01 Outubro, 2011

MORTOS DE RIR



O Willy não precisava ter ido tão cedo. Não precisava mesmo. Uma desatenção nossa e olha ele aí, finado. Ainda se tivesse procurado o fim – tomado veneno de rato, dado um tiro na têmpora, um enforcamentozinho. Mas assim, pego de surpresa, ver-se defunto da noite pro dia e a contragosto, não deve ter sido fácil.



Bom Willy, tão viciado em vida e de repente nessa situação. Em quase todas as sepulturas do cemitério, a estrelinha e a cruz, a data da morte e o dia do nascimento. Com estrela você combina, mas cruz não é o seu estilo.


Prometo que, tão logo o padre encomende sua carcaça, cairei fora desse latifúndio de esqueletos e entrarei no bar mais próximo para beber à nossa saúde. À minha aqui embaixo e à sua aí em cima, seu desalmado. Embora beba quase nunca, farei isso por você.


Aguardo, sua besta, você numa noite dessas pra me puxar as pernas, fazendo gracejo das coisas sagradas. O céu nunca mais será o mesmo depois da chegada de “Aero Willy”, o querubim gozador. Tô até vendo você tentando empurrar uma rifa pra cima de São Pedro ou convencendo Santo Expedito a ser seu fiador numa confortável nuvem de dois dormitórios.


Quero que fique em relevo no mármore branco e no granito preto desses túmulos um pouco dos melhores momentos que tivemos. Um dia, querendo ou não, a vida vai me mover um processo de desapropriação e virei também morar por essas bandas. Seremos vizinhos de novo, como éramos de rua.


Agora é essa serra azulada circundando o campo santo. Deixar você assim desamparado, no meio de tão desanimadas companhias, é de cortar o coração. Sinto um espírito me soprando ao ouvido: “escreve aí no seu texto pra cuidarem mais da gente. Só lembram que a gente existe dia 2 de novembro, isso é uma desumanidade”. É justo. Inexistente também existe. Não é porque morreu que deixou de merecer consideração.

Assim como os vermes daqui a uns dias avançarão com menos apetite sobre os seus restos, as lembranças suas também irão perdendo o brilho e a nitidez, sei disso. Sei do inevitável disso. E deixo subirem à mente as pipas todas que soltamos e milhões de bolhas de sabão, da época em que a gente tinha o tamanho dos anjinhos tocadores de trombeta, iguais a esses da tumba aqui do lado.


- Acorda aí, palhaço. Que cara de sonso é essa...


- Willy, é você? Eu tava sonhando ou é você que veio me buscar?


- Dá um cigarro, vai. Anda.


- Tá, mas primeiro me conta o que é que está acontecendo.


- Calma, tudo a seu tempo. E tempo a gente tem de sobra daqui pra frente.


Caímos na gargalhada. Acesso de riso no cemitério, coisa mais sem cabimento. Rimos tanto que apagamos as velas com as nossas risadas. Ao fundo, a trilha de Nino Rota para “Oito e Meio”. O coveiro passa por nós, mede a dupla de cima a baixo e faz um “tsc-tsc” de desaprovação.


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27 comentários:

Célia disse...

Marcelo!
Mais uma crônica mortífera sedutora e sensacional! Seu humor ácido e irreverente diz muito da verdade da vida e morte de todos nós! Até por lá... pelo menos gargalhadas serão garantidas!
Abraço, Célia.

Cacá disse...

Hehehe! A morte só é bem vinda quando nos vence (ou convence) por decurso de prazo. Fora disso é intromissão das mais descabidas. rsrs. Abração, Marcelo. Paz e bem.

A viajante disse...

Já entendi que sábado é meu dia de me divertir com seus textos mais leves do que as nuvens do novo céu de Willy! Muito bom!!!!! Bj, querido!

MIRZE disse...

SENSACIONAL, Marcelo!

A morte é amiga, muitas vezes. É a única certeza que temos depois do nascimento. Esse medo da morte, deve ter vindo com as estórias que contam, com filmes de terrorm enfim com toda parafernália que envolve um fato tão corriqueiro.

Agora seus personagens estão demais. Assim que devia ser sempre.

BOM HUMOR também na morte!

Beijos

Mirze

Marco Antonio Rossi disse...

Meu amigo, um otimo final de semana.
Como seria bom se pudessemos encontrar e dar boas risadas, tomar uma cerveja com os amigo que já se foram.
Que saudades..................

Rita Lavoyer disse...

O mais engraçado é que até quem nunca morreu está morrendo.
Morrendo de rirrrrrrrrrrrrr.

Ai ai ai ai ! Eu quero viver até acabar. Só pra morrer de rir novamente.

Abração, seu engraçadinho!
kkkkkkkkkkkkkkkkkk

Ana Christina Victorelli disse...

Super legal !!!! O referido campo santo, é o nosso conhecido ????? Pela descrição...!!! Bjos e boa semana !!!

Clotilde Fascioni disse...

Éeeeeeeeh, a cada dia a sua morte. Precisamos nos ir despedindo daqueles que realmente soltam pipas conosco, assim quando chegar a nossa vez estaremos sendo esperados alegremente entre pipas e bolhas de sabão… belo texto Marcelo, e que demore muito ainda para ver o que acontece do outro lado…♥♥

Anônimo disse...

Marcelo, um texto excelente onde a morte aparece da forma mais fantástica. Tenho amigos que sequer podem ouvir falar na amiga, e em muitas horas ela á. Gostaria de morrer de rir, deve ser muito bom. O coveiro ainda desaprova. Ah se toda morte fosse assim. Tenho certeza que mesmo que eu não “morra de rir” Vou sorrindo para a outra vida!

O BOM HUMOR É A ARTE MAIOR!

Abração, amigo!

Patrícia disse...

Tenho lidado tanto (e tão de perto) com a morte esse ano, que só fazendo (lendo) piada mesmo. Se é natural morrer, pq tanta gente tem tanto medo disso. Morrer é reviver.
Belo texto, jeito leve de se falar em algo “pesado”.
Um abç, Marcelo.

Zezinha Lins disse...

E o fantasminha camarada existe mesmo!!! E tem um camarada também!!!
Ai, ai,ai, o que falta esse menino inventar rsrsrs!
Muito bom, Marcelo, como sempre!
Bjo!

Jorge Cortás Sader Filho disse...

Defunto, cemitério, tempo de validade…
Tô fora! Não sou jovem, Marcelo.
Mas beber umas manguaças eu topo.
Abraço.

santomarcelo disse...

A boa morte trás em seu bojo um séquito de peitos caidos.

Antônio Fonseca disse...

É bastante tétrico conversar com mortos. Porém, já conversei muito. Só não tive a audácia de escrever o que falava. Faltou-me esse tino. Lembro-me agora que, daria bons contos se os tivesse escrito como você, com maestria, nos apresentou este. Até me veio a ideia de escrever uma novela com esse tema…
Parabéns.

Rita Elisa Seda disse...

Intrigante esse Willy, aposto que era um amigo virtual! Hehehehe! Felicidades e a paz!

Lauro Augusto Bittencourt Borges disse...

Falar da morte com humor, leveza, sem escorregar para o mau gosto, só o talento da pena de MPS. Eu que morro de medo de morrer, até consegui rir. abs

Lúcia disse...

Oi,de onde você tira essas ideias Marcelo?Tu és muito louco.Um louco genial,adorei!

Abraços,Lúcia
02/010/011

Claudete Amaral disse...

Corpo da mensagemQual dessas famosas relíquias, vc arrematou????????kkkkkkk

Tony Marques disse...

Marcelo,

Certa feita, em um comentário em meu Blog, você disse: Esse é seu melhor texto. Agora, quero retribuir dizendo o mesmo. Texto sensacional! Dentre todos os seus, esse foi o que mais me divertiu e para não ser pego de surpresa já coloquei uma coisa na cabeça e disso não abro mão: Morrer não pode ser a pior coisa do mundo… Afinal, todos morrem. Detalhe importante: Não tenho pressa!

Um forte abraço!

Miriam Sales disse...

Adorei tudo,menos a ideia desta morte fora de hora.Sem aviso prévio ,acho um desaforo.
Vou me queixar á minha conterrânea do CNJ pois ela entende muito de leis,juízes sem juízo e fantasminhas judiciários.
Agora,pensas q/ vou dar de comer a vermes? Serei cremada.É mais chic e mais barato. bjks mórbidas

Miriam Sales disse...

Voltei,como uma fantasma inxerida p/ dizer que,pela parte q/ me toca,vc,o Sader eo Cacá estão proibidos de morrer. rsss

Cristina Siqueira disse...

Nem posso dizer que é humor Negro dada a alma Branca do texto.

Muito bom.

beijos,

Cris

Lídia Maria de Melo disse...

Falar de morte sem ser piegas e sem cair no escracho, só sabendo lidar com as palavras como você sabe. Humor no ponto. Adorei, como sempre. Um abraço.

Valéria Gomes disse...

Essa dupla é de morte, hein!!! Beijos!!!

Mara Narciso disse...

Um homem muito espirituoso suicidou-se por aqui. As crônicas que aconteceram só mostraram alegria e fatos engraçados. Ele tinha a veia da irreverência e humor. Ainda assim a morte de um amigo não tem nada de bom. Não sei, mas eu fiquei triste com a história. Hoje estou muito sensível, Marcelo, desculpe. Deve ser a morte de Steve Jobs.

Claudinha ੴ disse...

Ah, mais um texto muito bem humorado! Quem pode vencer a morte? Ou será que aderir é um jeito de vencê-la? Eu, heim? Já venci esta batalha mais de uma vez, to fora... Rsrsrs. Um beijo!

Gina Soares disse...

.... agora tem todo o tempo do mundo!! rssss
Muito bom!!!!
bjsss