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Mostrando postagens de Outubro, 2011

HAPPY FAMILY

A casa perfeita da família feliz recebia, de dois em dois anos, uma demão de tinta na parte externa e nos madeiramentos. A cada seis meses, dedetização e limpeza da caixa d’água. De 45 em 45 dias, o jardineiro para aparar a grama. Diariamente, a perua escolar e suas duas buzinadinhas regulamentares para buscar filhinho e filhinha.



Havia pichações por todo o bairro, menos no imenso muro caiado da casa feliz. Nem sinal de sujeira de pomba, fuligem de queimada ou formigueiro. Asséptica e harmônica em suas formas, a casa feliz era quase música, uma figura etérea em meio à feiúra do quarteirão. Tinha chaminé, cerquinha, floreiras nas janelas e o caminhozinho sinuoso que saía da porta em direção à rua.


Como de hábito, após dar lustro à coleção de miniaturas papai colocava os planos familiares em planilhas do Excel. Ali ficava horas com seus cálculos e projeções. Mamãe evocava a proteção divina em preces e cânticos. Depois, recolhia as roupas do varal com altivez de matriarca honesta, realizad…

RELATOS LITERAIS: COR DE BURRO QUANDO FOGE

Ilustração: Thiago Cayres

Reconheço de antemão que a comprovação de qual seja fielmente a cor do burro foragido continuará sendo uma das grandes interrogações do homem contemporâneo, de demonstração tão complexa quanto o último teorema de Fermat. Não é justo, entretanto, que me furte a trazer aos cativos deste espaço dois experimentos que se propõem, cada qual a seu modo, a elucidar a questão e quiçá lançar uma pá de cal sobre o assunto. Julgo, todavia, que ambos nunca estiveram tão longe da verdade, como perceberá o leitor no breve relato que se segue.



O primeiro é um tanto quanto frágil no tocante à metodologia científica adotada, pois se baseia meramente na acuidade visual dos investigadores.


Sustenta este grupo de nefelibatas, composto por pesquisadores do Alabama, que o ato da fuga enrubesce o animal devido ao esforço físico exigido, o que confere momentaneamente ao mesmo uma coloração que varia entre o rosado e o vermelho-vinho, passando pelo magenta queimado. Esta elástica paleta …

CAMINHO DE SANTIAGO EXTRA PRIME

Ilustração: Thiago Cayres

Tragam-me uvas frescas e tâmaras secas, imediatamente. A um estalar de dedos, quero caviares russos recém-embalados, trufas brancas de Piemonte e leite de cabra para hidratar os pés.



Alguns condenam-me pelo excessivo fastio nessa empreitada onde deveria prevalecer o sacrifício. Respeito, mas contesto. Afinal, o próprio Santiago foi um VIP. Quer existência mais VIP do que ser um dos eleitos de Jesus Cristo, predestinado entre milhões para entrar na história do mundo como um dos 12 apóstolos? O homem foi escolhido a dedo pra subir aos céus sem escala, com toda a pompa que os mártires merecem.


Sem querer insultar o santo, como quase todo VIP o nosso herói de Compostela soube se promover e atrair para si os holofotes da época. Reza a lenda que o glorioso Santiago quis que seus ossos fossem descobertos, após séculos esquecidos numa arca de mármore. Para tanto, patrocinou noites e noites seguidas de chuvas de estrelas, no Bosque de Libredón, onde foi enterrado. Algu…

AMOR INTERGALÁTICO

Ilustração: Thiago Cayres


"Imagine dois jovens gêmeos idênticos. Um deles é recrutado para ser astronauta e fazer um voo experimental em uma nave capaz de atingir 50% da velocidade da luz. Ele parte, vai até Alfa Centauri (a estrela mais próxima do sistema solar) e volta, numa viagem de 16 anos. Quando retorna, a surpresa: seu irmão gêmeo já é um idoso, à beira da morte, enquanto ele envelheceu apenas o tempo da viagem".



(Superinteressante, Ed. 265, maio/2009, pág. 20)






- Não tem trocado, moço? A passagem é R$2,50 e não tenho troco pra R$100.


- Eu acerto com você na volta, então. Tudo bem?


- De jeito nenhum. Quando o senhor voltar eu vou estar mortinha da silva há muitos anos.


- Ah, é. Tinha esquecido deste detalhe.


- E vai que a nave desembesta e atinge a velocidade da luz... aí o senhor vira luz também. E luz não paga o que deve pra ninguém. Nem conta de luz.


- Faz sentido. E pra falar a verdade eu tô embarcando justamente pra escapar de uns credores que andam me enchendo a paciên…

MORTOS DE RIR

O Willy não precisava ter ido tão cedo. Não precisava mesmo. Uma desatenção nossa e olha ele aí, finado. Ainda se tivesse procurado o fim – tomado veneno de rato, dado um tiro na têmpora, um enforcamentozinho. Mas assim, pego de surpresa, ver-se defunto da noite pro dia e a contragosto, não deve ter sido fácil.



Bom Willy, tão viciado em vida e de repente nessa situação. Em quase todas as sepulturas do cemitério, a estrelinha e a cruz, a data da morte e o dia do nascimento. Com estrela você combina, mas cruz não é o seu estilo.


Prometo que, tão logo o padre encomende sua carcaça, cairei fora desse latifúndio de esqueletos e entrarei no bar mais próximo para beber à nossa saúde. À minha aqui embaixo e à sua aí em cima, seu desalmado. Embora beba quase nunca, farei isso por você.


Aguardo, sua besta, você numa noite dessas pra me puxar as pernas, fazendo gracejo das coisas sagradas. O céu nunca mais será o mesmo depois da chegada de “Aero Willy”, o querubim gozador. Tô até vendo você tentand…