Pular para o conteúdo principal

SUBTRAÍDO DA MULTIPLICAÇÃO


Imagem: Thiago Cayres

Esteve a bem dizer na multiplicação dos pães e dos peixes, aquela dos evangelhos, mas nem por isso saiu com a fome morta. Chegou segundos depois, e do milagre do Messias viu farelos e mais nada. Acabaram com tudo, pensou, comeram a não poder mais e nem um bocado restou ao meu estômago nas costas. Quis mesmo o filho do Criador que fosse assim? E se sim, por que comigo e não com outro? Clamava alento e pena da multidão saciada, que não o via, que já na sesta se estirava digerindo seu fastio, que não conhecia e nem soubera esperar por ele - um parente distante de Zebedeu. Era aquele que teve o azar de chegar depois da fartura que o Salvador fez servir. Assim refletia, quando sentiu a pontada no pé - espinha de peixe esquecida pelos famintos da hora. Santo sou eu que não como, e que do peixe só levo a dor deste machucado – desabafou, erguendo as mãos para o céu. E seguiu caminhando por meses, devagar e meio manco, até que encontrou as botas que Judas havia perdido.





© Direitos Reservados

Comentários

  1. Não seria ele o "trabalhador da última hora"? Ou aquele último que chega para ser o primeiro?
    Você me deixou pensando...pensando...
    Muito bom Marcelo, abçs

    ResponderExcluir
  2. Melhor seguir faminto do que engasgado... risos... beijo, querido!

    ResponderExcluir
  3. @#x@#*//... Pergunto: o que teria ele xingado? [risos]...
    Olhe, Marcelo... quando chega o sábado já espero suas "fanfarrices literárias" que amenizam toda uma semana de minhocas mentais!! Esse perdeu os peixes, os pães, se tivesse na festa do casamento, perderia na certa o vinho... enfim, a dignidade a qual nenhum pastor conseguiria reunir suas ovelhas... por mais dóceis ou desgarradas fossem! Andanças liturgícas!
    Abração da Célia.

    ResponderExcluir
  4. Marcelo,

    Você é surpreendente, sempre há algo de bom para se refletir.
    Bom fim de semana.

    ResponderExcluir
  5. Marco Antonio Rossi7:48 AM

    otimo final de semana.
    espero que quando ele encontrar o primeiro estepe de dedão do judas, consiga tambem um naco de pão que caiu de alguma sacola dos comensais do evento......
    Abraço
    Rossi

    ResponderExcluir
  6. José Carlos Carneiro10:59 AM

    Os temas bíblicos são deveras interessantes, mas nada como inserir neles umas pitadas de outra ótica para nos fazer rir.
    Amanhã informo o que saiu na Gazeta de sábado.
    Amanhã, aliás, é dia de pega pra capar no campeonato brasileiro. Sou o corintiano mais fajuto da paróquia. Se o time não merece, torço contra. E se ganha, sinto-me como quem alcançou uma boa realização e acabou não vendo mais qualquer graça. A insatisfação do ser humano às vezes me encanta, às vezes me entedia.
    Um abraço e bom domingo.

    ResponderExcluir
  7. Fantástico!

    É isso que dar ser parente. Nada dá certo. Zebedeu, acompanhou o mestre, mas o parente deve ter aproveitado para dormir e acordar tarde.

    Um final "chave de ouro", inesperado, mas repito sempre que o Mestre amava tanto Judas que a ele concedeu a missão de o trair. Ele era fiel.

    Estranho, não é?

    Beijão amigo!

    Parabéns!

    Mirze

    ResponderExcluir
  8. Zezinha Lins1:11 PM

    Pense num escritor criativo!! Pensou?? Pense mais? Pensou? Pois ele é muito mais criativo do que vc pensou.

    Como sempre, me divirto bastante com seus textos, Marcelo. Obrigada, meu amigo.
    Beijo!

    ResponderExcluir
  9. Claudete Amaral Bueno1:48 PM

    Sua imaginação, como sempre, espetacular......rssssssss
    Só que, nas duas multiplicações, sobraram muitos cestos de pães.......Ele ficou c/ fome...atoa! rssssssssss

    Um abraço....boa semana! Claudete

    ResponderExcluir
  10. Jorge Cortás Sader Filho10:29 PM

    Espinha de peixe, é? Perigosa, perigosa.
    Não tanto como o nonsense criativo – bota criativo nisto! – do Marcelo.
    Pode? Pode sim, ele acaba de provar!
    Abraço,
    Jorge

    ResponderExcluir
  11. Muito bom! Abraço bom domingo!

    ResponderExcluir
  12. Oi,ele encontrou uma bota,então,vai proteger o outro pé.O Criador sempre ajuda a quem sempre madruga,mas esse dormiu demais só porque é parente do Zebedeu.Esse Zé é aquele que cobrava imposto?

    Abraços,Lúcia
    27/11/011

    ResponderExcluir
  13. miriam sales10:21 AM

    Vc é demais,garoto.Vou te dar o Nobel. bjks

    ResponderExcluir
  14. José Carlos Carneiro12:04 PM

    Uma coisa que não sei é ser sucinto, como se diz popularmente, curto e grosso. E tenho uma inveja danada de quem consegue fazê-lo. A crônica mencionada é um bom exemplo disso: diz mais que mil palavras.

    ResponderExcluir
  15. Caracas! Pensei que fosse dar aquelas gargalhadas do começo ao fim, e não é que este me pôs a refletir sobre a função das botas do Judas? Menino, tudo existe realmente, desmentindo os mitos. Se alguém disser a partir de agora que está lá... onde Judas perdeu as botas, eu vou entender e ajudar as pessoas a entenderem também.
    Esse lugar está no blog do Marcelo.
    "Os Caçadores de Mitos" vão perder o empego na TV.

    Grande abraço, Marcelo.

    ResponderExcluir
  16. Texto rico em reflexão. Beijos e ótima semana;

    ResponderExcluir
  17. Marco Bastos7:41 AM

    Atrasou-se, não foi? Para uma ceia que não houve, com os pães e peixes que conhecia. No mundo dos santos é a esperança que alimenta, e esse alimento todos que o bem conhecem sabem que se auto-multiplica – quanto mais se espera mais se tem a esperar. Oh! incrédulo, que nem pensaste que foste alimentado com a abstinência que te foi proporcionada e nem percebeste tua alma saciada. Mas ainda é tempo para aproveitar a “lição da espinha-do-peixe”. Há quem escreve certo por linhas tortas, tal qual Marcelo. Imagine o padecimento que não tiveste caso a espinha se cravasse em tua garganta. Agradeça o bem que te fizeram e arrependa-te dos impropérios proferidos. Quem não sabe rezar ofende a Deus. Reza, irmão, que na próxima tudo será muito diferente.

    ResponderExcluir
  18. Valéria Gomes7:41 AM

    Brilhante!!! Boa semana para ti!!!

    ResponderExcluir
  19. Cacá7:42 AM

    Zebedeu feito parente do Pedro Pedreiro. Brilhante, Marcelo, brilhante (pra variar). Grande abraço. Paz e bem.

    ResponderExcluir
  20. Mara Narciso12:09 AM

    O final pegou o leitor de calças curtas, pois funcionou como uma queda de avião.

    ResponderExcluir
  21. Arlete Gudolle11:53 PM

    Adoro esse teu jeito irreverente de escrever. Baseada nesse teu conto, escrevi “Para não dizer que não falei do tempo”. Portanto, tu foste o “meu muso” inspirador. Aparece no meu blog (www.palavrasdearlete.bogspot.com), amanhã e poderás ler o texto em que o teu “Subtraído da multidão” serviu como inspiração.
    Abraços.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A CAPITAL MUNDIAL DO BILBOQUÊ

Para os menores de 30, é natural não conhecê-lo. Então comecemos por uma sucinta porém honesta definição.

Bilboquê: originário da França, há cerca de 400 anos, foi o brinquedo favorito do rei Henrique III. Consiste em duas peças: uma bola com um furo e um pequeno bastão, presos um ao outro por um cordão. O jogador deve lançar a bola para o alto e tentar encaixá-la na parte mais fina do bastão. (fonte:www.desenvolvimentoeducacional.com.br).

Mais do que um brinquedo, Bilboquê é o nome de uma cidade, localizada a noroeste da pacata estância de Nhambu Mor. Chamada originalmente de Anthero Lontras, foi rebatizada devido ao número desproporcional de habitantes que fizeram do bilboquê a razão de suas vidas, dedicando-se ao artefato em tempo integral (incluindo-se aí os intervalos para as necessidades fisiológicas).

A tradição se mantém até hoje, ganhando novos e habilidosos adeptos. Nem bem raia o dia na cidade e já se ouvem os toc-tocs dos pinos tentando encaixar nas bolas. Uma distinção se…

SANTA LETÍCIA

Letícia, em seu compartimento estanque, se bastava. Vivia debaixo de uma campânula guardada por um querubim estrábico, numa imunidade vitalícia às dores do parto, à lavagem da louça, às filas nas repartições e à rabugice dos maridos sovinas e dominadores. “Façam o que quiserem, contanto que poupem a Letícia” era o veredito invariável sob qualquer pretexto e em qualquer ocasião, naqueles sítios de lagartos e desgraças.
Nada que se comparasse àquela que chamavam de Letícia, e que raras vezes se afastava de seus cães e de sua coleção de abajures. Era o tesão das rodas regadas a cerveja. Era a inveja e o assunto nos salões de beleza. Era o exemplo de virtude no sermão do padre, que botava as duas mãos no fogo do inferno e uma terceira se tivesse pela sua inteireza de caráter.
Assim a vida corria daquele jeito de costume, com a cidade a lhe estender tapetes, a lhe levar no colo e a lhe cobrir de afagos, soprando-lhe o dodói antes que se machucasse. Passou a ser o tema das redações escolares …

ESTRANHA MÁQUINA DE DEVANEIOS

Habituais ou esporádicos, todos somos lavadores de louça. Lúdico passatempo, esse. Sim, porque ninguém vai para a pia e fica pensando: agora estou lavando um garfo, agora estou enxaguando um copo, agora estou esfregando uma panela. Não. Enquanto a água escorre e o bom-bril come solto, o pensamento passeia por dobrinhas insuspeitas do cérebro. Numa aula de história, em 1979. O professor Fausto e a dinastia dos Habsburgos, a Europa da Idade Média e seus feudos como se fosse uma colcha de retalhos. O Ypê no rótulo do detergente leva ao jatobazeiro e seu fruto amarelo de cheiro forte, pegando na boca. Cisterna sem serventia. Antiga estância de assoalhos soltos. Rende mais, novo perfume, fórmula concentrada com ação profunda. A cidade era o fim da linha, literalmente. O trem chegava perto, não lá. Trilhos luzindo ao meio-dia. Inertes e inoperantes. As duas tábuas de cruzamento/linha férrea dando de comer aos cupins. Crosta de queijo na frigideira, ninguém merece. Custava deixar de molho? A…