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DOIS DENTES




Foi na sala de espera do dentista, enquanto matava o tempo lendo uma história em quadrinhos, que caiu a ficha. Me dei conta que os personagens, quando humanos, apresentavam no lugar dos dentes duas fileiras brancas sem separação, uma em cima e outra embaixo. De onde formulei minha teoria, inútil mas não completamente estúpida: os dentes deveriam ser 2, e não 32. Duas peças ósseas e inteiriças, lisas como fórmica, enraizadas nos respectivos maxilares.



Tudo bem que, ao dividir a engenhoca mastigadora em frações, a natureza foi sábia: havendo problema o reparo é localizado, só se mexe na porção avariada. Mas cismei de imaginar se mother nature, no caso, tivesse sido tão pouco inteligente quanto o meu devaneio.


Seria a ruína dos ortodontistas, que não teriam o que fazer com seus aparelhos corretivos por não haver mais dentes tortos nem encavalados para alinhar. Os fios dentais sumiriam das prateleiras e as escovas durariam décadas. Resíduos de alimentos não encontrariam onde se alojar, e consequentemente as cáries estariam em maus lençóis. Fábricas de palitos fechariam as portas da noite para o dia. Por outro lado, um tombo qualquer, em efeito análogo a uma pedrada no para-brisa, poderia trincar de fora a fora o reluzente semicírculo bucal, que ganharia um racho vitalício e indisfarçável. Os exames de arcada, comuns nas perícias criminais, deixariam de existir, já que todas elas seriam idênticas. Grafiteiros veriam na alva e extensa chapa um muro biológico para expressar sua arte. A cultura underground conceberia a Odontatoo, a tatuagem dental, personalizando o standardizado sorriso do freguês.


É, melhor parar por aqui. Antes que me arrebentem os dentes.






© Direitos Reservados

Comentários

  1. Pôxa, agora viajei no dentifrício de listrinhas. Adorei Marcelo. Abçs♥

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  2. Sua criatividade bucal, nota dez, Marcelo! Completaria que "dentes" deveriam ser como "unhas" iam crescendo e nós cortando, lixando, esmaltando no "denticure"... e tudo bem! Bem, mais prático seria! Ah! Sem dúvida alguma! Adeus aos tratamentos prolongados e carérrimos, aos transplantes e congêneres da terceira dentição!
    Bj. Célia.

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  3. Marcelo8:55 AM

    Os dentes e as janelas do MASP guardam segredos de liquidificador.

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  4. Marcelo, um beijo trincado, sorrindo, com uma boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar... risos...

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  5. Leda Basile2:29 PM

    Querido Marcelo, ler você é um bálsamo no meio dessa tormenta.
    Obrigada por não me esquecer.


    Beijo,


    Leda.

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  6. Eliana Mattos2:42 PM

    Marcelo apesar dos pesares, sabe que não seria má ideia essa a sua… E como até hoje nunca pensei nisso?… Nem quando estou entediada na sala de espera do meu dentista, que normalmente está sempre uns 20 minutos atrasado! Bom final de semana e parabéns!

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  7. Marcelo!

    Se você pudesse influenciar "mother Nature", estaria agraciado pela humanidade.

    Acho que houve um erro no sistema da mãe natureza. Deve ter apagado tudo e como ela só lembrou da arcada dentária no final, não conseguiu dar um "boot" e por isto padecemos. Concordo que os dentes não deveriam crescer e/ou ao crescerem, os dentistas apenas teriam o trabalho de aparálos, diminuílos, alargá-los ao gosto do freguês. Pelo erro do sistema, pagamos um preço absurdo a cada ida ao dentista. E o pior é que precisamos.

    Genial!

    Beijos

    Mirze

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  8. Então... se essa teoria máxima se concretizasse como ficaria uma possível pérola do ENEM

    " As aves tem na boca um dente chamado bico" ?

    Ficaria

    " As aves têm na boca uma plataforma chamada funil"

    Protegendo os meus.

    Valeu, Marcelo!

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  9. Claudete Amaral Bueno12:42 AM

    Oi, Marcelo: Como me disse alguém:

    "Vc pensa coisas que ninguém pensa"......Vc também......(nem eu tinha pensado nisso).....rsssssss

    Um abraço, bom FDS.....

    Claudete

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  10. Lisette Feijó12:43 AM

    Bem pansado, abraço Lisette.

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  11. Jorge Cortás Sader Filho12:45 AM

    Arrebentar seus dentes por quê? Acaba de dar uma ideia genial!
    Já deve ter muita gente sonhando em ‘encapsular’ com alguma resina plástica os dentes. Muito prática, a solução.

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  12. Marcelo (xará!)7:48 AM

    Marcelo fique sabendo que Deus criou os dentes da forma como você descreveu : duas peças ósseas inteiriças. Durante milênios os homens praticantes de esportes radicais é que deram aos dentes o formato que você conhece hoje. E quando a pedra despencou da ribanceira eu também quebrei a perna.

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  13. Jota Effe Esse7:49 AM

    Marcelo, eu acho que O lá de cima poderia fazer uma reengenharia no seu projeto e tudo ficaria beleza! Meu abraço.

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  14. José Brito7:50 AM

    Fosse só uma peça, os fios e palitos nao teriam sido invcentados e portanto, nao sumiriam e sim nao teriam aparecido e a expressão ” ainda quebro os dentes daquele desgraçado ” não teria surgido e o meu dentista, tadinho,não estaria andando ( é a expressão correta? ) de carrão por ai e a filhinha dele estudando em Harvard…e paremos por ai.

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  15. Dilma Santana7:53 AM

    o seu devaneio foi tão difícil de imaginar,já que sou dentista,como o seu sobrenome...mas entendo o quanto pra vcs pacientes/clientes..é complexo aceitar os transtornos bucais que os acometem,terem q ser submeti...dos a um diagnóstico e extenso tratamento !!!dê graças a Deus por ele ter inspirado os que militam na profissão de Dentista/odontólogo...os que amam e, realmente remediam os transtornos,ou simplesmente,os previnem...Visite-nos regularmente e use o fio dental...mas vc abordou bem os possíveis problemas de termos apenas 2 dentes...legal!!

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  16. Lucimara Souza10:42 AM

    O melhor da crônica é isso. Transformar em arte aquilo que nunca pensamos… rs
    Muito bom! Confesso que, na parte em que você fala do “racho vitalício e indisfarçável”, senti um certo desconforto só de imaginar. Tenho um medo danado de ficar banguela ou quebrar um dente da frente…
    Bjs, Marcelo!
    Parabéns, mais um vez. Passe lá em http://www.textos-e-reflexoes.blogspot.com. Trago, essa semana, o Desenrolar da Quadrilha (de Drummond).

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  17. Miriam Sales10:43 AM

    Os dentistas n/ iriam gostar.E os protéticos, gente, c/ suas dentaduras tão ridículas, mas,necessárias.
    Aqui no interior da Bahia é comum se ver um sujeito com apenas um dente na frente; que a gente chama “onde vais tu ,garboso infante… rsss

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  18. boa ideia essa, meu caro... os dentistas passariam a ser funileiros bucais... abs.

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  19. Julio Mick3:54 PM

    fantástico....cada vez que leio, mal posso esperar pelo proximo texto. parabéns

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  20. Ahahaha Marcelo, mas assim ficaríamos todos com sorrisos de desenho animado! Pensando bem, até que poderiam ser dois dentes que não se desgastassem, não estragassem... Mas... Cuidado que a turma da higiene bucal já está de olho em sua casa e em seus hábitos, hahahahaha
    Beijo!

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  21. Salete Cochinsky9:36 AM

    Olá uma excelente semana Marcelo
    Risos, as circunstâncias, ou algo que está subliminar podem trazer a tona as mais inusitadas idéias, e delas, um longo processo de imaginação.
    Já imaginei vários equipamentos, mas mudança no corpo se me ocorre um desconforto trato logo de confortar-me como é. + risos. Melhor deixar assim, não?
    Bjs

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  22. Zezinha Lins4:35 PM

    Depois de ler seu texto, de dar uma boa risada, me pergunto? “Como ´e que ninguém pensou nisso antes?” Esta semana você está com a corda toda, hem, Marcelo?
    O final foi em grande estilo. ADOREI!!!
    Beijos!!

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  23. Gina Soares5:26 PM

    Seria excelente idéia… rss
    Tenho que usar aparelho, e só de pensar, desisto de ir ao dentista…
    Muito bom!!
    bjs

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  24. Marcelo: como é bom ter os 32 aqui para sentir em cada um deles o deleite da risada escancarada!! Parabéns em nome de todos eles.
    Abração

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  25. Mara Narciso2:01 PM

    Os inicialmente delírios, podem, com o tempo, tornar-se coisa viável. No caso, acho que não. Se fosse melhor, os dentistas fariam próteses totais de um dente só em cima e outro em baixo. Mas foi bom viajar em sua fantasia, Marcelo, e sem nenhum risco.

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  26. Núbia2:04 PM

    Show! Mas pensando bem, pensando aqui com meus botões, acho que eu não teria bom destino, não tenho pedigree.

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  27. Antônio Fonseca2:06 PM

    Só não consegui pensar, em tendo duas carreiras brancas sem separação, como trabalharia a implantodontia. Provavelmente seria irritante o trabalho do profissional.
    Abração Marcelo e até a próxima crônica.

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  28. Nubia2:10 PM

    Putz…nunca havia reparado nisso, é verdade, um grande bloco
    com uma falhinha no meio. Salas de espera são ótimas oficinas
    para exercitar o cérebro.
    Muito engraçado seu texto Marcelo.

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  29. Clarice Villac2:55 PM

    Esta crônica me lembrou de Monteiro Lobato, na 'Reforma da Natureza'...
    :~)

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