje encontram pagando caros tributos em UTIs (quando têm condições financeiras) ou feito "vermes viventes" nas ruas de nossas cidades. Nada fácil para uma família que vê seu ente querido numa situação dessas... Meu depoimento é de quem tem o problema na família. Íntima reflexão! Abraço, Marcelo e que seu bom texto seja um alerta "nas entrelinhas" de quando não bebemos a bebida, mas a deixamos que nos beba! Célia.

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  3. É por essas e outras que não bebo. A minha cabeça já vive no "platô" 24 horas por dia; para que quero ou preciso mais, né?
    Bçs Marcelo.♥ Belo texto♀☼

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  4. Rafael Paiva12:23 PM

    Marcelão,

    Seu texto deu água(rdente) na boca! Valeu pela dica… já vou abrir um legítimo!

    Abração e bom final de semana

    Rafrajola

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  5. Sonia Alcalde2:50 PM

    delíriosaguadosquemalelesfazemaoconsumidor?perguntaatrozperseguemosditosquevirammalditosdetantoentornar.
    sórestaoptarqualfaseficarouleromarcelodequalquerlugar

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  6. Mirze2:50 PM

    Você descreve de uma forma tão prazerosa que se ei bebesse, sairia correndo para
    pegar uma Buchanan’s e começar a experimentar essas fases. Sempre quis saber das sensações e em que estágio [1º ou 2º gole ou copo] começa=se a filosofar e resolver os problemas do mundo. E amar, ama-se do gari, ao presidente. O mundo fica cor de rosa. Acompanhei muitos amigos, eu, na água, mas delirava com as estórias deles. Todas tinham um final feliz. Deve ser muito bom, mas nunca consegui!

    Fantástico o delírio que você leva o leitor!

    Parabéns!

    Beijos

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  7. Amei, Marcelo! Primeiro fiquei "platô", depois entorpeci. Agora, embriagada, preciso saber porque demorei tanto sendo mal, com as lindas baratas, todas elas, que matei sem dó nem piedade...o efeito, uma vontade de chorar por elas, sorrir para todas que estão vivinhas, envernizadas e voadoras...

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  8. Zezinha Lins4:50 PM

    Puxa!!!
    Marcelo, nunca bebi nada desse tipo, mas é impressionante a detalhada descrição que você faz desses momentos inebriantes dos que apreciam os tais líquidos, para eles preciosos. Viajei por um momento embriagada pelo seu texto.Parabéns, parabéns!!! Você nos encanta sempre!
    Beijo!

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  9. Este comentário foi removido pelo autor.

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  10. Primeiro, parabéns ao Thiago Cayres pela ilustração magnífica. Segundo, bêbado não escreveria isso. No mínimo estava sondando um bebum e digitando o texto.
    Terceiro, se bebeu e conseguiu fazer uma retrospectiva danada dessa é porque a birita era ruim mesmo!
    Manguaça que faz relembrar os atos e fatos deve ser de fabricação bélica, tá doido!
    Ah, "Legião Estrangeira", quando vou nela me embriago de verdade.

    Grande abraço

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  11. ..."A partir daí, você começa a entrar numas até com o rejunte do azulejo, filosofando longamente sobre o papel fundamental de suas vias lisas e pavimentadas para a locomoção segura das formigas caseiras".

    Ah... Marcelo, quantas vezes (sem manguaça alguma) entrei/viajei nessa do rejunte. Te juro! :)
    Saio daqui embriagada com seu talento. Genial, Marcelo!!
    Um beijo e bom domingo!

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  12. Tão bem descritas as fases do torpor etílico, meu caro, fui ali abrir um dos meus exageros emergentes das últimas farras freeshopianas para brindar o seu texto. Essa da Clarice Lispector adquirir uma simplicidade mauricesca foi do c... abs

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  13. Claudete Amaral Bueno1:16 AM

    Como sou traumatizada c/ bebida, prefiro nem comentar.........rsssssssss

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  14. Gina Soares1:18 AM

    Como não bebo (até que tento, às vezes), não consigo jamais passar da sensação de rir, e relaxar.
    O beber social causa esse efeito sim (a sensação gostosa do pilequinho), mas o problema é que normalmente as pessoas vão se achando o máximo a cada copo, e acabam perdendo o limite da sensatez…
    Se ficassem no primeiro ou segundo copo, seria ótimo!!!
    É exatamente como você descreve com perfeição, no texto!!!
    Abs, amigo!!!!!!

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  15. Jorge Cortás Sader Filho1:19 AM

    Doze anos curtindo na adega mal iluminada, tonéis de carvalho, e a gente faz tão mau uso dele.
    Mais gelo, Marcelo?
    Abraço

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  16. Marcelo, esta é uma grande abordagem "on the rocks", em meio a vapores etílicos e que nos transportam para a dimensão do tempo em que tudo é possível, fácil de fazer ou de esquecer... Relaxar faz bem, suas palavras também. Eu só trocaria o 12 anos por um Campari ou vinho, pois não consigo beber wisk... ótimo texto!(Como sempre!)

    Beijo!

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  17. Jota Effe Esse1:10 PM

    Uma descrição perfeita do que seja um alcoólico não anônimo nas diversas fases de mais uma bebedeira. Temos aí uma boa dica de como não entrar nessa, pois com o vício é assim: a única forma de livrar-se dele é não começar. Meu abraço, Marcelo.

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  18. José Carlos Carneiro8:14 AM

    Essa foi para destilar os maus augúrios. Tipo assim conversando com pirilampos, achando que são estrelas que, em vez de brilhar, falam.
    E me fez lembrar as não poucas vezes que, deitado de costas no tapete da sala, eu ouvi Pink Floyd no genial CD The dark side of the moon, tomando uísque Chivas Regal com pedras de gelo de água de coco. A imaginação voava longe! Ainda gosto, mas não entro mais naquilo que você retratou muito bem como o "estado divino" de uns tragos, com requintes também para os produtores, trajes típicos e outras "meditações". Valeu, cara! Aliás, sempre vale.
    Um abraço e boa semana.

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  19. José Adriano Neves8:15 AM

    muuuuuiito bom menino..gostei mesmo!!!



    abs.

    Adriano

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  20. Cacá8:35 AM

    Ele já foi meu cachorro engarrafado. Hoje o cachorro é de verdade depois de eu quase ter uma cirrose. rsrs.
    Abração, Marcelo. Paz e bem.

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  21. Evelyne4:17 PM

    Fiquei tão encantada que desconfio que compartilhei desse porre, eu que não me dou muito bem com o álcool. Perfeito, Marcelo! beijos e boa semana!

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  22. Tony Marques8:33 AM

    Marcelo,
    Outro dia ouvi uma piadinha simples, porém interessante, que dizia o seguinte: Troque seu coração por um outro fígado, assim você vai se apaixonar menos e poderá beber mais… Boa a ideia, não? Mas, foi ai que fiquei pensando com meus botões: Se eu não me apaixonar, qual será o outro motivo que terei pra beber?
    Um forte abraço e parabéns pelo texto!

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  23. Mara Narciso8:08 AM

    Uma graça com maior profundidade, que chama a uma leve reflexão. Ou quem sabe a uma profunda análise existencial?
    Palavras chave são "torpor", "trip", e assim embarcamos e vamos viajando na onda etílica, com muito prazer, soluços e uma quase embriaguês.

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  24. ... e a leitora pergunta ao personagem - também no seu delírio - qual a passagem da Clarice em que se ergueram essas montanhas utópicas...

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