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Mostrando postagens de Fevereiro, 2012

DUÑA E AS SACOLINHAS

Duña, o venerável e nunca suficientemente louvado profeta dos nossos tempos, mais uma vez interrompeu seus ofícios missionários para recomendações de ordem prática a seus fiéis, desta feita no que se refere ao imbróglio das sacolas de supermercado.



Sorridente e aparentando 23 anos a menos que os seus assumidos 118, o sapientíssimo oráculo derramou bênçãos por onde passava, entupindo de fluidos benfazejos desde a praça municipal até as proximidades da Sorveteria do Neco. Lá estacou, bateu três vezes com o cajado no chão e pediu à multidão que silenciasse e se mantivesse de joelhos enquanto falava.


O pronunciamento segue transcrito na íntegra, conforme colhido pelo Capitão Dorgival Orozimbo de Castro, militar da reserva e taquígrafo nas horas vagas:


“Inicio minha homilia conclamando a humanidade sofredora a reconhecer que mais vale a mercadoria que se coloca dentro do que o saco que a acolhe, seja ele de que material for.


Limita-se a discussão às sacolas que deixarão de ser produzidas dor…

DE CASA PRO TRABALHO, DO TRABALHO PRA CASA

ILUSTRAÇÃO: THIAGO CAYRES


- Nunca me esqueço. Eu devia ter uns quatro anos quando aquela brotoeja pipocou no seu avô. Apareceu assim, do nada, numas férias de verão lá em São Vicente. Ele não deu bola e a coisa foi piorando, piorando, virou outro negócio que quase fez o velho encontrar Nossa Senhora mais cedo.



- Sim, papai. O senhor sempre conta essa história.


- E vou continuar contando até vocês aprenderem que são demais os perigos desta vida, e que pra morrer basta estar vivo. Não precisa ir longe pra perceber que a gente está cercado de ameaças. Ontem, por exemplo, ao acender a luz do quarto percebi uma mancha amarela em uma das pás do ventilador de teto, próxima ao terceiro parafuso que prende o globinho com a lâmpada. Tratando-se ou não de um foco fúngico, de resquícios de pólen ou seja lá o que for, convém substituí-lo por outro, pra afastar de vez o risco de alergia. Concorda comigo, amor?


- Sim, querido. Vai que acontece alguma coisa.


- Aproveitando a deixa, venho notando ultimamen…

BABA-OVO

Não conhecia a expressão até outro dia. Já tinha ouvido muitas de suas variantes elencadas pelo Aurélio: bajulador, adulador, adulão, babão, cafofa, chaleira, incensador, lambedor, lambeta, lambeteiro, louvaminheiro, puxa-saco, sabujo, xereta, banhista, cheira-cheira, chupa-caldo, corta-jaca, engrossador, enxuga-gelo, escova-botas, incensador, xeleléu, lambedor, lambe-botas, lambe-esporas e mais um outro sinônimo realmente impronunciável.



Mas baba-ovo pra mim é novo. Não o sujeito, mas o predicado. Aliás, alguém poderia me dizer por que baba-ovo se chama baba-ovo e por que puxa-saco se chama puxa-saco?


Questões semânticas à parte, é preciso reconhecer que o baba-ovo legítimo, aquele que honra a classe, geralmente não é o que se poderia chamar de um cara ambicioso. Sua pretensão é ter o seu lugarzinho ao sol e tudo bem. Não chega a ser arrivista e também não é necessariamente mau-caráter. É ardiloso de nascença e por força das circunstâncias, mas seria uma injustiça chamá-lo de canalha. …

JUSTA MEDIDA

Foi a minha avó, afamada costureira do Rio antigo, quem confeccionou o célebre pijama do Getulio. Aquele que até hoje guarda o furo no peito e as marcas de pólvora.







Vaidoso como era, o Dr. Getulio poderia ter escolhido o traje que bem entendesse para a sua hora fatal. Fraques, ternos e até cartolas não lhe faltavam. No entanto, escolheu ele o pijama, seu adorado e fidelíssimo pijama, mais fiel e mais chegado que todos os seus guarda-costas, assessores e correligionários juntos.






Pijama que entrou para a história como o dono. Foi sobre a sua seda que correu o sangue do pai dos pobres, o criador dos direitos trabalhistas, o homem que ficou mais tempo mandando nessa terra de desmandos. Foi dentro da obra máxima da minha saudosa vovozinha que Vargas deu seu ultimo suspiro. Desde 1955 no Museu da República, muito provavelmente é o pijama mais visto e fotografado do mundo. Quando é que a finada vovó Doroty, bordando distraidamente o “G V” do monograma, poderia imaginar o culto que aquela peç…