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VIU UMA, VIU TODAS





Com raríssimas variações, entrevista de ator em talk-show é sempre a mesma coisa. Ainda que pegue a conversa já começada, dá pra entender tudo. Inclusive que ela é exatamente igual às outras.



(pergunta óbvia do apresentador)


Bom, acontece que eu estava de férias em Nova York, como eu faço todo ano, quando eu vi a peça em cartaz na Broadway. Me apaixonei de cara pelo texto e voltei pra rever o espetáculo umas oito vezes. Quando eu regressei pro Brasil, ainda no aeroporto eu liguei para o (Diretor consagrado), convidando pra fazer a direção. Pra minha surpresa ele também conhecia o texto e topou na hora.


(pergunta óbvia do apresentador)


Ah, tem o talento mas também vale a sorte, viu. Tipo estar na hora certa no lugar certo e ao lado das pessoas certas. Aí a carreira anda sozinha, uma coisa vai puxando a outra. Pelo menos comigo, a ida pra televisão foi bem por acaso mesmo, quando o Daniel Filho apareceu num ensaio que estava fazendo pra uma peça do Guarnieri. Assim que acabou o ensaio, ele foi até o camarim e me fez o convite pra substituir o (Ator Consagrado), que estava com amigdalite e teve que se afastar das gravações. Hoje muita gente comenta que não conseguiria imaginar outro ator fazendo aquele personagem...


(pergunta óbvia do apresentador)


São linguagens completamente diferentes. A minha formação você sabe que vem toda do teatro. Fiz a Escola de Arte Dramática, o Tablado com a Maria Clara Machado e trabalhei um tempo com o Abujamra e o Zé Celso, grande Zé Celso do Oficina. O teatro é aquela coisa cara a cara, tem o improviso, um dia nunca é igual ao outro. Televisão é linha de produção, a interpretação é mais contida, a impostação de voz é diferente, a câmera e o microfone pertinho. E conforme se comporta a audiência a história vai mudando. É uma indústria, né, a gente tem que acatar as regras do jogo.


(pergunta óbvia do apresentador)


Eu acho assim, é uma troca, entendeu? A gente manda energia pro público e recebe energia de volta. É uma troca mesmo. No caso da comédia, tem o "timing", você tem que ter o tempo certo da piada, e isso depende também muito do humor da plateia naquele dia. Você sobe no palco e já sente - hoje vai rolar legal, o público tá mais receptivo, ou não... é mais ou menos por aí.


(pergunta óbvia do apresentador)


Tem uma hora em que você não consegue mais se livrar do papel, e incorpora o personagem na sua vida mesmo. Você quer matá-lo mas ele já ganhou vida própria, é mais forte que você. E aí você se pega na sua casa agindo como o personagem, falando como ele, pensando como ele. É muito louco esse processo. Precisei de uns anos de análise até aprender a lidar melhor com isso.


(pergunta óbvia do apresentador)


Depois da temporada eu pretendo dar um tempo, ficar com a família, viajar um pouco. Já tenho dois convites pra novela, mas por enquanto eu ainda estou analisando.


(despedida óbvia do apresentador)


Imagina, o prazer foi meu em estar aqui com você e com esta plateia maravilhosa. Mas, antes de ir embora, se você me der licença eu queria citar os patrocinadores da peça, tudo bem? Você sabe, mesmo com a lei Rouanet, não é nada fácil nesse país encontrar empresas que prestigiem e apoiem a nossa cultura.


(pergunta óbvia do apresentador)


De quarta a sábado, às 20h30 e aos domingos às 18 e às 21. Espero vocês lá, heim?


(apresentador, obviamente, pede pra repetir)


De quarta a sábado, às 20h30 e aos domingos às 18 e às 21.


(apresentador diz que já volta e pede pra não mudar de canal)



 © Direitos Reservados



Comentários

  1. Massificante e nivelado ao grau zero inteligível... Mil vezes uma boa leitura que esses "talk shows" que buscam audiência à base de "fuxicos" premeditados.com!!!
    To fora mesmo...
    Abraço, Célia.

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  2. Clotilde * Fascioni5:38 AM

    Realmente que viu um, viu todos. Tanto o entrevistador sem criatividade quanto o entrevistado totalmente voltado para o seu mundinho repetitivo. Ótimo Marcelo.

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  3. meu caro, como já dito lá no Facebook, sua "entrevista" merece a capa da Ilustrada.

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  4. Sandra Nogueira10:49 AM

    Caríssimo Marcelo, esse seu texto não tem nada de ficção, nem nonsense, revela um observador sagaz, que obviamente enriquece o teor da entrevista. Um grande abraço.

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  5. José Carlos Carneiro12:27 PM

    Seria o tripeteco do repeteco? Ou a óbvia redundância? Talvez chover no molhado? Ou enxugar gelo? Ou noves fora, nada? Seja o que for, sua temática é dupiru. E oportuna, pois o prato mais pedido de hoje é o reality show.

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  6. Antonio Fonseca12:29 PM

    Há muito que deixei de assistir programas de entrevistas justamente pelo fato que você narrou. Se já sei as respostas, por qual motivo vou viver as repetições?
    Está faltando uma dose alta de criatividade e respeito às nossas inteligências.
    Muito bem narrado, amigão!

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  7. Mirze Souza1:13 PM

    Marcelo!

    O bom mesmo é sua percepção. Repetir o repetido sem erro algum. Ainda existe isso? Esse tipo de talk show? Será que não cai a zero o IBOPE do canal transmissor?
    Talvez as pessoas veem para se ” atualizar” sobre o ” look” do ator, atriz, seja quem for. Tenho percebido que tudo que muito se repete, atrai, como o concurso de misses;

    Você é mesmo genial!

    Parabéns!

    Beijos

    Mirze

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  8. Claudete Amaral Bueno1:37 PM

    Oi!
    Vc já foi o apresentador ou o entrevistado?????????
    Ou só telespectador mesmo????????? Duro, né??????? Bem por aí..........
    Abraços,
    Claudete

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  9. Zezinha Lins11:58 PM

    Adorei!!!!

    Ah, Marcelo e tem também as falas dos jogadores de futebol, tudo igual, até o ritmo, a entonação da voz… A mesma coisa sempre.

    Ai, ai, ai…. O que será que ainda vem por ai? Se você não existisse precisaria ser inventado. Parabéns, meu amigo!!!!!!!!!!!!!
    Beijos!

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  10. Jorge Cortás Sader Filho11:58 PM

    Se você já presenciou uma gravação no estúdio, ou gosta de assistir programas de entrevistas, vai chegar a mesma conclusão do Marcelo.
    O nonsense da coisa está na mesmice. Eterna!
    Abraço,
    Jorge

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  11. José Claudio - Cacá1:50 AM

    Como é mesmo o nome daquele ator? Ah, me esqueci, mas que eu vi a entrevista, isso eu vi!

    Mas isso não é problema, Marcelo. Outro dia , fui assistir ao programa do David Lettherman e notei que o cenário , as perguntas e até a caneca, tudo é igualzinho ao Jô Soares. Só não sei quem copiou de quem.

    Abraços e ótima semana.

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  12. Jota Effe Esse2:18 AM

    É assim mesmo, Marcelo, tudo igualzinho, você nem esqueceu de recomendar pra não mudar de canal. E como bem lembrou uma comentarista acima, os jogadores de futebol seguem a mesma cartilha. Um abraço.

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  13. Marco Antonio Rossi6:33 AM

    mEUA AMIGO BOM DIA!!!
    uM OTIMO FINAL DE SEMANA E ASPAS NELES!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
    ROSSI

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  14. Lau Milesi11:22 AM

    Ge-ni-al!! Querido e competente Marcelo, hoje em dia nada se cria…tudo se copia…(nem preciso dizer mais porque sei que você conhece essa máxima) . A mesmice impera e os “pele” espectadores a reverenciam.

    Diferente daqui, do seu sítio, que impera o talento, a criatividade e o bom humor.

    Um beijo , Marcelo,e bom domingo (sem entrevistas) .:)

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  15. Li, rindo o tempo inteiro, porque parecia que eu estava ouvindo as respostas de inúmeras entrevistas a que assisti na TV.
    Só faltou dizer uma coisa: que o diretor era "generoso".
    Todo ator usa essa palavra. Pode observar.
    Beijo

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  16. Marcelo2:14 PM

    Uma coisa eu ainda não vi. Já imaginou um bocejo de tédio no meio da entrevista? Se precisar de alguns bocejadores compulsivos anônimos eu posso locar (com o maior prazer) os caras aqui do escritório. Não tenha pressa na devolução da mercadoria.

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  17. hahahahaha ótimo!
    Eu me sentiria envergonhada como entrevistadora,rsrsrs. Parabéns! BJ

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  18. Valéria Gomes6:41 AM

    Também acho muito enfadonho. Raramente um programa de entrevista me chama a atenção. Beijos, querido!!!

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  19. Evelyne Furtado7:15 AM

    Já vi todas, Marcelo! A gente fica torcendo para que o script mude, que algo nos supreenda, mas é raro acontecer. Mesmo assim gosto de bons programas de entrevistas, mas gosto mais ainda de seus textos. Um beijo e ótima semana!

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  20. Gina Soares2:48 PM

    Bingo!!!
    O script é exatamento o mesmo… rsss Nem vale mais a pena assistir…
    Excelente!!!
    Abs

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  21. Sempre a mesma coisa, a fita roda sempre assim nessas entrevista. Por isso não vejo programa de entrevista. Acho um saco rs. Beijos e ótima semana.

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  22. Puxa!A gente tenta um espacinho pra divulgar trabalho série, até que esse momento um dia chega. Levamos tantas coisas na bagagem e chega na hora, as perguntas são as mesmas, você pede ao apresentador para explicar o assunto e é assim: " Agora não dá tempo", você espera as tomadas e, novamente.. "agora não dá tempo". O entrevistado sai da entrevista como se fosse um incompetente.

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  23. Fiquei doida pra postar, mas pelo celular, ficou difícil... eu sinto muito não ter visto o início da entrevista.... do jeito que narra, deve ter tido perguntas óbvias do apresentador e respostas mais óbvias assim, do tipo: "não tomo mais coca cola, bebo muuuuita água, e quando sinto fome, como uma barra de cereal ou como uma fruta, que a minha babá (de décadas) sempre me lembra de levar pro estúdio... risos... bj, querido!

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  24. Mara Narciso6:08 AM

    Como tudo é óbvio, deduzo tratar-se do ator Marco Nanine.

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  25. Patrícia6:10 AM

    Adorei as “perguntas óbvias”, aqui na Bahia é assim mesmo e ainda tem gente que assiste sem se dar conta…
    um bjo, Marcelo.

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