Pular para o conteúdo principal

CASTELO DE CARTAS



Chegou uma hora em que não teve mais o que dizer para as paredes do castelo, pelo menos não naquele dia de 1106. Notando o demorado silêncio e temendo o tédio que lhe pudesse aborrecer, o pajem e o bobo da corte bateram à porta do quarto dela e se apresentaram, cada qual procurando agradá-la mais que o outro. Assim, entre mesuras e acrobacias tolas, mantinham o seu lugar sob a boa e frondosa sombra do reino. Se esforçavam os dois, alternando mímicas e passatempos, embora sabendo que ela os olhava sem ver. Era outro e mais nobre o remédio que daria algum alívio à sua angústia de princesa. Um cavaleiro a se matar por ela, cavalgando pântanos e sítios movediços, a se esquivar de lanças e a erguer mais alto o brasão do seu feudo a cada batalha vencida. Queria o guerreiro das cruzadas, o mais destemido e estrategista deles, que fizesse dela a causa da sua vida e a razão da sua morte. Um herói que guardasse no coração e na mente o seu nome e o seu semblante de donzela, como inspiração e ânimo para o combate.







Mas, pensava ela, todos os fidalgos e guerreiros que meu pai, o Rei, me permite conhecer não passam de gazelinhas a saltitarem pelos campos provençais, com guizos dourados e patinhas lustrosas, carregando entre as pernas, por baixo das armaduras, castos e inofensivos fazedores de xixi. São funcionalmente eunucos. Todos, sem exceção, ostentam uma hombridade de fachada. Papai é tão flagrantemente corno que ele próprio chega a rir com as piadas que toda corte faz de sua extensa galharia. Mamãe, logicamente, manda vir de outros reinos os escultores de chifres – já que aqui não há um que se aproveite. Súditos e nobres esquecem de suas lidas pouco interessantes em torno de coxas de frango e taças de vinho. Duelam sem motivo aparente nos burgos, jogam a dinheiro, perdem suas colheitas, praticam a maledicência, cumprem as penitências que lhes garantirão o céu e fingem dormir o sono dos justos. Mulheres fiam e bordam, lavam e varrem. Algumas pedem ao Criador que a peste venha e as leve o quanto antes, já que o sono eterno parece mais excitante que isso a que chamam de vida.






© Direitos Reservados



Comentários

  1. Marcelo...por um momento, achei que era eu a princesa... acho que espero por coisa parecida...risos! Abraços do ano novo!!

    ResponderExcluir
  2. No foco de eunucos e princesas... "eu... nunca"!!! Sutil para iniciarmos um novo ano!
    Parabéns, Marcelo!
    Abraço da Célia.

    ResponderExcluir
  3. José Carlos Carneiro5:17 AM

    Que intromissão mais doida no período pré-medieval! E chutou o pau da barraca sem dó nem piedade, ao descrever as fraquezas, sonhos e incompetências do ser humano. Os chifres, acessórios e consequências, são de rachar o bico de rir.

    ResponderExcluir
  4. É, frente ao quadro da política nacional, juro, me vejo como o bobo da corte do seu belo texto...mas um dia a Bastilha, digo, a Brasília cai.

    ResponderExcluir
  5. Claudete Amaral Bueno8:43 AM

    Começou o ano...tragicamente, hein Marcelo????????? rsssssss
    Ninguém feliz????????????? rssssssss
    Espero que vc, pelo menos, esteja!
    Abraços!
    Claudete

    ResponderExcluir
  6. Belvedere Bruno8:44 AM

    Com certeza, NE, Marcelo? RS

    Bjs

    ResponderExcluir
  7. Mirze9:26 PM

    Super inteligente e sutil.

    Neste castelo existimos todos. Pessoas que precisam ver e sentir suas vontades cumpridas imediatamente, eunucos, Rei, princesas e cartas para ver a sorte, distrair. etc…Tanto faz ser em 1196 como em 2012. Ancestrais reus, princesas e eunucos deixam rastros, que as cartas não apagam.

    Espero estar certa em minha interpretação.

    Desculpe-me se não estiver!

    Beijos

    ResponderExcluir
  8. Jorge Cortás Sader Filho9:27 PM

    Num castelo de cartas, tudo pode desmornar a qualquer instante.
    Marcelo, começando o ano, está muito sério. Ou estou enganado?
    Abraços, amigo.
    Jorge

    ResponderExcluir
  9. Zezinha Lins9:27 PM

    Existem mais Castelos de Cartas por ai afora do que podemos imaginar. Pela primeira vez, o seu texto me fez viajar numa reflexão bastante real e atual e isso não me fez rir, porque infelizmente é uma realidade triste, em que muita gente vive presa sem coragem de se libertar, para os que conseguem, a vida está ai, linda, maravilhosa, sem castelos, mas com casinhas simples ou não, onde reina a paz e muuuuito amor!!
    Minha admiração, Marcelo, como sempre.
    Um forte abraço.

    ResponderExcluir
  10. Elizete Lee9:28 PM

    Seu texto me traz a reflexão do que é realmente estar vivo neste mundo. O que realmente nos faz feliz?
    Épocas se vão, mas o tédio do cotidiano nos assombra até hoje.
    Mudam-se as roupagens, mas a essência humana não muda.

    Abração,

    ResponderExcluir
  11. Clotilde Fascioni9:29 PM

    Para todos os tempos e eras o sonho das mulheres em qualquer nivel social e idade se resume em: “Um herói que guardasse no coração e na mente o seu nome e o seu semblante de donzela, como inspiração e ânimo para o combate”.
    Abraços Marcelo, muito bom o seu “castelo”.♥

    ResponderExcluir
  12. O mundo era assim antes da internet.
    rsrsrsr

    bjo

    ResponderExcluir
  13. Evelyne Furtado10:17 AM

    O sonho como solução para o tédio nosso de ontem e de hoje. O humor também salva, graças a Deus! Adorei, marcelo! Beijos e ótima semana, amigo.

    ResponderExcluir
  14. Jota Effe Esse10:18 AM

    Desde que o mundo é mundo castelos de cartas são erguidos e desmoronam impiedosamente, mas a humanidade não se cansa de ser besta, e sonha com milagres impossíveis. Não adianta, uma vez eunuco, sempre eunuco, ou será que vão inventar a roda? Um abraço.

    ResponderExcluir
  15. uma viagem a séculos atrás para mostrar os prazeres e as fraquezas do bicho homem... luxúria, cobiça, gula, demasiadamente humanos, já disse o poeta.

    ResponderExcluir
  16. Maravilhoso seu post. Fraquezas do ser humano, sei lá, qual nome deveria dar.
    Estou de volta depois de uns dias ausente.
    Desejo uma semana imensa de coisas boas. Obrigada pelo carinho da amizade...Um abraço!

    ResponderExcluir
  17. Iche, seguremos os nossos castelos. É tempo de ventania, de chuvarada, de furacões...
    Grande texto, parabéns!
    Abraços

    ResponderExcluir
  18. Cláudio Dalmonte11:12 PM

    Gostei!!
    Continue.
    Abraços

    ResponderExcluir
  19. Gina Soares8:38 AM

    A maioria dos castelos construídos atualmente, me parecem ser de cartas, prontos a desmoronar a qualquer momento…
    Abs….

    ResponderExcluir
  20. Há há há há á há. Paty Michele, minha querida, adorei tanto o texto do marcelo como o seu comentário. Acho que com a internet ainda existe esse desespero também. O vazio está dentro de cada um, quanto mais informações, evoluções,e um monte de ...ões... o homem continua vazio, sempre a procura de algo melhor que o preencha. Certa está a mãe dessa princesa aí.
    Mais certa ainda está a princesa que observa a condição desse reinado. Melhor: Mais certo ainda estamos nós, os plebeus que de carta, preferimos dar marretdas nas paredes para que o nosso tédio se rompa.
    Sejamos todos nós , plebeus com pompa. Estão nos 'você você você você..." o que me pertence mais.

    Abraço Paty,gostei demais do teu comentário, amei o texto Marcelo, Martelo, Marmelo.

    Viva 2012 sem galhadas, mas gargalhadas.

    ResponderExcluir
  21. Malu Martins2:34 PM

    ADOREI.

    FELIZ 2012!

    ResponderExcluir
  22. Marcelo,

    Os castelos continuam os mesmos seja nos rincões da Idade Média ou nos dias de hoje...os homens fizeram suas conquistas e inventaram seus brinquedos eletrônicos mas, em geral, precisam aprender o caminho rumo ao coração da sinceridade.
    Muito bom retornar ao bom humor crítico dos seus textos.
    Que em 2012 você construa sólidos castelos no solo do seu coração de cavaleiro.
    Beijos,
    Genny

    ResponderExcluir
  23. Mara Narciso7:53 AM

    Gostei da hombridade de fachada. Naquele tempo não era fácil a vida. Imagine, sem internet, o que se poderia fazer para matar o tempo? Enquanto isso tudo poderia matar, pois não havia remédios, nem Medicina. Uma bactéria levava todo o reino. Gostosa literatura em que se pode voltar no tempo.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A CAPITAL MUNDIAL DO BILBOQUÊ

Para os menores de 30, é natural não conhecê-lo. Então comecemos por uma sucinta porém honesta definição.

Bilboquê: originário da França, há cerca de 400 anos, foi o brinquedo favorito do rei Henrique III. Consiste em duas peças: uma bola com um furo e um pequeno bastão, presos um ao outro por um cordão. O jogador deve lançar a bola para o alto e tentar encaixá-la na parte mais fina do bastão. (fonte:www.desenvolvimentoeducacional.com.br).

Mais do que um brinquedo, Bilboquê é o nome de uma cidade, localizada a noroeste da pacata estância de Nhambu Mor. Chamada originalmente de Anthero Lontras, foi rebatizada devido ao número desproporcional de habitantes que fizeram do bilboquê a razão de suas vidas, dedicando-se ao artefato em tempo integral (incluindo-se aí os intervalos para as necessidades fisiológicas).

A tradição se mantém até hoje, ganhando novos e habilidosos adeptos. Nem bem raia o dia na cidade e já se ouvem os toc-tocs dos pinos tentando encaixar nas bolas. Uma distinção se…

SANTA LETÍCIA

Letícia, em seu compartimento estanque, se bastava. Vivia debaixo de uma campânula guardada por um querubim estrábico, numa imunidade vitalícia às dores do parto, à lavagem da louça, às filas nas repartições e à rabugice dos maridos sovinas e dominadores. “Façam o que quiserem, contanto que poupem a Letícia” era o veredito invariável sob qualquer pretexto e em qualquer ocasião, naqueles sítios de lagartos e desgraças.
Nada que se comparasse àquela que chamavam de Letícia, e que raras vezes se afastava de seus cães e de sua coleção de abajures. Era o tesão das rodas regadas a cerveja. Era a inveja e o assunto nos salões de beleza. Era o exemplo de virtude no sermão do padre, que botava as duas mãos no fogo do inferno e uma terceira se tivesse pela sua inteireza de caráter.
Assim a vida corria daquele jeito de costume, com a cidade a lhe estender tapetes, a lhe levar no colo e a lhe cobrir de afagos, soprando-lhe o dodói antes que se machucasse. Passou a ser o tema das redações escolares …

ESTRANHA MÁQUINA DE DEVANEIOS

Habituais ou esporádicos, todos somos lavadores de louça. Lúdico passatempo, esse. Sim, porque ninguém vai para a pia e fica pensando: agora estou lavando um garfo, agora estou enxaguando um copo, agora estou esfregando uma panela. Não. Enquanto a água escorre e o bom-bril come solto, o pensamento passeia por dobrinhas insuspeitas do cérebro. Numa aula de história, em 1979. O professor Fausto e a dinastia dos Habsburgos, a Europa da Idade Média e seus feudos como se fosse uma colcha de retalhos. O Ypê no rótulo do detergente leva ao jatobazeiro e seu fruto amarelo de cheiro forte, pegando na boca. Cisterna sem serventia. Antiga estância de assoalhos soltos. Rende mais, novo perfume, fórmula concentrada com ação profunda. A cidade era o fim da linha, literalmente. O trem chegava perto, não lá. Trilhos luzindo ao meio-dia. Inertes e inoperantes. As duas tábuas de cruzamento/linha férrea dando de comer aos cupins. Crosta de queijo na frigideira, ninguém merece. Custava deixar de molho? A…