Pular para o conteúdo principal

ÁGUA NO SHAMPOO




ILUSTRAÇÃO: THIAGO CAYRES

Não é novidade para ninguém que nosso salão está com os fios, ou melhor, com os dias contados. Ou tomamos providências emergenciais ou seremos forçados a fechar as portas.



As orientações abaixo são estritamente confidenciais. Se cairem nas mãos de alguém que não pertença ao quadro funcional, estaremos irremediavelmente perdidos. Assim, sugiro a todos que destruam este documento assim que finalizarem sua leitura.


De forma geral ficam valendo como padrões, até segunda ordem, os procedimentos a seguir.


Sem que o cliente perceba, procurem deixar o cabelo pelo menos meio centímetro mais comprido que o solicitado. Exemplo: nos cortes masculinos, se pedirem para cortar com a máquina 2, cortamos com a 3, se pedirem com a 1, cortamos com a 2, e assim sucessivamente.


Para as mulheres, sugerimos indicar como nova tendência mundial a franja quase caindo nos olhos, o que as obrigará a fazer manutenção do corte a cada 5 dias no máximo.


Vamos tentar, tanto quanto possível, canalizar os atendimentos para datas com lua crescente. Como todos sabemos, cabelos crescem mais rápido nesses dias e consequentemente o cliente volta antes.


Shampoo e condicionador: diluir na proporção de 3:1, no mínimo. E nada de repetir a operação, sob pena de demissão por justa causa.


As assinaturas de revistas, que já estavam suspensas desde 2006, prosseguem cortadas. Uma vez que ninguém mais lê revistas tão velhas, venderemos as que estão em uso para empresas de reciclagem, destacando em uma faixa ou cartaz que estamos fazendo nossa parte por um planeta sustentável, eliminando papel e colaborando para a sobrevivência das florestas.


Convênio com médicos ginecologistas.
O tempo que as mulheres perdem cortando os cabelos ou fazendo as unhas é, a bem da verdade, perdido. Assim, enquanto tratam da beleza poderiam também cuidar da saúde. Passaremos a oferecer um diferencial único no mercado: exames de Papanicolau simultâneo ao corte de cabelo, por meio de um aparato ginecológico volante, operado por médico da especialidade conveniado ao salão.


Banco de cabelos de notáveis.
Comportamento ético é muito bonito no discurso, mas não é este o caso em nossas atuais circunstâncias financeiras. Desta forma, partiremos para a fraude sem maiores dilemas de consciência. O engodo na cara dura. Simples assim: não jogaremos no lixo as mechas recolhidas no salão. Inventaremos donos célebres para elas, avalizadas por certificados de autenticidade igualmente falsos, com o cuidado de escolher tons de mecha que correspondam à cor natural do cabelo da celebridade. Como a descoberta do golpe seria caso de polícia e de uma pauta especial no Globo Repórter, ofereceremos as relíquias só em circuito interno e para os clientes mais bobos, que caiam facilmente na esparrela. Além de faturarmos bem com a brincadeira, ficaremos com a fama de sermos o salão de beleza de gente famosa.


Outras sugestões são bem-vindas. Lembrando a todos os colaboradores o lema da nossa campanha de redução de custos: “Quanto mais cortes de cabelo, menos de cabeça”.






© Direitos Reservados

Comentários

  1. Eu como funcionária dessa espelunca vou logo colaborar com outra dica: todos os esmaltes deverão ser dissolvidos em álcool gel, na proporção 3:1. Os clientes vão achar a textura mais fina, mas o que importa é economizar até a última gota do esmalte "desejo proibido", o mais requisitado pelas casadas de plantão!

    ResponderExcluir
  2. Adorei, Marcelo!

    Eu já fiz minha revolução particular. Sempre em favor da mulher ocupada e sem nenhum ânimo, como eu, que odeio salões. Pedi ao Órgão de defesa que fiscaliza salões, que obriguem os donod a dizerem o nº e a marca da tinta. Fui contra o cheiro de formol no alisamento etc etc...

    Faço minha parte e não "queimarei" este aviso.

    Beijos

    Mirze

    ResponderExcluir
  3. Marcelo10:14 AM

    A partir de janeiro de 2013 todos os salões de beleza deverão solicitar aos seus clientes que comprem uma lista de material de beleza no começo de todo ano (como fazem as escolas com seus alunos e suas intermináveis listas de material escolar). A cesta de produtos desta lista poderá ser adquirida em qualquer papelaria e deverá conter: a assinatura de duas revistas semanais; 24 shampoos; papel higiênico 48 rolos; garrafa térmica de 5 litros para que o cliente leve para o salão sua prória água quente; pentes; escovas de cabelo; um secador de cabelos e um jogo de toalhas. A lista estará sujeita a alterações de acordo com as necessidades de cada estabelecimento.

    ResponderExcluir
  4. José Hamilton Brito10:15 AM

    Sugestão eu nao tenho. Tenho duas pergunta: as ações desta empresa já se encontram no mercado? Não dá pra entrar na sociedade desta máf…digo, maravilhosa empresa comercial?

    ResponderExcluir
  5. Cissa Oliveira10:15 AM

    Gostei, é bastante realista; eu mesma já fui vítima de alguns golpes.

    … tem mais aquela promoção de hidratação sensacional que, no fundo é uma lavagem de cabelo e depois apenas um condicionador (enquanto a cliente faz as unhas fica com o condicionador no cabelo) mas jurando que é um creme importado e que a cliente não vê pois os cremes ficam atrás do lavatório.

    … e tem aquela história de que “não vai lixar o pé” porque não usa mais; além disso possuem uma podóloga no salão (valor pago à parte);

    … e tem aquela história de esmalte importado (mas que passa somente uma vez) mas o valor da manicure é bem maior.

    Pois é, esses golpes a gente vai conhecendo e consequentemente mudando de salão.

    Abraço,

    Cissa

    ResponderExcluir
  6. José Carlos Carneiro10:16 AM

    Isso é que é estratégia de sobrevivência, com tantos serviços e alguns engodos. É muito provável que em breve seja mesmo o salão de cabeleleiro dos famosos. Torcerei muito para isso, mas não me mande o endereço. rsrsrsrs
    Um abraço, bom domingo e boa semana.
    Obs: mais tarde ou amanhã informarei o que saiu na GAZETA.

    ResponderExcluir
  7. Que horror... Voltemos todos aos tempos e modismos dos "homens e mulheres da caverna"... Imaagino o que não foi determinado ao item DEPILAÇÃO!? Será que o exame ginecológico seria nesse exato momento?
    Abraço, Célia.

    ResponderExcluir
  8. Voti cobra !!!!!!

    Que diacho de salão mais safado sugiu agora?

    Eu não tenho sugestão nenhuma pra ele, não! Tudo o que podia ser dito para piorar a imagem do estabelecimento, o Marcelo já se incumbiu de descrever.

    Voti cobra, novamente!

    Esse negócio de depilação é ruim que dói! Papanicolau então é pra redenção dos pecados.
    Como já disse. Se mulher tivesse próstata sofreria 2 vezes mais.

    Eu, heim! Ao invés de facilitar, só complicam ?

    Buá buá buá buá
    há há há há há há

    Grande abraço, moço inteligente!!!!!

    ResponderExcluir
  9. Claudete Amaral Bueno11:13 PM

    Olha: SABE QUE VC TEM BOAS IDÉIAS????????????? Muito práticas!
    Nunca irá à falência!!!!!!!! rssssssssss

    Abraços e um bom final de semana
    Claudete

    ResponderExcluir
  10. Cristina Siqueira7:09 AM

    oi Marcelo,

    Ri muito,vc é genial!Estou em Trancoso e aqui as madeixas ficam livres e naturais
    mas conheço bem a epopéia dos salões de beleza.
    Em breve voltarei a postar e ai te aviso.

    Beijos,

    Cris
    Vc cada vez melhor,de humor apurado e crítico.

    ResponderExcluir
  11. Mirze Souza7:11 AM

    Pode ser verdade, mas antes que pensem que esse maravilhoso texto não é ficção, deixo a idéia de: em caso de constatação, imitarmos a imagem, cortar o dinheira na proporção 3 por 1 e assim ficaremos quites. O que eles fazem nesses salões, é um horror. Acho que não há fiscalização em salões. Mas deveria porque usam substâncias tóxicas e existe muitas pessoas alérgicas.

    Excelente, Marcelo!

    Beijos

    Mirze

    ResponderExcluir
  12. Clotilde Fascioni7:12 AM

    Marcelo que coisa interessante, principalmente o atendimento simultâneo com o ginecologista, incrivel! Muito bom, adorei. Abraços

    ResponderExcluir
  13. Jorge Cortás Sader Filho7:12 AM

    Aiiiiii… Esta doeu!
    Há muito tempo não via um desfile com tantos destaques.
    Mas o melhor é o atendimento da cliente pelo médico conveniado. Já imaginou quantas podem ser salvas de um tumor malígno? Vou dar esta ideia a Dilma.
    Ferrou-se, Marcelo. A direção do SUS está garantida!
    Aquele abraço,

    ResponderExcluir
  14. Zezinha Lins7:13 AM

    Com certeza entre a momento da publicação do texto e o momento em que escrevo este econômico comentário, o salão fechou por falta de cliente. Ainda bem, assim não corro o risco de entrar lá por engano.
    Bom demais da conta, Marcelo. Beijos!!!!

    ResponderExcluir
  15. Gina Soares7:14 AM

    rsss…. hoje mesmo fui cortar os cabelos e percebi o problema do shampoo e da hidratação. O shampoo é tão diluído, que a espuma quase que inexiste, enquanto que o condicionador, a dose era tão pequena que não percebi que havia sido colocada e perguntei: não vai passar o hidratante?
    Adorei!!
    bjs

    ResponderExcluir
  16. Natanael Junior7:22 AM

    Caro Marcelo agradeço a indicação. Peço tb que acesse e divulgue o blog domingo com poesia, www.domingocompoesia.blogspot.com

    Natanael Lima Jr

    ResponderExcluir
  17. Meu caro cronista e amigo, em épocas em que downsizing e afins é lei maior nas corporações, não duvido que os pequenos salões de beleza adotem sua lavra bem-humorada como manual de maximização de ganhos.

    ResponderExcluir
  18. Juan Carabetta11:14 AM

    Muito bom , parabens.
    juan

    ResponderExcluir
  19. Olá Marcelo!
    Bem, ao receber este memorando, só posso pensar em colaborar com a empresa. Sugiro que a água utilizada em lavagens de cabelos seja reutilizada para pedicure e manicure e o uso da velha e eficiente touca de meia de seda para evitar o uso do secador. Acho que fiz a minha parte!

    Adorei! Como sempre!

    Um beijo!

    ResponderExcluir
  20. Leslie Taboas1:13 AM

    Mais um ótimo texto!! Adorei!!



    Bjs.

    Leslie

    ResponderExcluir
  21. Fiquei sabendo que o tal colecionador de canetas do texto anterior era um dos funcionários do "salão". Foi a partir do memorando que ele teve ideia de guardar as canetas secas; afinal, ninguém sabe o que poderá acontecer no futuro, né?
    Abraços

    ResponderExcluir
  22. Celi Estrada8:12 AM

    Obrigada pelos textos.
    Celi

    ResponderExcluir
  23. Belvedere Bruno8:26 AM

    Excelente! Olha que cortei despesas com cabeleireiros porque os preços andam pela hora da morte. Ufaaaaaaaaaaaaaaaa!
    Adorei!!!!!!!!!!
    Bjs

    ResponderExcluir
  24. Dá pra fazer ótimas perucas e apliques com os cabelos de clientes como eu, que não têm pena de sentar a tesoura nas madeixas.
    Ô crise braba!

    Um bjão, Marcelo!

    ResponderExcluir
  25. Mara Narciso5:16 PM

    Verdade verdadeira. Quem é bom administrador sabe gerir em tempos de crise, apenas que não creio que essas "diretrizes" serão capazes de impedir a falência.Mas valeu pela graça. E de graça.

    ResponderExcluir
  26. Paulo André2:08 AM

    Marcelo, “hey filho”,
    me lembrei dessa reportagem,
    http://www1.folha.uol.com.br/folha/videocasts/ult10038u733008.shtml
    se encaixa bem, pode vender para o Eike Batista caso ocorra desastres.

    abraço
    paulets

    ResponderExcluir
  27. Cássia Hadassah2:09 AM

    Muito bom , parabéns por sua clareza no texto.

    ResponderExcluir
  28. Odele Souza2:10 AM

    É. O texto é irônico, mas retrata bem a realidade do que se passa em alguns (muitos?) salões de beleza, cujos preços já são pouco convidativos.

    Um abraço

    ResponderExcluir
  29. Elika Takimoto2:10 AM

    Gostei muito do texto. Aliás, o tempo passado aqui nesse seu blog não é tempo perdido, tal qual ocorre nos salões de beleza.

    Parabéns!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A CAPITAL MUNDIAL DO BILBOQUÊ

Para os menores de 30, é natural não conhecê-lo. Então comecemos por uma sucinta porém honesta definição.

Bilboquê: originário da França, há cerca de 400 anos, foi o brinquedo favorito do rei Henrique III. Consiste em duas peças: uma bola com um furo e um pequeno bastão, presos um ao outro por um cordão. O jogador deve lançar a bola para o alto e tentar encaixá-la na parte mais fina do bastão. (fonte:www.desenvolvimentoeducacional.com.br).

Mais do que um brinquedo, Bilboquê é o nome de uma cidade, localizada a noroeste da pacata estância de Nhambu Mor. Chamada originalmente de Anthero Lontras, foi rebatizada devido ao número desproporcional de habitantes que fizeram do bilboquê a razão de suas vidas, dedicando-se ao artefato em tempo integral (incluindo-se aí os intervalos para as necessidades fisiológicas).

A tradição se mantém até hoje, ganhando novos e habilidosos adeptos. Nem bem raia o dia na cidade e já se ouvem os toc-tocs dos pinos tentando encaixar nas bolas. Uma distinção se…

SANTA LETÍCIA

Letícia, em seu compartimento estanque, se bastava. Vivia debaixo de uma campânula guardada por um querubim estrábico, numa imunidade vitalícia às dores do parto, à lavagem da louça, às filas nas repartições e à rabugice dos maridos sovinas e dominadores. “Façam o que quiserem, contanto que poupem a Letícia” era o veredito invariável sob qualquer pretexto e em qualquer ocasião, naqueles sítios de lagartos e desgraças.
Nada que se comparasse àquela que chamavam de Letícia, e que raras vezes se afastava de seus cães e de sua coleção de abajures. Era o tesão das rodas regadas a cerveja. Era a inveja e o assunto nos salões de beleza. Era o exemplo de virtude no sermão do padre, que botava as duas mãos no fogo do inferno e uma terceira se tivesse pela sua inteireza de caráter.
Assim a vida corria daquele jeito de costume, com a cidade a lhe estender tapetes, a lhe levar no colo e a lhe cobrir de afagos, soprando-lhe o dodói antes que se machucasse. Passou a ser o tema das redações escolares …

ESTRANHA MÁQUINA DE DEVANEIOS

Habituais ou esporádicos, todos somos lavadores de louça. Lúdico passatempo, esse. Sim, porque ninguém vai para a pia e fica pensando: agora estou lavando um garfo, agora estou enxaguando um copo, agora estou esfregando uma panela. Não. Enquanto a água escorre e o bom-bril come solto, o pensamento passeia por dobrinhas insuspeitas do cérebro. Numa aula de história, em 1979. O professor Fausto e a dinastia dos Habsburgos, a Europa da Idade Média e seus feudos como se fosse uma colcha de retalhos. O Ypê no rótulo do detergente leva ao jatobazeiro e seu fruto amarelo de cheiro forte, pegando na boca. Cisterna sem serventia. Antiga estância de assoalhos soltos. Rende mais, novo perfume, fórmula concentrada com ação profunda. A cidade era o fim da linha, literalmente. O trem chegava perto, não lá. Trilhos luzindo ao meio-dia. Inertes e inoperantes. As duas tábuas de cruzamento/linha férrea dando de comer aos cupins. Crosta de queijo na frigideira, ninguém merece. Custava deixar de molho? A…