08 Outubro, 2011

AMOR INTERGALÁTICO



Ilustração: Thiago Cayres


"Imagine dois jovens gêmeos idênticos. Um deles é recrutado para ser astronauta e fazer um voo experimental em uma nave capaz de atingir 50% da velocidade da luz. Ele parte, vai até Alfa Centauri (a estrela mais próxima do sistema solar) e volta, numa viagem de 16 anos. Quando retorna, a surpresa: seu irmão gêmeo já é um idoso, à beira da morte, enquanto ele envelheceu apenas o tempo da viagem".



(Superinteressante, Ed. 265, maio/2009, pág. 20)






- Não tem trocado, moço? A passagem é R$2,50 e não tenho troco pra R$100.


- Eu acerto com você na volta, então. Tudo bem?


- De jeito nenhum. Quando o senhor voltar eu vou estar mortinha da silva há muitos anos.


- Ah, é. Tinha esquecido deste detalhe.


- E vai que a nave desembesta e atinge a velocidade da luz... aí o senhor vira luz também. E luz não paga o que deve pra ninguém. Nem conta de luz.


- Faz sentido. E pra falar a verdade eu tô embarcando justamente pra escapar de uns credores que andam me enchendo a paciência. Uns três ou quatro anos de viagem, a uma velocidade beirando aí os duzentos e noventa mil quilômetros por segundo e pronto. Quando fizer o retorno a dívida já vai ter caducado há décadas. Fora que eu vou estar só com um pouquinho mais de idade e perfeitamente apto a galinhar as bisnetas dos caras que estão me cobrando hoje.


- Pensou em tudo, heim?


- E outra: supondo que os meus credores de hoje fiquem com o meu patrimônio, vou recuperar tudinho e muito mais casando com uma das bisnetinhas.


- O que é a tecnologia, não?...


- Bendito Albert Einstein e sua Teoria da Relatividade. Aposto que ele não tinha atinado com este maravilhoso desdobramento enquanto se matava de trabalhar enunciando suas descobertas.


- Pro senhor ver.


- Bom, voltando ao nosso teórico e relativo impasse. Não tem mesmo troco pra 100?


- Não tenho. Se tivesse a gente não ficaria aqui perdendo tempo, o senhor já teria embarcado e, quando voltasse do seu passeio intergalático, eu, coitadinha, já estaria comendo grama pela raiz. E vale-transporte, o senhor não tem nenhum aí? A gente aceita.


- Eu sou autônomo, quisera eu ter um patrãozinho pra me pagar a condução. E por favor, não me chame mais de senhor. Falando comigo desse jeito, me sinto mais velho que o Einstein naquela foto com a língua de fora. Olha, acho que o destino tramou para que você não tivesse troco. Seria uma tristeza voltar dessa viagem sem graça e encontrá-la na sepultura... que desperdício, imagina só.


- O senhor está sendo um tanto precipitado. Nos conhecemos agora e o senhor - quer dizer, você - tinha outros planos em mente, muito mais audaciosos. Pra quem imaginava um golpe do baú espacial você está se contentando com muito pouco. Se eu te mostrar o meu salário e a pindaíba em que vive a minha família, você muda de ideia já.


- Então vamos fazer o seguinte: enquanto eu fico aqui resolvendo o que fazer, você cobra as passagens de outros viajantes e arranja troco pra minha nota de 100. Daí, quando acabar o seu expediente, a gente toma uns drinques e de repente você decide ir comigo. Afinal de contas, você não vai querer ficar a vida inteira trabalhando de cobradora de foguete, certo?


- Mas antes você se casa comigo?


- Ô louco. Depois eu é que sou precipitado... vamos com calma, pra isso tem tempo.


- Todo o tempo do mundo, meu senhor. Quer dizer, meu amor.








© Direitos Reservados



29 comentários:

MIRZE disse...

Marcelo!

Impagável! Jõ Soares não sabe que você existe,

Isto é humor de 1ª linha!

Como somos inocentes!

AH AH AH!

Beijos

Mirze

A viajante disse...

Engraçado...eu, viajante que sou, acabo me envolvendo com motoristas de ônibus, taxistas ou comissários de bordos!!! São tantas horas juntos, que uma espécie de amor sempre nasce dessas relações transitórias... risos...adorei!!

Célia disse...

Ô Marcelooooo!!! Cada dia você extrapola mais ainda!!! Congratulations! Fico aqui delirando na escolha entre sumir do correio em greve que sequer entrega minhas contas a pagar...do banco que também faz o mesmo... (aliás, certíssimos eles, explorados pelo lucro banqueiro e governamental...) ou comprar meu bilhete para uma viagem intergalática! A última opção é a melhor, sem dúvida alguma! Abraço, Célia.

Rita Lavoyer disse...

Valeu! Só compro bilhete para viajar no blog do Marcelo.
Ainda é de graça, mas se cobrar eu pago também, só para não perder essas viagens criativas que você me proporciona.
Grande abraço
Rita

Marco Antonio Rossi disse...

bico doce,hein..................
abraço e um otimo final de semana
Rossi

Claudete Amaral Bueno disse...

Casar....não, né?????
Tá bão!!!!!! Vc tem uma imaginação que eu vou te contar!!!!!!!!!!
Bom fim de semana p/ vc tb........(melhor arrumar um amor e ficar "por aqui" mesmo.....c/ dívidas e tudo!!!)...
Um abraço. Claudete

Clotilde Fascioni disse...

Foi por essas e outras que outro dia coloquei no blog que estava com vontade de sair voando pelo espaço a fora sem lenço e sem documento…
Muito bom Marcelo♥

Santo Marcelo disse...

Eu queria mesmo é comer uma feijoada no restaurante do Albert Einstein com muita carne de porco e celebrar a vida!

José Claudio - Cacá disse...

Marcelo, sendo essa uma hipótese real, já imaginou se o Sarney fica sabendo dela e resolve topar uma viajada por uns poucos dias a anos luz? hahahahaha! Muito bom, meu caro! Muito bom! Abração. Paz e bem.

Jorge Sader Filho disse...

É, o mais interessante que a hipótese é verdadeira.
Ô Marcelo, esta cabeça inventa! Sempre dou boas risadas com suas histórias.
E a coisa por aí anda ruim, é uma mesmice só.
Grande abraço.
Jorge

Lisette Feijó disse...

Sim todo o tempo do mundo…abraço Lisette.

Ana Lucia Franco disse...

Marcelo, ficção científica e humor com muito estilo!

abrs!

Antônio Fonseca disse...

Ler ou conversar com pessoas criativas atiça outros caminhos inventivos na lida com a literatura. Eu não pensei neste lado aqui exposto, quando escrevi um texto que ficou hibernando durante uns quinze anos, por não saber como tirar o personagem de uma enrrascada. Só então me lembrei das varinhas de condão das fadas madrinhas e gritei: BINGO! Bem que poderia ter me lembrado das viagens intergaláticas à velocidade da luz. Quem sabe um final mais ilustre para o meu querido TONICO?!
Mas é assim mesmo, alguém ao ler o meu final com a fada madrinha, também vai gostar.
Parabéns Marcelo! Sensacional!
Abraços.

fernando dezena disse...

Muito boa!Parabe'ns Marcelo.

Lauro Augusto Bittencourt Borges disse...

Essa viagem é definitivamente do outro planeta, ou melhor, para o outro planeta... muitos e muitos risos aqui nas Macaúbas. abs. do fã.

Celi Estrada disse...

Gosto dos seus textos. Também quero viajar e voltar apÃ=Bs 16 anos igualzinho quando fui!...
AH! AH! AH!
Obrigada.

Cristina Siqueira disse...

Imagina…e fui.
Beijos,
Cris
Adorei seu comentário no blog,bom me ver através de seu olhar.

Valéria Gomes disse...

Sempre muito criativo!!! Beijos!!!

Evelyne Furtado disse...

Como sempre, é uma delícia ler você, Marcelo!
E ainda nos surpreende com uma viagem nesse nível! Adorei, amigo!
Beijos e boa semana.

Maria Teresa disse...

Marcelo:
Cuidado que o foguete já está lotado!!!
Adorei.
Abraços,

Arlete Gudolle disse...

Adorei mais esse texto, Marcelo. Criativo e se superando sempre.

Parabéns.

Arlete

Tony Marques disse...

Meu Caro Marcelo,
Você está muito exigente com seu humilde leitor, eu tive quase que recorrer à Mitologia Grega em pesquisa sobre Kronos e Kairós, para entender seu maravilhoso texto. Na verdade, as pessoas andam fazendo malabarismo para fugir de seus credores e esse cidadão foi fundo demais.
Um forte abraço e parabéns!

José Carlos Carneiro disse...

Provou que "A ordem dos fatores não altera o produto". E que há atenuantes para situações inusitadas, mesmo na possibilidade de um aventura espacial dessa envergadura. E no mergulho dos personagens nas profundezas da era espacial do século XXI e da ciência, encerrou com chave de ouro: - Meu amor.
Um ótimo feriado par você e família.

Paty Michele disse...

Eu sou tão desconfiada e pé no chão que jamais embarcaria num foguete tão barato...

Muito criativo e inteligente, Marcelo. Como sempre.

abçs

Claudinha ੴ disse...

Olá Marcelo! Eu tenho procurado alternativas como a Nova Matemática Moderna Que Eu Inventei (N.M.M.Q.E.I.) assim driblo o tempo, mas as viagens espaciais não estavam em meus planos até então... Gostei demais deste diálogo, já pensou poder voltar e à cada viagem arranjar um gatinho? E depois, quando cansasse, viajava de novo e pronto? hahahaha! Ótimo texto, como sempre! Bj

Mara Narciso disse...

Você tira da imaginação diálogos impossíveis como este, e nos diverte.

Leo Lobos disse...

Un abrazo desde Santiago de Chile, mis saludos cordiales, felicitaciones y agradecimientos por compartir su enlace

pmarsiglio disse...

Carácoles, Marcelo!
Este cara é a verdadeira reencarnação de Dom João VI!
Poderia colocar a "referência" abaixo do texto, he, he...
Excelente!

Gina Soares disse...

Tem um lugar disponível? rss
Excelente!!
bjss