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22 Outubro, 2011
RELATOS LITERAIS: COR DE BURRO QUANDO FOGE
Ilustração: Thiago Cayres
Reconheço de antemão que a comprovação de qual seja fielmente a cor do burro foragido continuará sendo uma das grandes interrogações do homem contemporâneo, de demonstração tão complexa quanto o último teorema de Fermat. Não é justo, entretanto, que me furte a trazer aos cativos deste espaço dois experimentos que se propõem, cada qual a seu modo, a elucidar a questão e quiçá lançar uma pá de cal sobre o assunto. Julgo, todavia, que ambos nunca estiveram tão longe da verdade, como perceberá o leitor no breve relato que se segue.
O primeiro é um tanto quanto frágil no tocante à metodologia científica adotada, pois se baseia meramente na acuidade visual dos investigadores.
Sustenta este grupo de nefelibatas, composto por pesquisadores do Alabama, que o ato da fuga enrubesce o animal devido ao esforço físico exigido, o que confere momentaneamente ao mesmo uma coloração que varia entre o rosado e o vermelho-vinho, passando pelo magenta queimado. Esta elástica paleta de cores, convenhamos, continua a deixar a questão sem resposta. Vale notar que argumento semelhante rendeu defesa de tese há cerca de 12 anos na Universidade Quincas Borba, cuja banca examinadora era encabeçada pelo laureado professor Demóstenes Benz, sobrinho-neto da mundialmente famosa Mercedes. A discutível validade dos achados, somada à suspeita de plágio que paira sobre os autores, me autoriza a desconsiderar a pesquisa na fundamentação de qualquer investigação rigorosa que se empreenda sobre o tema, aqui ou no exterior.
O segundo experimento levanta a hipótese de que a cor do burro em desabalada carreira se manifestaria em sua epiderme. Sendo o bicho coberto por espessa pelagem, seria logicamente impossível um flagrante fidedigno. Assim, procedeu-se à realização do teste em uma área previamente raspada, próxima à crina do quadrúpede.
Expoentes diversos do setor de medicina veterinária julgaram o resultado cromático obtido na empreitada como inconclusivo, uma vez que refere-se especificamente a um burro estudado, e não ao conjunto de burros fugitivos espalhados pelo planeta. Argumentaram que a amostragem só ganharia lastro científico se contasse com pelo menos cinco grupos de controle, formados por burros de cada um dos cinco continentes.
Outras contundentes objeções também não faltaram a este estudo, consideradas impeditivas para a exatidão dos laudos apresentados:
. O grau de inclinação do terreno onde se realizou o galope;
. A natureza do solo, sua porosidade e o coeficiente de resistência entre este e as patas do animal;
. A quantidade de feno consumida desde a véspera pelo burro-cobaia, bem como o total de líquido ingerido e o número de horas dormidas na noite imediatamente anterior aos testes;.
. A raça, a idade, o peso e as variantes de temperatura, pressão arterial e batimentos cardíacos do dito cujo.
Finalizando, podemos categoricamente afirmar aquilo que já tinha-se como comprovadamente constatado, ou seja, a cor de burro quando foge é da cor do burro quando foge.
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28 comentários:
oi Marcelo, finalmente alguém chegou à conclusão sobre o assunto. Você fez muito bem em desqualificar a opinião do parente da Mercedes. Com muita segurança daqui para a frente repetirei a quem perguntar: cor de burro quando foge é da cor do burro quando foge.Sábias palavras do meu amigo Marcelo Sguassábia, que opina sobre tão sérios assuntos com a maior graça.
abração
Marcelo! Galopando no "burro"... e cantando "Cartomante" com a Elis Regina, cheguei à conclusão de que: "cai o rei de espadas/cai o rei de ouro/cai não fica nada"... e na tese final, assino com você:
..."julgaram o resultado cromático obtido na empreitada como inconclusivo, uma vez que refere-se especificamente a um burro estudado, e não ao conjunto de burros fugitivos espalhados pelo planeta"...
Apeada do burro, estou ainda procurando a coloração do dito cujo, pois há uma récua de fugitivos... dos quais nunca se soube a cor, sequer o destino dado aos mesmos! C.Q.D. = "como queríamos demonstrar"...teorema difícil... inimaginável!
Abraço, Célia.
Fica o galope e a poesia. Gostoso esse seu texto: bom pra gente.
Abração!
Berzé
O problema é que todo sábado, me faz pensar sobre essas suas loucuras inventadas e hilárias... mais um problema pra essa minha cabecinha problemática! Juro que não sei qual é a cor do burro quando foge, nem por quem os sinos dobram...
mas vc esta universal heim marcelo! qm sai aos seus...... bem n
consigo abrir anexos so pl titulo confirmo alguma coisinha: qdo minhas
cachorras fazem algo errado, matam pintinhos, galinhas, gansos... etc
voantes, saem de perto, se escondem no pomar e trazem escrito na testa
e nos olhos, mm sem terem ido a escola q fizeram algo de errado, de
mmmtttooo errado! deve ser como a cor de seus burros q nem imaginam de
q cores sao! abracos 1000 saudosos
Marcelo:
Por ser uma questão a que n/ se chega a um acordo, como vc brilhantemente provou e comprovou…..fico com o ditado como ele era, antes da sua corruptela: Corro de burro quando foge!….rsssssss Beijão! Claudete
Marcelo!
Um texto que fala a linguagem que o povo assimila. Thiago colocou cores tão lindas nos burrinhos, que nem dá vontade de fugir.
Excelente,
Beijos
Mirze
Semelhante tentativa fizeram com a zebra. Não sei se chagaram a tal sofisticação nas pesquisas e testes, mas a questão era provar se a zebra era um animal branco com listras pretas ou um animal preto com listras brancas. Prevalece uma hipótese conciliadora que seria um animal sem cor listrado de preto e branco (ou de branco e preto? hahahaha! Ótima, Marcelo! Meu abraço. Paz e bem.
Olha só... um estudo completo acerca do tema! rsrs
=)
Álly
Marcelo, você botou a cor do saber no cinza das minhas dúvidas. A cor do burrito foragido é dos enigmas que me intrigam desde tenra idade. Acho que seu texto já está nos anais dos melhores insights cromáticos (seja lá o que isso seja) do planeta. abs,
Dizem que a transpiração é atributo dos poros. Se a pele do porco que não tem poros transpira podemos afirmar que é verde a cor do burro quando foge.
Realmente um mistério que requer aprofundamento dos estudos para se chegar à verdade abasoluta rsrsrsr
Ótima crônica.
Fenando Dezena
Olá Marcelo!
estou aqui a confabular com minhas nuvens na varanda. Sempre tive esta dúvida e somente diante desta pesquisa de grande rigor científico tive coragem de me pronunciar e quem sabe, colaborar um pouquinho com a pesquisa, sem querer ser intrometida, mas já o sendo.
Lá na fazenda, tínhamos o Pocotó, um burro burro e teimoso, como todo burro teimoso. E ele um dia, cansado de tanto ser chamado de burro, resolveu fugir e , para não ser encontrado, desenvolveu várias técnicas de camuflagem. Ele que demonstrou não ser um burro tão burro assim conseguiu êxito, pois, rolou na terra rossa e ficou sujo, passou pelo capim e saiu cheio de verdes e ainda entrou no açude onde se misturou um verde musgo à sua coloração angustiada. Note-se que ao perceber tal formação em seu pelo, ele , feliz da vida, ganhou o mundo e nunca mais voltou!
A do rei!
Um beijo.
Amei sua crônica, Marcelo. Muito bem humorada. Parabéns!
Não consigo postar meus comentários no Blog...
Bjs
Visite os Blogs:
http://filmedoc.blogspot.com ( de Sílvio Tendler - diretor de cinema)
http://cronicaseg.blogspot.com ( de Cacá Mendes- escritor)
http://cronicadelirio.blogspot.com (Risomar)
Obrigada pelo texto, bastante original!...
Marcelo:
A cor do burro ficou nas palavras que o foram tingindo de poesia. Lindo texto.
Abraços
Conclusão brilhante, afinal agora sei que burro quando foge tem a cor de burro quando foge. Acho que você se diverte ao escrever tanto quanto nós seus elitores. Adorei!Um abraço na família Benz e beijos para você, meu amigo.
Muito legal, querido!!! Beijos!!!
Hoje acordei-me preocupado e você me aparece com essa crônica confirmando que existe mesmo a transmissão de pensamentos. E ela existe até em sonhos. Imagina você que, no sonho, eu era um pesquisador lusitano e fazia pesquisas para provar a cor do burro quando foge! Usei o ultrasom em 3D e vi. A cor do burro quando foge é igualzinha à cor do burro quando foge. Minha preocupação foi de não ter chegado a lugar algum. Disso todos já sabiam.
Abraços e até a próxima.
Marcelo, obrigada por me atualizar sobre os estudos referentes a cor do burro em fuga, e também por me dar a satisfação em saber que o laureado neto da Mercedes foi o lider da banca examinadora de tão importante tese para a evolução da espécie.
Adorei meu amigo. Como sempre imbatível nas suas divagaçoes...
Parabéns!!!! :0)
Clotilde Fascioni
Achei interessante seu post. A cor de burro quando foge é da cor do burro quando foge. Bem bolado. Gostei de conhecer seu blog, e sigo com certeza esse seu horizonte de cores. Venha conhecer meu bloguito e se gostares me siga também. Beijos!
Cheguei rápido rsrs. Obrigada pela presença, fiquei feliz te ver por lá, porque gostei muito de estar por cá rs.Voltarei sempre pra te ler. Bjs e ótima noite!
Pelo que sei, caso possamos complicar, para que descomplicar? Essa cor faz parte dos ditados errados que vão se entranhando na mente do povo e o errado vira certo. Os manuais de cultura inútil garantem que o correto é "corro do burro que foge", no intuito de não levar um coice ou mordida. A sua explicação é bem mais interessante, Marcelo.
Aqui no popular se diz com a roupa suja: "Cor de burro quando foge"!
Já cheguei a pensar que a cor do burro é transparente invisível. Pois que o burro correu tão rapidamente que nem deu pra eu ver o danado.
É… Eu pensava que esta família exemplar, numa casa perfeita em local paradisíaco, iria terminar com risonhos netos correndo em todas as direções.
Quebrei a cara, o autor estragou tudo!
Grande tacada, Marcelo.
Abraço
desconocia totalmente este tema. gracias por compartirlo.
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