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BOBO E SUA CORTE





Já reparou como os termos “Bobo” e “Tolo” têm sinônimos? Dentre tantos, “Doidivanas” sempre me chamou a atenção. Acho que foi lendo algum romance de cavalaria ou livro de Julio Diniz que vi a palavra pela primeira vez. Recorri a um pequeno e nada confiável dicionário e encontrei lá: “Doidivanas: o mesmo que Estouvado”. Fui em “Estouvado” e li: o mesmo que Doidivanas. Ou seja, o pai dos burros me fez de bobo.







Ser bobo vai além de ser otário. Tem também o sentido de ignorante, que contempla como sinônimos uma extensa família de quadrúpedes: besta, asno, jerico, jumento, jegue e simpatizantes. Sem falar da anta e da toupeira.






Fora do reino animal, um dos meus favoritos é “Bocó”, quase um arcaísmo atualmente. Melhor ainda é “Bocó de Mola”, que sugere um upgrade na acepção original (ou um downgrade, no caso).






Igualmente em desuso está o “Monte”. Largamente empregado na zona rural de São João da Boa Vista e adjacências nos anos 70, o vocábulo com toda certeza é oriundo do sul de Minas. Não sei se continua vigindo. Monte é, basicamente, o mala de hoje. Tem o significado de empecilho, estorvo que fica no meio, atrapalhando tudo e empatando a f...






Vamos ao “Tonto”. Ele é parecido com o bobo, mas não é a mesma coisa. O bobo é menos bobo que o tonto. Historicamente o bobo tem ofício definido. Como todos sabem, era ele quem divertia os reis nas cortes medievais. O tonto, por sua vez, é um Mane-Quarqué (que me perdoem meus leitores Manoéis ou Manuéis), um “Girolas” inofensivo. Por falar em Mané, há que se mencionar aqui os derivativos “Mané-Coco” e “Mané-Jacá”, além do conhecidíssimo “Mané-Patola”, a quem algumas populações ribeirinhas denominam simplesmente de “Patola”.






Temos ainda o “Boboca”, que imagino um semi-bobo, aspirante a bobo ou algo que o valha. É mais do que um bobinho, mas é menos que um bobo 100% genuíno. Na mesma classe estão os “Parvos”, a bradarem suas parvoíces em qualquer tempo e lugar.






A letra “P” é rica em sinônimos de lesos: temos, entre outros verbetes, “Palerma”, “Paspalho” e “Pateta” – todos com sentido semelhante e QI idem.






Na letra “T”, além do tolo e da toupeira já citados, encontramos o “Tapado”. Por analogia, podemos caracterizá-lo como um surdo-mudo neurológico. Nada é capaz de permear sua couraça obtusa. Pra cantar a “Florentina” do Tiririca ele precisa olhar a letra.






Capítulo à parte merecem o “Doido de Pedra” e o “Doido Varrido”, mas não serei eu o maluco a atribuir-lhes o sentido. Só imagino um napoleão-de-hospício esculpido em mármore e um serzinho com camisa de força se debatendo entre ramos de piaçava.






O “Abestado” é tão inclassificável que nem é aceito pelo Aurélio. O insigne dicionarista o cataloga como “Abestalhado” – que particularmente considero um tanto quanto articulado para o caso. Abestado é infinitamente mais besta que abestalhado, concorda?






Muitos termos possuem a mesma raiz etimológica, mas gradientes peculiares de significado. Compare “burro” e “burraldo”. O leitor logo perceberá que o burraldo puxa a carroça com mais força. O burraldo é o burro xucro, incorrigível, que deixa o rastro das ferraduras por onde quer que passe. O burro é menos pretensioso na escala búrrica - de vez em quando é capaz de falar coisa com coisa. Muito de vez em quando, mas é.






“Babaca” e “Panaca”. Mesmo que a grosso modo não pareça, entre eles há uma notável diferença. A grafia semelhante esconde na verdade um abismo conotativo. Explico: o panaca é mais lorpa que o babaca. Panaca ri das cenas de torta na cara; já o babaca não acha mais graça nisso, não. Na escala evolutiva, está um degrau acima do panaca. O máximo que o babaca faz é chifrinho nas fotos de festa de aniversário, embora afirme aos mais chegados que já abandonou o vício.






Pouca gente se dá conta, mas “imbecil” e “idiota” não são propriamente xingos. Idiotia e imbecilidade são estados psíquicos – patologias catalogadas e estudadas pela psiquiatria moderna. Psiquiatria que já vem se debruçando sobre os “Seqüelados” e os “Sem-Noção” – neo-zuretas desse insano início de século 21.






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Comentários

  1. Marcelo! Seu ataque ao vernáculo com suas classificações sutís... permitiram-me nominar, mentalmente, claro, representantes e exemplos vivos para cada um deles. Exercício excelente "memorial ativo"... Valeu! Abraço, Célia.

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  2. Ora pois... eu sabia que era uma tola, uma boba... agora tenho certeza!! Um abraço, meu bobo querido!

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  3. Crise de risos. Você se superou dessa vez!
    Lembrei de minha vó (hoje acometida pelo alemão) que dizia:
    - Aquele ali é um burraldino! kkkkkk. Seria ele filho do burraldo???

    Aqui em casa tratamo-nos todos por "babacas" e pra nós a conotação é bem mais ampla, um dia te explico.

    Um beijo!

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  4. Marcelo, um brilho de texto, excelente. Pior (ou melhor) é que eles nunca estão sós, mas em bando ou em corte.

    bjs.

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  5. Olá Marcelo, texto muito divertido para um sábado desbotado. Um termo daqui muito "interessante" também é TANSO, aquele que não "pesca" nada de uma conversa, está sempre por fora de tudo e algumas vezes dá vexame total, por isso aqui se diz muito "isso é coisa de tanso". Curiosidades da terrinha. Abrçs.♥

    p.s. Ainda não desisti dos livros, já enviei novamente para uma amiga dai e também ainda não chegou, pode? ♥↕

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  6. Belvedere Bruno9:59 AM

    Valeu, Marcelo!!!!!!!!!!!!!! Saudade de seus textos. Estive viajando e tudo se acumulou aqui.

    Bjs

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  7. Peraí! Me se perdi no texto, Cadê eu aí? Clotilde, gostei do 'tanso', posso fazer uso dele também?

    Engraçado é que a gente ri do texto e dos comentários sobre. Isso é diversão pra mais de metro.

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  8. AH! Maecelo!

    Porque mexer com quem está quieto?
    Você pefou ternos ou vernáculos anteriores a 1970. Sempre chamei meu irmão de "babaca" até minha avó me dizer que isto era palavrão.
    Daí em diante costumo usar palavtas arcaicas, porque sei que não são palavrões em nenhum século e não ofendo ninguém que se for ao dicionário vai saber que o chanei de "babaca", mas nem todos vão.

    Quantos bocós eu conheço, não dá para contar.

    Bobos somos todos nós, vez por outra concentrados em nosso mundo não percebemos as "jogadas" que políticos, meios de comunicação e "mídia em geral fazem para nos distrair da realidade.

    Um texyo excelente e de grande valor.

    Parabéns!

    Beijos

    Mirze

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  9. José Hamilton Brito3:03 PM

    Todos eu conhecia…ou conheço. Até o zureta. Mas o lorpa, confesso é termo novo para mim.
    Doidivana…conheço o termo dos tempos do Nelson Gonçalves, que cantava uma música que dizia: doidivana és doida varrida, eu te amando na vida, sou doido também
    Mas amigo, onde vc foi buscar um tema…um dia, chego lá. Parabéns.

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  10. Marta Rodrigues3:05 PM

    Marcelo!!!
    Foi uma gostosura encontrar você através do face, e quando recebo email de que publicou alguma coisa venho correndo ler.
    Gostei do texto, voltei no tempo pois me lembrei que um dos garotos do colégio mandou um recadinho dizendo que “gostava de mim” e eu respondi para a amiga que estava fazendo o papel de pombo correio que eu não gostava dele porque era um “monte”.;
    Mas tenho que admitir que uma das maiores queixas nesses meus 54 anos é exatamente não ser boba. Ahhhhhhhhhhh como eu gostaria de poder confiar em tudo e em todos, ter certeza de que não é preciso ter um contraro por escrito porque o outro vai cumprir com sua parte.
    Poder me dar ao luxo de trabalhar apenas 8 horas por dia e ficar sentada por 2 horas e me dar ao luxo de apenas pensar, sem achar que estou sendo preguiçosa.
    Tanto é verdade que um dos textos que mais gosto é “Das Vantagens de ser Bobo” da Clarice Lispector, hoje minha oração diária na tentativa de resgatar aquela menina que sempre se atirava de cabeça.
    Deixar de lado essa mulher que vive desconfiada, que deixou de ter boa-fé na humanidade e trabordar de amor já que “É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo”.

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  11. Jota Effe Esse3:06 PM

    Meu amigo, você hoje matou a pau. Eu fiquei encolhidinho, pra não ser atrelado a um desses idiotas e cia. Falando em idiota, você sabe o que é indiota? É o superlativo de idiota, um índio idiota, com licença dos nossos amigos indígenas. Meu abraço.

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  12. Zezinha Lins3:07 PM

    Não tive como não dar boas risadas, logo no início me deparo com uma situação bem típica: o pai dos burros nos faz de bobo, isso acontece sempre rsrs

    Alguns desses adjetivos (que podem ser transformados facilmente em substantivos) são bem conhecidos aqui no NE.

    Cada texto, uma leitura lúdica e muuuuito agradável. Obrigada por nos proporcionar momentos tão divertidos.

    Mas… Marcelo, de onde vem tanta criatividade? Menino, você é 10. Parabéns! Que Deus te conserve assim.

    Bjos!

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  13. Maria Alice3:07 PM

    esse seu tema foi da hora….. até parece um pessoal que conheço aqui de minha cidade….. em ano de eleições, precisamos praticar mais na busca de dicionários mais novos…… estamos à beira de outros adjetivos pois nós votantes cegos desconhecemos as palavras pelas quais o eleitor é chamado…kkkkk só pra descontrair…

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  14. Fabio Basso3:09 PM

    Marcelo,

    Definitivamente, você esgotou todos os adjetivos que usei na minha infância. Excelente texto!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    Ri muito.



    Grande abraço,

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  15. Claudete Amaral Bueno3:10 PM

    Marcelo:
    Nota 10 pra você.......
    Explorou o tema com maestria!!!!!!!
    Não me lembro: vc colocou o coió.....coió sem sorte?????
    Ainda deve haver outros.....puxa!!!! quantas designações para a mm coisa quase, não?
    Parabéns!!!!!!
    Um abraço e boa semana!
    Claudete

    PS- Apesar de a m/ mãe ser de S.João da B.Vista, n/ conhecia o termo atribuido a eles......rssssssssss

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  16. Aricy Curvello3:11 PM

    Prezado Marcelo Sguassabia,


    Muito bom o seu texto "O Bobo e sua corte". Um notável senso literário e histórico de oportunidade.

    Bobos somos todos nós, brasileiros, que elegemos sabidos do PT para o Governo Federal desde 2002. Embolsam mas não fazem.

    Depois de sucatearem as estradas federais, apelaram para a privatização que condenaram no Governo anterior de outro partido.

    Depois de sucateados, os portos e aeroportos também serão privatizados. O Edital a respeito está sendo corrigido para ir á imprensa.

    Não bastasse isso, agora também os estádios de futebol... Está nos jornais de hoje (nos maiores, não nos pequenos) que o Maracanã está sendo negociado com o Flamengo e o empresário Eike Batista (a maior fortuna privada brasileira).

    Meus cumprimentos,

    Aricy Curvello

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  17. José Carlos Carneiro3:12 PM

    Que bela investida no mundo da classificação dos desvios de condutas normais! Para tanta fartura de pesquisa você merece o lugar mais alto do pódio. Tanto ficou pra lá de redonda a crônica que será perdoado pelo esquecimento de néscio, rubicundo e mentecápito. Alvíssaras pelo feito e como diria um francês: Chose de loc!

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  18. Cláudio Dalmonte3:13 PM

    Marcelo, boa tarde!!

    Bela classificação.

    Mas não serei abestado em dar nome aos burros, achando que Lorpa é Fulano, Burraldo é Cicrano e assim por diante!!

    Mas babaca fazendo chifrinho nas fotos de aniversário, foi a melhor definição!!

    Bom fim de semana

    Cláudio

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  19. Jorge Cortás Sader Filho11:00 PM

    Na minha opinião, nada como um “abestado”.
    Este está por fora de tudo, é burro, chato e inconveniente. Pode ser confundido com Tiririca…
    Abraço, Marcelo. Bateu bem!

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  20. Francine11:01 PM

    Marcelo!
    Fantástico! Morri de rir!! Ou melhor, chorei de tanto rir! Tive que chamar meu namorado pra me socorrer! rrsrs
    Sim, ‘monte’ é muitíssimo usado no sul de Minas!
    Parabéns!! Ótimo texto!!

    abraço

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  21. Juliana Gobbe9:58 AM

    Ótimo! Vou publicar no blog!

    Em maio vou lançar meu livro aqui em Atibaia, gostaria muito que você viesse para conhecer os nossos escritores!!!

    Até mais!!!

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  22. Marco Bastos10:02 AM

    Olá, Marcelo.
    Seus textos são muito criativos, leves e você é divertidíssimo quando nos coloca ironicamente diante de situações hilariantes. Na etimologia e na sinonímia da parvoíce, você não pavoneou e sem qualquer pacovice foi quase exaustivo e perfeito. Sua crônica não é lesa, lisa ou louca. rs. Parabéns. abraços.

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  23. Olá Marcelo!
    É, são tantos codinomes que a gente até se apatralha, digo, se atrapalha. Eu cheguei aqui no sul de Minas em 83, mesma época em que conheci a Princesinha do Oeste Paulista, segundo Omar Cardoso. Posso lhe assegurar que o termo 'Monte' ainda é ouvido hoje aqui, mas significa preguiçoso, alguém que não quer nada com nada. Mas ainda temos o 'Pamonha', que é um bobo parecido com o Monte que não faz mal à uma mosca. Ultimamente tenho ouvido termos como 'Samungó', 'Coió", e 'Burrico'. Eu particularmente gosto do Samungó porque me faz rir igual boba.

    Ops, fui até o espelho ver minha cara de samungó! Rsrsrsr.
    Beijo!

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  24. Djanira Pio12:53 PM

    Marcelo, boa tarde, dei uma lida no seu texto que é bem interessante. Voce publica em muitos lugares, o que é bom para quem escreve e para quem lê. Tenha uma ótima semana, Djanira Pio.

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  25. Risomar Fasanaro4:36 PM

    Oi, Marcelo,
    Muito bom! Seu texto me revela que já fui, e sou, sem saber, muitas vezes boba, tonta,
    abestalhada…Depende da situação…rs,rs,rs
    E que quando a gente assume esse papel, não se dá conta. Geralmente está apaixonada.
    Estou procurando me curar e não cair mais nessas armadilhas…rs,rs,rs…
    Beijos

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  26. Gina Soares6:22 AM

    Acredito que conheçamos quase todos, até porque vivemos num País, em que todo dia somos tomados por um sinônimo….
    Muito bom, amigo!! Adoro sua forma divertida de nos ensinar!!
    bjhs
    Gina

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  27. Ai, ai, ai, quanta gente foi desfilando por aqui...Clip cheio de fisionomias parvas, burraldas, bocós... Criatividade tão boa, que fez a luz entrar e aquecer a alma!
    Grande abraço

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  28. Espetacular o seu labor poético confeccionado e publicado "ut
    supra". uma delícia... voltarei sempre. Estamos lá veja se gosta.

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  29. ADOREEEEEI.
    Atenção especial para o “Abestado” que não seria o mesmo sem a pronuncia tão característica dos povos oriundos do nosso nordeste... hahaha.

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  30. Dorani6:12 AM

    heheeheh!!! e lembrei das palavras lerdo, parvo e asno, que naturalmemnte significam a mesma coisa mas um pouquinho diferente. Será que os antonimos são assim tão ricos em significados?

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  31. Mara Narciso10:36 PM

    Excelente lista que tem por fim esclarecer e até esquadrinhar essas nossas incapacidades todas. Acrescentaria cretino e abilolado, mas sem bem caracterizar o mais ou menos aquinhoado de inteligência. Bom trabalho, Marcelo.

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  32. Antônio Fonseca9:22 AM

    Penso que todos nós nos enquadramos em um desses adjetivos, mesmo que temporário. Olha só: eu tinha 19 anos, fazia o curso de sargentos da PM. Uma manhã me apresentei com febre alta e garganta inflamada. Fui ao gabinete médico e o Dr. me perguntou: Você já tomou Benzetacil? A minha resposta: Sim. Quando eu era mais criança. Até hoje quando me lembro disso fico com vergonha. Naquele momento eu fui todos esses adjetivos citados.
    Agora, mudando de assunto. Quando o Tiririca canta a Florentina, alguém projeta a letra na parede contrária à câmara, para ele não errar a letra. Ele é bobo, mané, mas sabe nos fazer de bobos. Igualzinho ao Aurélio.
    Marcelo, nunca mais vou dizer das belezas que você nos presentea. Se o fizer vou ser repetitivo e isso é uma das características do abestalhado. Continue assim simplesmente.

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  33. Val~eria Gomes9:23 AM

    Depois dessa lição, vou ver se deixo de ser abobada. Muito bom!!! Beijo!!!

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  34. Edmilson Siqueira9:24 AM

    Ótima crônica. Concordo com tudo. Ou quase tudo. Discordo do burro e burraldo. Pra mim, burro é um estado definitivo, sem volta. E burraldo é temporário, mais ameno, erra quase tudo, mas quando acerta, surpreende a todos. Daí o neologismo que lembra, mas não é o nome do animal.
    Enfim, é papo pra mesa do boteco, finalidade maior e nobilíssima de todas as crônicas que escrevemos.
    Abs.

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  35. Salete Cardozo Cochinsky9:26 AM

    Risos
    E então: e agora José? ou Marcelo. Amei o texto, também me diverti, mas faço uma observação. Quando se chama alguém de ignorante não é tão sério assim, conforme o contexto em que é dito, a inorância pode ser apenas para aquele tema ou conteúdo. Em algum aspecto ou corcunstância: SOMOS TODOS IGNORANTES.
    Sem que isso venha em desabono aos conhecimentos que temos ou nossa capacidade intelectual.
    Gostei mesmo. Gosto de texto que provocam nosso ser do afeto e do pensamento.

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  36. Parvo assumido, faço meu bocó comentário para uma lavra que me fez reviver o "monte". Delicia de catalogação bobística.

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