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JUSTA MEDIDA



Foi a minha avó, afamada costureira do Rio antigo, quem confeccionou o célebre pijama do Getulio. Aquele que até hoje guarda o furo no peito e as marcas de pólvora.







Vaidoso como era, o Dr. Getulio poderia ter escolhido o traje que bem entendesse para a sua hora fatal. Fraques, ternos e até cartolas não lhe faltavam. No entanto, escolheu ele o pijama, seu adorado e fidelíssimo pijama, mais fiel e mais chegado que todos os seus guarda-costas, assessores e correligionários juntos.






Pijama que entrou para a história como o dono. Foi sobre a sua seda que correu o sangue do pai dos pobres, o criador dos direitos trabalhistas, o homem que ficou mais tempo mandando nessa terra de desmandos. Foi dentro da obra máxima da minha saudosa vovozinha que Vargas deu seu ultimo suspiro. Desde 1955 no Museu da República, muito provavelmente é o pijama mais visto e fotografado do mundo. Quando é que a finada vovó Doroty, bordando distraidamente o “G V” do monograma, poderia imaginar o culto que aquela peça teria com o passar dos anos?






Minha avó dizia que o Seu Gegê era irritantemente detalhista em assuntos de indumentária de alcova. Seu envelope de dormir não poderia ser muito apertado a ponto de lhe tolher os movimentos no leito, nem tão folgado a ponto da calça lhe escorregar pela pança se tivesse que saltar rapidamente da cama por motivo de urgência - o que não seria difícil naquele tumultuado agosto de 1954. O fato é que o baixinho gaúcho talvez fosse o único bípede pensante a ter pijamas sob medida, um preciosismo que os livros escolares, estranhamente, nunca registraram. Ah, minha velha e injustiçada Doroty...






Falando em medida, uma mais do que justa seria o reconhecimento,do governo federal à minha talentosa e dedicada vovó, que com suas tesouras, linhas e agulhas tanto contribuiu num dos momentos mais críticos que este pais já viveu. Imaginem que triste espetáculo, aos olhos do mundo, se Getulio tivesse sido encontrado de cueca ou de ceroulas em seu leito de suicida? Nossa nação, que já não tem fama de séria, cairia em irremediável ridículo no noticiário da época. Dependendo da estampa da cueca, nem todos os esforços de embaixadores e diplomatas conseguiriam abafar a desastrosa palhaçada.






Mas Dr. Getulio era um gentleman até depois de morto, e sabia da importância de um pijama apresentável no contexto das relações internacionais. Não envergonhou o Brasil, ostentando um exemplar digno e maravilhosamente desenhado, com listras simétricas e um estilo de fazer inveja a todo o guarda-roupa de Eisenhower, o presidente norte-americano na ocasião da tragédia.






Solicito então, às autoridades constituídas, que a partir de agora sejam cobrados royalties de toda foto ou vídeo que documente o pijama de Getúlio Dorneles Vargas, e que a quantia seja revertida a mim - único herdeiro vivo de Dona Doroty. Reivindico, além disso, uma pensão vitalícia de valor equivalente ao recebido pelos ministros do Supremo, a título de retribuição por tudo que minha família fez pela nossa história.






© Direitos Reservados



Comentários

  1. ... Muitos risos por aqui... Mais uma vez você aprontando... e agora de pijama... Bela obra de arte de sua vovozinha... Essa não! Reivindicações nas bases salariais governamentais atuais? Único herdeiro? E, a Pátria? Oras, Marcelo não se corrompa, por favor! Endemia que se alastra cada dia mais!
    Abraço, Célia.

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  2. Muito justo e merecido, pois os direitos de imagem não recolhidos da preciosa peça criada por sua "voínha" (como chamamos na Bahia) provavelmente acumularam uma fortuna.

    Um beijo e bom fim de semana, Marcelo!

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  3. Olá Marcelo, infelizmente até onde eu sei e a vista alcança não tenho ancestrais na minha arvore genealógica que costurou ou bordou para alguma celebridade, senão também iria reinvidicar uma "retribuição" pelos serviços prestados. Adorei. Abraços♥☼

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  4. Me diga urgente, qual o endereço dessa petição pública? Preciso assiná-la e divulgar a todos os meus amigos, colegas e familiares que amam pijamas! Ah, o menino do pijama listrado, do filme, também quer saber!

    Bj, Marcelo. Muito bom, como sempre!

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  5. Giovana Ferreira9:18 AM

    Marcelo, gostei do estilo e do bom humor. O que vc tá fazendo em Campinas, rapaz?
    O texto prende logo na primeira linha.
    E se Getúlio fosse visto de cueca é uma imagem hilária.
    Ah, quando vc receber sua pensão ou royalties, por favor, não se esqueça dos pobres colegas e conhecidos que não têm a mesma linhagem.
    Abraço

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  6. José Hamilton Brito9:19 AM

    Atendidas as suas pretenções, você coloca um pijama e vai curtir a vida. Mas vai ter que usar um pijama xinfrim pois a vovozinha deve estar cirzindo alguma camisa do Pai.

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  7. Antônio Fonseca9:20 AM

    Eu tinha 6 anos quando o Getúlio morreu. Minha vó chorava e falava do pijama. “Coitadinho, todo mundo está vendo ele de pijama!”. Então era o pijama costurado pela sua avó que fez a minha avó chorar de pena do “Homenzinho”?Sendo assim, pelo choro da miha avó, estou reinvidicando, também, direitos nesses royalties. Afinal, vivemos num país sem seriedade, não é?

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  8. Carlos Edu Bernardes10:21 PM

    justiça à vovó, pôxa! Apoiado!

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  9. Sarita Barros10:36 PM

    Marcelo, adorei a histsória (verdade ou não) sobre o pijama, principalmente, dos royalts e tudo o a que tens direito, por ser tua vó tão talentosa e ter salvaguardado a honra naional!
    Abraço,
    Sarita.

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  10. Claudete Amaral Bueno10:38 PM

    Oi, Marcelo:
    Gostei muito!
    Foi a "vedete" que inspirou a crônica???????? rsssss
    Estava lendo e pensando...exatamente no final da s/ história, ou seja,
    que s/ vovozinha merecia um reconhecimento.....mas vc foi além, como
    único herdeiro!!!! Esperrrrrtinho!
    Um abraço!
    Claudete

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  11. Leda Basile10:39 PM

    Marcelo,


    Aguardo seus textos como uma criança que espera presente.
    Adoro seu talento, agradeço por nunca esquecer de me enviar suas preciosidades por email e vou fazer uma carteirinha com sua foto e o número 1 da fãzona aqui.
    Beijos!

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  12. Doroni10:47 PM

    Eu era bem nova ainda quando Getulio morreu mas minha mãe gostava muito dele. Por um longo tempo ela questinava: como um homem pode se matar de pijama? Ela achava que a história não estava bem explicada. E hoje eu também penso assim. Parabéns a sua avó e se vc conseguir faturar em cima desse pijama, pode ser que ele volte a história e conte outro tanto. bjs

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  13. Boa idéia, Marcelo. Vou entrar com o mesmo pedido na justiça pois a vassoura que inspirou Jânio Quadros era da minha falecida tia solteirona Cotinha!!! Não tem nada de estranho nisso, afinal, somos brasileiros, né? Texto "encorpado". Abraço!

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  14. Aproveito sua necessária reflexão pijâmica para chamar a atenção sobre um detalhe importantíssimo destas peças de vestuário noturno: o bolso. O bolso é fundamental para um bom pijama.

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  15. Ah, Marcelo, depois de seu texto, deu a louca na politicalha, ops, digo, nos políticos todos e viram-se flashes pipocando pelos aposentos e registrando pijamas que, de repente, podem render royalties no futuro, quem sabe??
    Abraços

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  16. Olá Marcelo! Acho justo, justíssimo, e ainda, os ministros do supremo não fizeram a quinta parte que sua avó fez... Tem meu apoio! hahaha
    Beijo!

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  17. Jota Effe Esse12:41 PM

    Nada mais justo do que essa reivinvicação, Marcelo. Na nossa Ré Pública, que paga uma montanha de reais a cada ministro do STF tudo é possível, e faz sentido o seu desejo. Só lamento que parte dela saírá do meu bolso. Um abração.

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  18. Jorge Cortás Sader Filho12:41 PM

    Estava lendo atentamente. Parei, pensei que já vi o pijama e o Smith trinta e dois, cabo de madrepérola. Voltei a leitura. E descobri a vontade do Marcelo.
    Também já iniciou a campanha de direitos perpétuos, recebendo como os ministros do STF. Merece. Ele merece!
    Abraço.

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  19. Mirze Souza12:42 PM

    Marcelo!

    Que texto lindo. Ofusquei Getúlio e foquei sua avó. Veja como ela era rica, sei que foi você que escreveu, mas destaco o que mais me atraiu:
    “Minha avó dizia que o Seu Gegê era irritantemente detalhista em assuntos de indumentária de alcova. Seu envelope de dormir não poderia ser muito apertado a ponto de lhe tolher os movimentos no leito, nem tão folgado a ponto da calça lhe escorregar pela pança se tivesse que saltar rapidamente da cama por motivo de urgência – o que não seria difícil naquele tumultuado agosto de 1954. O fato é que o baixinho gaúcho talvez fosse o único bípede pensante a ter pijamas sob medida, um preciosismo que os livros escolares, estranhamente, nunca registraram.”

    Gostaria de ter um pijama feito por sua avó, quem sabe ela fizesse meu vestido de noiva, com tanto detalhe que estudava, não da costura, mas do caráter e maneira de ser. Ela pensou em Getúlio como um ser humano, ignorando o suicídio (que lógico ainda não sabia.)

    Enfim, você tem razão. Pode pedir seus direitos. Leve este texto e eles com certeza lhe darão.

    LINDO! PARABÉNS!

    Beijos

    Mirze

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  20. Miriam Sales12:42 PM

    Vamos fazer um abaixo assinado,caro Marcelo.Getúlio foi um dos ídolos do meu avô Sales q/ me fez,aos oito anos,escrever um texto discursivo p/ ele;n/ me lembro de nada .só q/ terminava três vezes c/ a palavra “Brasileiros” e pontos de admiração,hoje pouco usado por falta de políticos q/ os mereçam.

    Creio q/ o Getúlio foi um pouco responsável pelo despertar dessa escrivinhadora.rsss
    Magnífica crônica de um dos maiores cronistas brasileiros.E,um voto de carinho p/ a vovó Doroty.

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  21. Jesuiscristim! Se aprovam essa sua reivindicação, será mais uma taxa a ser, incluída nos nossos carnês.

    Pare por ai, Marcelo. Siga como um excelente brasileiro, que sabemos que é. Do mais, lê-lo é fundamental nos finais de semana.

    Obrigada pelo texto instrutivo.

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  22. Caro Marcelo,

    A vida é assim, né? Uns morrem de pijamas outros com as calças na mão...rsss...enfim, mas justiça seja feita, o mérito de sua "vozinha" deveria ser devidamente valorizado, mas afinal vivemos num país que pouco reconhece seus anônimos heróis.
    Adorei seu texto, como sempre a boa medida do humor.
    Beijos,
    Genny

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  23. Gina Soares7:23 AM

    Quem iria imaginar um dia, que o pijama feito com tanto zelo, carinho e sob medida, por sua avó, teria esse final.
    É relíquia… vale a história…
    Encabeço o abaixo assinado, em busca de seus direitos…
    Bom dia!!!

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  24. José Carlos Carneiro2:39 PM

    Ri um monte. Aliás, quem não vair? Você realmente saiu dos trilhos, no sentido de dar brilho a um episódio da nossa história. E incrementou com intervenções pertinentes na nossa atual realidade política e jurídica. Estou torcendo para que as ações que impetrou quanto aos direitos herdados de vó o deixem rico materialmente, pois de criatividade você já tem fartura pra dar e vender.
    Boa semana.

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  25. Fernando Dezena11:13 PM

    Sabia que a crônica tinha um forte apelo financeiro kkkk Muito boa Marcelo!

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  26. Zezinha Lins11:14 PM

    Na medida certa e justa. Muito bom , Marcelo, muito interessante esta parte da nossa historia ate o momento desconhecida. Ah se nao fosse voce rsrs. Que pena, estou com problema no meu teclado e os acentos nao funcionam, devo parar por aqui, esse fato me incomoda tanto quanto a injustiça historica sofrida pelo unico nerdeiro de D. Doroty. Bjo!

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  27. Estive numa exposição no Palácio do Catete e
    posso até comprovar a qualidade do acabamento.
    Ótima história!
    Abraços

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  28. Evelyne Furtado2:58 PM

    Sua criatividade é um presente para os leitores, Marcelo! Misturar Getúlio, ministros do STF, uma avó costureira e um pedido de pensão deu certissimo na sua escrita.Beijos e boa semana, amigo!

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