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APARTAMENTO 607



Naquele cubículo eu a amei mais do que seria o bastante a dois mamíferos normais. Ou mais do que seria conveniente aos olhos e ouvidos dos vizinhos.

- Essa penugenzinha mais espessa caminhando pro seu umbigo, olha só.


- Ah, seu bobo. Cada uma...


Viro pro outro lado e dou com o peixe em zigue-zague ali no aquário, assustadinho. A falta de gravidade, zumbe a bomba de ar, há um verde musgo nos cascalhos e o reflexo da gente distorcido no vidro.


Quero que a tarde plane sobre a pólis desse jeito, com a tv ligada e nos ligando por um zonzo abandono de afazeres. Além do mais, há quase um tudo nesse nada, e é um estrondo a brisa leve nas avencas. Que mais a gente pode desejar, a não ser o dilatamento do tempo governando o espaço nosso?


- Alguém acendeu um aqui perto, sente o cheiro.


- Cheiro é o seu, meu bem.


Cheiro é o dela. Estrógeno concentrado nos cabelos fininhos da nuca. A falta que você fez enquanto hoje não chegava, se soubesse. Se soubesse se arrancava de onde estava e se atirava sem vergonha sobre mim, antes do prazo combinado e dos procedimentos cumpridos.


Os dentes todos, brancos e seus, rompendo a carne da maçã. Que bom é assim, vendo você sem que se saiba sendo vista. O lençol se espraia em ondas pela cama. Florzinhas, detalhes, coisas de mulher que põe sentimento no cio. Há uma batalha em andamento nesses três metros por quatro, sem vencedor nem vencido, só a disputa e a conquista do território do outro. Estar dentro do outro lado, ser os dois lados e um só. Depois é água e bandeira branca, amor.


- Duas coisas, meu anjo: pede uma pizza e traz a manta.


- Sim senhora. E eu, também estou no pedido?


É de perder a cabeça quando ela aciona esse riso, como se abrisse um preview do mistério de que é feita. Vinte minutos de cócegas e guerra de travesseiros. Nada muito mais sério pode rolar daí pra frente, eu sei mas finjo que não e tento falar de nós dois enquanto conto suas estrias.


- Espera aí que eu já volto, o motoqueiro tá buzinando.


Uma sirene de polícia e um alarme disparado Sua pulseira sobre a antologia de Drummond. O relógio e as chaves de casa, do carro e de nós. Trago os talheres e os pratos.


Gosto tanto do atrevimento, tão raro e tão bem-vindo. Das poucas vezes em que você se presta a me domar. É claro que a porta pode se abrir para uma procissão de camelos, mandalas de pedra podem passar razantes sobre nossas cabeças que tudo bem, nada que assuste ou afaste os olhos cravados nos olhos.


- Me ajuda aqui com o fecho do vestido.


Se ela tem mesmo que ir, que vá cheirando a mim. A saciedade é uma ilusão que dura quase 10 minutos. Tudo o que vier a acontecer será só ínterim entre sua partida e seu retorno incerto.


O que consola é você deixar pequenos vocês nos arredores. Batom no copo, cabelo no ralo. Uns rastros poucos que duram, quando muito, até amanhã. E amanhã é muito longe da outra vinda, quando aqui será o nirvana novamente.





© Direitos Reservados

Comentários

  1. Incrível deleite... Sonhei e me transportei à cena!
    Abraço, Célia.

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  2. Claudete Amaral Bueno6:24 AM

    Oi!!!!!!!

    Vc estava romântico nesta semana......
    Só as estrias sairam fora do romantismo.......rsssssssssss

    Um abraço e bom FDS......
    Claudete

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  3. José Carlos Carneiro6:25 AM

    Que banho de luxúria, cara! Duvido que os leitores da Gazeta e ainda próprios para o consumo não tenham acessos de erotismo repentino.
    Excelente a descrição que adotou. Merece nota a "guerra de travesseiros".

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  4. Mirze Souza6:27 AM

    Marcelo!

    Parece que o texto se assemelha ao famoso BBB. Pelo que li rudo me leva a crer. Mas não vejo, e não abro mão de falar mal de um programa em rede nacional em horários diversos, onde crianças assistem um horror desse. Deveria ser proibifo, mas temos que engolir, E tem gente que paga para ver. Inacreditável como anda esse mundo.. Ainda bem que existem para pessoas de nível médio outros canais com filmes.

    Abraços

    Mirze

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  5. José Hamilton Brito6:28 AM

    Rapaz do céu, o pega foi pra valer mesmo. Vê-se ou melhor, sente-se a poesia impregnando cada palavra, cada vírgula e não há como nao ficar aqui tentando advinhar como será esta deusa.
    Me senti um voyer ( é assim mesmo que escreve); acho que vi a penugenzinha caminhando.rumo ao umbiguzinho.Um texto bem escrito vale mais que um clipe pornô, que por sinal….

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  6. Antônio Fonseca6:28 AM

    Fiz uma retrospectiva dos meus “casos”. Em todos havia um pouco desses sentimentos, mas, na época, eu era apenas um aprendiz de poeta e não os vislumbrava. Como perdi tempo não sendo romântico! Mas fui e sou muito feliz!
    Parabéns Marcelo. Lindo texto cheio de poesia e sentimentalismo. É a exposição de um ato sexual, narrado em ricas palavras sem contudo ferir os ouvidos puritanos.

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  7. Uau, Marcelo, o sensual... risos... muito legal!! Miau!

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  8. Veja só! Pensei que no final fosse quebrar a minha expectativa e trazer picles narrando a história toda. Mas não! Surpreendeu e acabei não vendo o picles. Será que na pizza? Afff! Nem quero saber.
    sair dessa cena inteira é difícil.
    Mas me recomponho.
    Grande abraço. moço inteligente.

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  9. Jorge Sader Filho1:07 PM

    Rapaz, que aconteceu?
    Um conto. Seria crônica? Não sei, mas é sério, bem narrado e traduz o que sentimos mesmo. Não tem os disparates bem conduzidos do Marcelo.
    Abraço,
    Jorge

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  10. Leda Basile1:36 PM

    Que delícia, Marcelo, texto sedutor, apaixonante...
    É tão bom saber o que é isso tudo que se sente, né?


    Beijos,


    Leda. ( e como sempre, compartilhando no face).

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  11. Carlos Edu Bernardes1:10 AM

    Mensagem sinalizada Sábado, 17 de Março de 2012 22:15delícia de texto!
    sensacional, Marcelo!


    (~()

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  12. Lisette Feijó1:11 AM

    Interessante, abraço Lisette.

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  13. Eliana6:50 AM

    Nossa Marcelo que texto lindo! Aliás, acho que é o sonho de consumo de toda mulher saber que alguém escreveu um texto desses para ela. Inda que neste caso, creio eu, seja só um conto. Pena que vocês homens só são assim na escrita (rsrs) e quando são escritores feito você! Por isso que a gente discute tanto a relação! rsrs Só para, na discussão, ouvir alguma coisa desse tipo. rsrs Parabéns! Hoje vou levar seu texto para ser lido na reunião semanal do grupo que frequento aqui em Indaiatuba (Sociedade dos Escritores de Indaiatuba – pomposo só no nome!).

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  14. O mais simples e o mais complexo.
    Um texto bem escrito que remete a vivermos juntos cenas de momentos que são no total inenaráveis.
    A paixão, o desejo e a atração são as musas dos escritores. Mas afinal, do que é feito a vida?
    Abraços

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  15. O amigo apontou a pena semanal para o lascivo. Ousadia bacana e bem a seu estilo. Remissões a remembers de alcova são inevitáveis aos leitores. Os menos pudicos confessarão. Sua lavra me fez lembrar a prosa-luxúria do Xico Sá, que se extasia com o cheiro de Neutrox nos cabelos femininos na fila da padaria.

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  16. Boa semana abraço Lisette.

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  17. Adorei, Marcelo!
    A cena, a ocasião nos arrebata! Sensualidade, romance e naturalidade.
    E quem já viveu amanhãs assim, tão distantes, pode entender melhor ainda!
    Muito bom mesmo!

    Um beijo!

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  18. Sandra Nogueira7:01 PM

    Marcelo, te vejo cada vez mais como um poeta de alma apaixonada. Abração

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  19. Cláudio Dalmonte8:30 AM

    Marcelo, bom dia!!
    Muito bom ter seus textos no “O Movimento”
    Não é poesia, mas não deixa de ser uma continuidade!
    Boa semana
    Abraços.

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  20. Cássia Gueiros5:47 PM

    Parabéns gosto muito do seu estilo.
    Fiz o primeiro ano de jornalismo e por motivos particulares não pude dar continuidade.
    Mas pretendo voltar, minha turma vai se formar em 2013. Amo a lingua portuguesa.
    O seu estilo é muito interessante. Você já escreveu algum livro? Me indique gostaria de adquirir.
     

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  21. Ah, que enlevo e que sedução mais encantadora, Marcelo. Texto sensualíssimo, apoiado numa linguagem que cumpre sua função: arrebata também.
    Abraços

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  22. Miriam Sales4:59 PM

    Explosão de hormônios ,mas,muito bem colocados.rss

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  23. Clotilde Fascioni4:59 PM

    Marcelo esse foi demais, lindo, pura poesia, “O que consola é você deixar pequenos vocês nos arredores.” Só essa já me arrepiou… Abrçs♥

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  24. Adoro quando os homens usam bem as palavras pra expressar suas paixões.
    Fiquei aqui pensando em quem vc estaria pensando quando escreveu isso... desculpe a intromissão (escreveu pq quis...) rsrsrs ficção, eu sei, eu sei.

    bjo, Marcelo

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  25. Oi Marcelo!

    Escreveste lindamente esse texto.
    Cenas bonitas, natural e sensual. Maravilhoso de ler.

    Beijos!

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  26. Clarice Villac4:23 AM

    Belo texto !

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