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CAMINHO DE SANTIAGO EXTRA PRIME



Ilustração: Thiago Cayres

Tragam-me uvas frescas e tâmaras secas, imediatamente. A um estalar de dedos, quero caviares russos recém-embalados, trufas brancas de Piemonte e leite de cabra para hidratar os pés.



Alguns condenam-me pelo excessivo fastio nessa empreitada onde deveria prevalecer o sacrifício. Respeito, mas contesto. Afinal, o próprio Santiago foi um VIP. Quer existência mais VIP do que ser um dos eleitos de Jesus Cristo, predestinado entre milhões para entrar na história do mundo como um dos 12 apóstolos? O homem foi escolhido a dedo pra subir aos céus sem escala, com toda a pompa que os mártires merecem.


Sem querer insultar o santo, como quase todo VIP o nosso herói de Compostela soube se promover e atrair para si os holofotes da época. Reza a lenda que o glorioso Santiago quis que seus ossos fossem descobertos, após séculos esquecidos numa arca de mármore. Para tanto, patrocinou noites e noites seguidas de chuvas de estrelas, no Bosque de Libredón, onde foi enterrado. Alguém contesta que isso é gostar de aparecer? Entendo que, se ele permite que eu complete meu caminho com todas essas regalias a que me entrego, é porque o procedimento não destoa do seu código de conduta enquanto santo de primeiro time. Caso contrário, faria recair a ira divina sobre minha carcaça.


O que importa é concluir a jornada, seja lá como for. Se o faço com banquetes a cada quinhentos metros, é porque Deus me julga abençoado e concede-me a graça de que assim seja. Os que se penitenciam passando sede, fome, cãibras e dores no corpo de caso pensado, assim o fazem provavelmente por terem a consciência pesada e por saberem que devem se sacrificar para alcançar a misericórdia divina. Não é o meu caso. Sou um homem justo e de consciência limpa. Pago religiosamente sete nonos de um salário mínimo a cada um desses serviçais que me transportam na liteira e me abanam com plumas de avestruz, em turnos de 16 horas com 30 minutos de merecido descanso para um naco de goiabada. Nem Salomão dispensaria melhor tratamento a seus escravos.


Quando me enfastia ficar deitado entre linhos e sedas, apeio do meu dossel ambulante e caminho uns três minutos, não sem antes cobrir-me com o véu antimoscas, calçar meu tênis com quatro exclusivos sistemas de amortecimento simultâneo e levar comigo um razoável estoque de Perrier a -3ºC. Compreendam que uma empreitada de 800 quilômetros para purificação do espírito não pode levar à destruição do corpo. E sendo ele a morada da alma, deve ser tratado a pão-de-ló. Agora, se me dão licença, é hora de aparar minhas cutículas.


© Direitos Reservados



Comentários

  1. Compartilho da tua lógica...rsrs
    Abraços!!!

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  2. Marcelo... estou aqui rasgando bíblias, destituindo santos de altares improvisados, dogmas latrina abaixo, exigindo meu leite de cabra para hidratar-me em minha banheira e para enxágue do corpo são em mente sã, um tonel da minha água Perrier... E, claro mudando o itinerário da minha romaria!! Paris, me aguarde!! Afinal, sem estrelas caindo do céu por mim, também sou filha de Deus. Plenamente de acordo com seu postulado! Abraço, Célia.

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  3. Belvedere Bruno6:12 AM

    Eu amo seus textos!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    Bjs

    Bel

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  4. Sandra9:58 AM

    Marcelo, que delícia de texto. Com o maior humor você desmistifica, ironiza e não perde a elegância nas palavras. Não me canso de repetir, você um mago.
    beijão

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  5. Assim, me convida a próxima vez que você for kkkkk
    Ps senti a falta de umas cinquenta virgens

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  6. Claudete Amaral Bueno12:03 PM

    Oi!
    Vamos por partes:

    Seu viajante faz inveja à Rainha de Sabá! kkkkk

    Qto ao Santiago.....s/ querer defendê-lo, mas essa lenda a s/ respeito....é de lascar, hein?????

    Sem querer ser "metida" tb.....(pois n/ tenho mérito algum p/ isso)....tb fui predestinada p/ subir aos céus sem escala...
    E n/ estou tirando sarro. É a mais pura verdade. Pelos méritos do sangue que Jesus derramou na Cruz por mim (e por vc!)...

    Caso contrário....de que teria servido sua vinda à terra e seu sacrifício em nosso lugar??????????
    Então, sou mais feliz que esse seu personagem exótico, pois NADA preciso fazer pela m/ salvação. Jesus já fez tudo.

    Eu apenas me arrependo dos m/ pecados, aceito Seu sacrifício e espero tranquila, dentro da m/ casa, c/ a passagem na mão,
    a hora do embarque....que ninguém sabe que hora será......

    Desculpe pelo longo comentário, mas......n/ poderia deixar de fazê-lo.
    Um beijão p/ vc....e um ótimo final de semana....apesar da chuva!...rssssss

    Claudete

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  7. Clotilde Fascioni12:59 PM

    Marcelo adorei o seu texto! Até porque a minha filha e seu marido ja fizeram este caminho em 1998, a pé mesmo, e disseram que tem pessoas que vão realmente de carro, a cavalo, bicicleta, moto e quem sabe até liteira como o seu personagem.
    E que pelo caminho encontraram em determinado ponto, aquela máquina do refrigerante marrom, e até a fotografaram.
    Mas o que adorei mesmo foi o tenis da criatura: “tênis com quatro exclusivos sistemas de amortecimento simultâneo”.
    Bárbaro!!! Parabéns!

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  8. Mirze1:00 PM

    Marcelo!

    Arrasou! Ah se o “mago” Paulo Coelho ler seu texto, e resolver fazer mais um milhão de livros, poe esta ótica.[acho que esganarei você]. Confesso que não sabia que São Tiago fora tão preferido assim. Mas se ele foi, não foi por fazer esse trajeto, mas por converter ao cristianismo várias pessoas. Agora é ponto turístico, mas mesmo assim, não tenho a menor vontade de fazer. Nem com todo esse luxo, que não faz minha praia.
    Achei inteligente da sua parte, começar o caminho da santidade pelo fim.

    Fantástico!

    Beijos

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  9. Antônio Fonseca3:47 PM

    Pode ser que os comentaristas não enxergaram o que vi. Nas entrelinhas desse belo texto vi uma crítica ao número exorbitante de impostos que pagamos. Por eles deveríamos ser transportados em liteiras, abanados por leques de penas de avestruz e cuidados criteriosos de mucamas carinhosas. No entanto, taxam-nos de ricos por eles (os impostos) e vivemos contando migalhas para varar o mês. Ajudai-nos São Tiago de Compostela.

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  10. Zezinha Lins3:48 PM

    A ironia e a crítica brincando de esconde esconde até que o humor escancarado os encontra e recomeça a brincadeira.
    Você é um gênio, Marcelo!!
    Beijos!

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  11. Jorge Cortás Sader Filho1:07 AM

    Vai firme, Marcelo. Escreve na volta.
    Além de vender até para esquimó, a Academia o espera.
    Abraço,
    Jorge

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  12. É... Não sei se seria tão VIP, mas não é meus estilo lidar com bolhas, mosquitos, sede e fome... Acho que eu seguiria o caminho do meio, porque sou meio metida à budista, sem na verdade o ser. Talvez por ser Wicca, sem mesmo o ser, seria brindada com chuvas de estrelas, mas só por algumas horas, não estou tão bem assim na fita... Você, Marcelo, com seus textos pra lá de criativos, me faz exercer a minha criatividade e agora vou pensar seriamente em fazer este caminho. Tenho sangue espanhol, uai! Rsrsrs. Beijo!

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  13. Anônimo9:31 AM

    Ai,ai! Fiquei cansada só de ler "800 quilômetros" de caminhada. Mas descansei lendo o texto, tão engraçado. Até eu. Mais vale uma liteira que me leve, a um cavalo que me derrube.
    Abração Marcelo!
    Rita Lavoyer

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  14. Juliana Gobbe12:31 PM

    Marcelo. Adorei seu texto. Será que posso publicá-lo no blog da ALA JOVEM?

    Beijos!

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  15. Jota Effe Esse12:33 PM

    Marcelo, você não acha que sete nonos são demais? Bastam sete centésimos! Eu já estava de acordo com você na forma de fazer sacrifícios, desde que vi devotos andando de joelhos para pagar promessas feitas e recebidas no devido tempo. só que à frente deles iam pessoas colocando macios tapetes, que após sua passagem eram retirados e colocados novamente à frente. Assim eu vou longe!

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  16. Valéria Gomes12:34 PM

    Uma delícia, do começo ao fim!!! Parabéns e beijo no coração!!!

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  17. Tanika Toon3:12 PM

    Oii Marcelo, gostei muito do texto "Caminho de Santiago Extra Prime". Muito legal! Bjuss...

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  18. Meu amigo, por razões glutônicas que você bem conhece, esse macaúbico é um forte candidato a perpetrar a caminhada mítica. E é claro que na minha também vou me cercar deste entorno prazeroso e gastronômico. A lavra, como de hábito, está genial.

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  19. Eu só iria também no merecido conforto e com a garantia de chuvas de estrelas, sou meio fresca, rs...
    Beleza de texto, Marcelo!
    beijos

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  20. Cristina Siqueira8:21 AM

    Este é o mago.
    A liteira do Caires é um veículo indispensável ao peregrino do corpo são em mente sã.
    Se perder o humor não há salvação.
    beijos,
    Cris

    ResponderExcluir
  21. Cristina Siqueira8:21 AM

    Este é o mago.
    A liteira do Caires é um veículo indispensável ao peregrino do corpo são em mente sã.
    Se perder o humor não há salvação.
    beijos,
    Cris

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  22. Evelyne Furtado11:37 PM

    Plenamente justificado o tratamento VIP para cumprir o Caminho de Santiago. Sofrer para que, se a consciência está tranquila?Cá para nós, eu não poderia fazer nesse estilo, mas bem que gostaria de fazê-lo com muita sombra, água fresca e mais alguns ítens de conforto. Adorei, como sempre, Marcelo! Bjs

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  23. Elizete Lee11:38 PM

    Genial Marcelo, Pensando assim, eu até possa fazer esse caminho
    algum dia, pois quando minha amiga contava de suas aventuras, eu só pensava na minha companheira dor lombar e se não houvesse o meu "cataflan" pra tomar...rsrsrs

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  24. Eu sou uma viajante bem adepta dessa teoria...amo conforto! Mochila, só se for pra carregar algodão doce, bem doce e bem leve!

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  25. José Carlos Carneiro7:08 AM

    Honestamente, uma overdose da mais fina sutileza, regada com comes e bebes para não se colocar defeito, e lances de justiça dos mais incríveis. Nada como essa sátira tão bem delineada, jorrando da mente aos borbotões, transformando ideias em palavras.

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  26. ... até tela anti-mosquito!

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  27. Mara Narciso3:47 PM

    Só posso rir satisfeita pelo deleite que é ler suas bem traçadas linhas. Essa é a imagem de homem justo e misericordioso. Sete nonos de um salário mínimo? Que conta complexa. Pobres escravos!

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  28. Belo sábado com essa chuvinha. Seu delicioso texto contribui para mais(ou menos) um dia.
    Abração!
    Berzé

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