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EQUINO EQUÍVOCO




Imagem: Thiago Cayres

Eu não poderia estar aqui. O homem do abate deve estar bêbado. Cavalos não vão para o matadouro, morrem de velhos. E não me venham, por favor, com a propalada mortadela equina, que isso é lenda infundada. O que se poderia aproveitar da minha carne adocicada e gordurosa para fazer embutido não justificaria o custo, o trabalho e a duvidosa aceitação do paladar humano.



Entrei na fila errada, e ela está andando rápido. Digo que é doído o sentimento do boi, a agonia adrenando as tripas, a certeza ancestral de saber ser este o caminho da morte. O boi conhece a sua hora e aceita sua fatalidade assim como se conforma com o afastamento prematuro da mãe, com o leite surrupiado dele para fartar os meninos de bigodinhos brancos e poupar os seios de pera das mamães novas. O boi é triste e conformado, tem a noção instintiva de que nasce para abandonar a vida no auge do viço.

Com cavalo é diferente. O máximo que fazem é usar nossa crina em arco de violino. Até o esterco é subaproveitado. Com um pouco de sorte ou influência leva-se um vidão puxando charretinha em estância hidromineral. Pangaré manso, só no trotinho pra criança não assustar. Que galopem eles, que se dizem racionais, em suas metrópoles. Que se ferrem, que se esfolem e se matem para amealhar a porra do dinheiro que no fim das contas será gasto lá, na calmaria das montanhas, em infindáveis voltinhas de seus pimpolhos carregados pelos meus primos, enquanto eles fornicam em suas suítes.


Agora só tem mais um na minha frente. Basta um relincho pra que me tirem daqui ou terei que meter um coice no peito desse imbecil?






© Direitos Reservados









Comentários

  1. Olá, Marcelo! Apropriadíssimo seu conto-prosa-poesia da vida... Racionais ou Irracionais estamos todos na fila rumo a matadouros... E, não adiante espernear, fraquejar ou algo do gênero... De cabresto estamos: ora políticos, ora financeiros embalados em juros, impostômetro, ora em acirradas competições de sobrevivência, trânsito, idílios... utopias em geral! Sigamos... nem que seja a coices ou outras doidices mais!!
    Abraço, Célia.

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  2. Inspiradíssimo politicamente também!

    Câmera de gás ou matadouro!

    Passividade ou reação!

    Um por todos ou todos por um?

    Nessa fila vou tentar não entrar;

    Beijos, amigão!

    Mirze

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  3. Claudete Amaral Bueno12:26 PM

    Moral da história:
    É melhor ser burro do que boi.........é isso?

    N/ sei se é o m/ comput. ou se desta vez, a coisa está c/ defeito: n/ corre! Foi c/ mta dificuldade (e abrindo nem sei qtas x) que consegui ler......
    Abraços,

    Claudete

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  4. Jota Effe Esse1:47 PM

    Respondo à Mirze, pelo Marcelo: O coice já foi dado, Mirze, não viu a marca no peito do energúmeno? Bem feito! Quem mandou pensar em comer cavalo? Mas não é só lá pela Ásia que se come cavalo, em Portugal isso é normal. Meu abraço.

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  5. Clotilde Fascioni3:00 PM

    Espero que ele tenha escolhido a última opção, afinal quem não distingue um cavalo de um boi, merece mesmo um coice no peito…
    - Quequéisso Clotilde, Arrenegou-se? – Arreneguei-me!-
    Abraço, Marcelo, e boa semana♥♥♥

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  6. Jorge Cortás Sader Filho4:10 PM

    Cavalo velho não serve pra nada. Alíás, velho só vinho bem feito.
    Por falar nisto, esse cavalo bebe? Vai numa manguacinha? O primo distante dele, vinte e três no jogo do bicho, urso, bebe bem.
    E por que estou falando nisso? Ahhhh! Foi a idéia do Marcelo.

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  7. De fato, cavalo não é burro, que por sinal também é um animal muito inteligente.

    Como dizia o velho deitado:quem não nasce de quina pra lua vira salsicha de qualquer jeito. Esse velho morreu de bruço. Não sabia como usar os cocos, digo, cascos, não os coices.

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  8. Jusciney Santana1:06 AM

    Eu adorei...vc sempre me surpreende!

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  9. Marco Bastos1:08 AM

    eiei, a vida do boi
    teimosia de jumento
    era um cavalo e não foi
    - nem merecia o tormento…

    Mares e rios se esvaziando, a fauna silvestre acabou. Quase sete bilhões de habitantes pouco adaptados ao seu próprio habitat; e sobrevivemos predadores. Depois dos bois, os cavalos e em seguida os canibais.
    abrçs.
    Marco.

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  10. Fernando Dezena1:08 AM

    ótima!

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  11. Bem, espero que tudo tenha acabado bem. Só uma perguntinha...




    o homem do abate é chinês???


    hahahaha, um beijo!

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  12. José Carlos Carneiro2:57 PM

    Corpo da mensagem Belas reflexões sobre o fim da vida imposto a um equino e um bovino. Qualquer hora farei o mesmo sobre meus parentes, os bodes ou cabras, os cordeiros e suas respectivas. Viva os macrobióticos!

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  13. Clotilde Fascioni4:07 PM

    Espero que ele tenha escolhido a última opção, afinal quem não distingue um cavalo de um boi, merece mesmo um coice no peito...
    - Quequéisso Clotilde, Arrenegou-se? - Arreneguei-me!-
    Abraço, Marcelo, e boa semana

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  14. Tony Marques4:57 PM

    Meu caro Marcelo,

    Veja só como uma coisa puxa a outra: Tudo começou lá pelo finzinho do século XIX e início do século XX com uma maravilhosa invenção dos portugueses e acredite você, foram eles mesmos, os nossos colonizadores, os inventores do famoso bife a cavalo. Mas, afinal, em que consiste essa invenção da gastronomia portuguesa? O bife a cavalo, nada mais é do que um bife de carne bovina com um ovo de galinha por cima. Preste bem atenção, o bife é bovino, o ovo é da galinha e o cavalo contribui com que nessa história? Com o pomposo nome: Bife a cavalo. Mas, o que aconteceu foi o seguinte, de tanto se falar em bife a cavalo, alguém com uma imaginação mais fértil, teve uma ideia: Por que não bife de cavalo? E ai está o resultado, em 2007 a Argentina bateu todos os recordes na exportação de carne de equinos, foram 37.000 toneladas e seu principal comprador foi a Rússia.
    Uma segundo questionamento, esse de ordem gramatical, que desde há muito se fazia, era se o verdadeiro nome era: Bife a cavalo ou bife à cavalo (que seria o mesmo que bife a moda cavalo)? E agora, com o advento do consumo da carne de equinos, a dúvida aumentou: Bife a cavalo, bife à cavalo ou bife de cavalo?
    Em tempo, é bom que se esclareça que aquela ferradura cravada no peito do cidadão da ilustração, foi consequencia de um ato desesperado de um cavalo tentando salvar sua pele e não se trata de uma nova modalidade de tatuagem de alto relevo. Caso contrário, vai virar moda!

    Um abraço!

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  15. Lidia Maria de Melo8:08 AM

    Como moro no litoral, não tenho intimidades com o mundo das criações, mais comuns no interior do Estado. Apenas animais marinhos são fisgados por aqui. Mas você me deixou com o coração partido ao descrever esses crimes cometidos em nome da humanidade faminta. Acho que começo a entender a filosofia dos vegetarianos, veganos, frutarianos e afins. E eu que sempre adorei beber leite, desde pequenininha. Fiz algum bezerro ser desmamado.

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  16. Evelyne Furtado8:09 AM

    Reflexões na fila do abate, através de um cavalo ali por engano. Bois aceitam seus destinos sem relinchar. Os equinos não. Um pouquinho triste, mas , apesar do coice, leve, pois vem com a marca do humor de qualidade. Mais um ótimo texto, Marcelo! Bjs e boa semana, amigo.

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  17. Leo Lobos8:33 AM

    Mis saludos desde Santiago de Chile, gracias por las informaciones,

    http://cruvi.cl/blog/2011/08/26/15-poemas-leo-lobos/

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  18. Marco Antonio Rossi9:48 AM

    PLOC,PLOC,PLOC, ÊTA CAVALINHO BÃO...............................
    Rossi

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  19. Dade Amorim1:34 AM

    Toda razão ao equino, o equivocado não é ele, mas quem o encaminhou ao abate. Será chinês, o bichinho? Nesse caso talvez seja um cavalo ilustrado, bem informado sobre os hábitos de outras paragens. E o coice está plenamente justificado, ainda que –
    Mais um texto divertido e bem achado, Marcelo.
    Abraço grande.

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  20. Oi,não gosto de carne vermelha,mas como com prazer um frango assado na brasa.Me perdoa o bezerrinho,mas não fico sem o meu leitinnho.Essa também está ótima Marcelooooooooo!


    Abraços dessa leitora que te admira muito,Lúcia
    06/09/011

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  21. O texto, intencional ou não, traz algumas parábolas da última fila dos seres vivos. Se o equino está ali por um equívoco, estou aqui por uma cavalar convicção para ler, interpretar e reinterpretar seus textos. Veja você, estou aqui até para conjecturar sobre mensagens subliminares da indústria frigorífica. abs

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  22. Gostei da rebeldia (com causa) do cavalo. rsrs. Pangarés mesmo, acho que são os homens. Abraços, Marcelo. paz e bem.

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  23. Mara Narciso8:15 AM

    Em algumas situações, mesmo quando não acontecerá uma morte real, caminhamos como se ela fosse acontecer. O coração nos trai. Poderíamos nestes casos dizer o que disse o cavalo. Macabro.

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