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A SECO

Ilustração: Thiago Cayres



Colecionava canetas. Não as que considerava belas, diferentes ou raras, mas todas as que usava até as cargas chegarem ao berro. E só se permitia guardá-las após secarem irremediavelmente: enquanto não se tornassem inúteis, não poderiam pertencer à coleção.



A tal ponto chegou a compulsão em juntá-las que, estivesse fazendo o que fosse, com a mão direita ou a esquerda rabiscava qualquer coisa com a intenção única de gastar tinta e incluir mais um exemplar à extensa renca. Falando ao telefone, assistindo TV, trabalhando e até mesmo dirigindo, lá estava ele com um risque-rabisque ao lado ou no colo, alternando entre movimentos retos e circulares para prevenir LER e tendinite.


Com o tempo foi percebendo que as canetas mais vagabundas gastavam mais rápido, o que o levava com frequência quase diária ao camelódromo. De lá voltava com dúzias delas, e nem bem se despedia do dono da banca já começava a rabiscar pelo caminho. Muros, postes, panfletos de comida por quilo, toda superfície onde a ponta da caneta deslizasse servia para dar vazão à neura. Rabiscava com o alívio de quem esvazia a bexiga, toma fôlego, mata a fome. Já nem dormia direito, julgando desperdiçadas as horas em que ficava sem caneta à mão. Daí passou para o vandalismo sem controle. Era detido riscando carros pelas ruas, assentos no metrô, fórmicas de balcões de lanchonete, cabines de elevadores. Nos acessos mais violentos, metia-se em banheiros públicos e pintava em tinta esferográfica todas as portas que via pela frente.


Preso em flagrante tentando rabiscar os quadros do museu da cidade, não houve fiança que o tirasse dessa vez da delegacia. Na cela, ao invés de um risquinho na parede para contar os dias de cativeiro, fazia um a cada segundo transcorrido. Prisioneiro de sua paranoia, forrava tudo ao redor com centenas de milhares de pequenos traços. Até se contorcer em cãibras, até sangrarem as mãos, até que a carga de vida enfim secasse.






© Direitos Reservados

Comentários

  1. Nem pra ser viciado em ler seus textos hein? A neurose passaria e somente teria momentos de deleite, como esse! Bom acordar e ler você!!! Bom dia, colecionador de elogios!! Abraços.

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  2. Gosto muito de canetas...mas não assim.

    Muito bom seu texto...

    Abraço do Pedra do Sertão

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  3. Ótimo!

    Não suporto colecionadores compulsivos. Quando ultrapassa os limites, e obssessão;

    Muito BOM1

    Parabéns,

    Neijos

    Mirze

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  4. Neura mesmo! Compulsão a um estado doentio. Gostei do texto e lembrei-me do filme Histórias proibidas de Marques de Sade em sua cela, escrevendo nas paredes com seu próprio sangue. Sade dejejava compulsivamente escrever, colecionar suas idéias, e teu protagonista colecionar uma ferramenta para deixar marcas.
    Um abraço

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  5. Bem, esse cara deve ser um "troglossauro"... pois hoje, o que faria o próprio com sua "neura compulsiva" se tivesse apenas teclados e tablets pela frente?! Seria salvo pela tecnologia?
    Abraço, mestre Marcelo!
    Célia.

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  6. Carlos Edu Bernardes2:39 PM

    Excelente!


    (~()
    .

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  7. Noiado total.
    Meu tio colecionava canetas também, mas novas. Quando a filha começou a frequentar a escola ela detonou pelo menos umas mil. Que bom, pelo menos o pai não chegou a ser preso!

    bjo, Marcelo!

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  8. Este comentário foi removido pelo autor.

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  9. Antônio Fonseca11:24 PM

    Pois bem amigão, mais uma vez sou o primeiro. Não sei a razão, mas todas as suas crônicas me reportam a fatos cômicos ou pitorescos do meu passado. Esta, por exemplo, me lembra o Vicente. Colecionador de peças íntimas das meninas que ele “namorava”. Chegava a ter até três por dia! Ele tinha, em casa, oito malonas cheinhas com calcinhas. Todas identificadas: nome, data, hora, local, se foi a primeira ou qual vez que saíram. Com a prática, adquiriu, também, tuberculose. Seis meses se tratando e uma vida inteira, após isso, só admirando e recordando as façanhas. Compulsão é doença!

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  10. Excelente, mestre Marcelo!

    Achei ótimo o texto, pois caracteriza um estado onde um simples colecionador no início, ultrapassa a barreira da normalidade e passa à um estado doentio. A obsessão por canetas, moedas, revistas, e qualquer outra coisa, não deve ser incentivada em crianças. A idpeia que se tem de um pai ou avô que não para de juntar, lembra vários personagens de livtos, como "O VELHO RABUGENTO", que assustava crianças pelo sua maneira e obsessão por dinheiro. Vou imprimir e mostrar para pessoas com quem convivo.
    Esse tipo de obsessão se açastra e caso o "sujeito" venha a casar, acaba com qualquer casamento.

    Parabéns, Marcelo!

    Beijos

    Mirze

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  11. Isso é o que eu chamo de Transtorno Obscessivo-compulsivo! Abração!

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  12. Como que ele não descobriu outras funções para a caneta? Como por exemplo: Limpar cera do ouvido, coçar a cabeça, limpar debaixo das unhas, como calçadeira para sapatos apertados, enrolar cabelo(já fiz muito disso), furar sacos de alimentos nos supermercados etc, etc, etc.
    Tái, versão atualizadíssima de Marquês de Sade.

    Ah, o Flaudinho mandou um abraço pra você, Marcelo.

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  13. Jorge Cortás Sader Filho11:22 AM

    Sabe, às vezes penso que estou gastando esferográficas eletrônicas demais.
    Boa tacada, Marcelo.
    Abraço,
    Jorge

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  14. José Hamilton Brito11:22 AM

    kkkkk como o carinha conseguiu levar a caneta para a cela? O Pinel é pouco pra ele.

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  15. Risomar Fasanaro11:23 AM

    Que imaginação, Marcelo! Já pensou alguém que existisse de verdade com tamanha compulsão? Mais uma vez adorei seu texto!
    Beijão

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  16. Claudete Amaral Bueno3:12 PM

    Vá ser paranóico assim...lá na Ponte do Funil...como dizemos aqui!
    Um abraço! Bom domingo!!!
    Claudete

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  17. Lauro A B Borges3:16 AM

    Compulsão canetícia e rabiscatícia, diria o Odorico. Linhas do mais sublime talento sguassabiano, digo eu. Boa semana!

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  18. José Carlos Carneiro7:13 AM

    Isso é que é fanatismo! Ou seria tara? Seja o que for, o certo é que o registro ficou impecável nas perepécias todas vividas pelo personagem. Valeu, meu caro. Alguém tem que inovar, fugir do lugar comum, dando asas à imaginação.

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  19. Clotilde Fascioni7:33 AM

    … “até sangrarem as mãos, até que a carga de vida enfim secasse”…
    Quantas vezes nos metemos numa compulsão maluca e não conseguimos sair mais…
    Parabéns Marcelo. Muito bom como sempre.

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  20. Gina Soares7:34 AM

    Pelas barbas do profeta: tenho que começar a me policiar, pois adora rabiscar quando estou ao telefone ou entediada…. rssss
    Não para gastar a caneta, nem para secar a carga da vida..
    Adorei!!
    bjs

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  21. olá Marcelo!
    Achei o texto hoje forte. Me fez perceber quantas vezes nossas manias podem nos levar à perdição... Um estilo diferente do de sempre, porém a criatividade impera!
    Um beijo!

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  22. Mara Narciso12:06 AM

    O colecionismo é uma mania, e por isso mesmo patológica. Somos seres viciáveis e tudo que nos dá prazer pode nos viciar. No caso, a vítima parece portadora de TOC, Transtorno Obsessivo Compulsivo. Faltou mais detalhamento sobre os rituais. Muito triste, embora a cena citada possa ser vista como engraçada. A nossa loucura parece não ter limites, Marcelo. Pobres de nós!

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  23. Lisette Feijó3:53 PM

    Adoro uma caneta, abraço Lisette.

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  24. Zezinha Lins3:54 PM

    Prisioneiro da própria compulsão passa pela vida como se fosse um trem, numa viagem só de ida. Quanta gente vive assim e não consegue se libertar até que a vida seca, ai, é o fim. Como sempre seu texto é 1.000!!!!!! Adorei!!
    Um abraço, Marcelo!!

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  25. Francisco Coimbra3:54 PM

    Quando não sabemos o que comentar, ainda estamos na ressaca. Este ficou bom para ressacar, até secar a tinta nas veias. Parabéns!

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  26. Sueli3:55 PM

    Sempre gostei dessa capacidade rara de construir um texto a partir do prosaico. Seu conto é maravilhoso, parabéns!

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