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ENTERTAINER




Filha única do casal Floriano e Aléxia Montezuma, Fatinha nasceu com uma memória prodigiosa, digna de tese pós-doc em neurologia. Dentre outras façanhas, a garotinha de cabelos cacheados aos 3 anos já sabia de cor o Princípio de Arquimedes, e a pedidos da família o enunciava às visitas. A certa altura das muitas reuniões semanais em sua casa, a partir de um sinalzinho combinado com o Tio Ernesto, lá ia a belezinha pro meio da sala, entrelaçando uma mão na outra e olhando para o teto, como quem puxa pela memória: "Todo corpo submerso em um fluido experimenta um empuxo vertical e para cima igual ao peso do fluido deslocado". Um belo dia arrematou, num improviso que divertiu muito os convivas: "E a mamãe falou assim que o Seu Arquimedes saiu da banheira correndo pra rua, gritando Eureka, Eureka! e assustando a vizinhança com o bilau de fora. Não sei se é verdade, ela que falou. O bilau de fora também... não sei porque eu nasci sem bilau, mas em compensação”...



A mãe foi rápida e tapou providencialmente a boca da criança, antes que continuasse e dissesse o que não devia.


Quando o sarau familiar se estendia além do previsto, Fatinha era de novo convocada para animar o ponche com pães de queijo, dizendo os nomes das cores do pantone Suvinil. Os convidados se revezavam, escolhendo a esmo um código numérico no leque de 1.563 matizes. Sem titubeio, a menina dizia o nome da tinta. Era um festival de terracotas, verdes maritaca, brancos cordilheira, azuis netuno. Para cada acerto, palmas e mais palmas. Até que alguém falou o código E098, correspondente a vermelho carmim. E a menina: “foi dessa cor que o papai ficou quando pegou a mamãe no sofá da sala com o Tio Ernesto, os dois do mesmo jeito que estava o Seu Arquimedes quando saiu da banheira”.


Constrangimentos assim costumavam, compreensivelmente, esfriar a reunião. Mas nem sempre eram motivo para estragar completamente a festa. Assim, se após a Polonaise de Chopin, tocada pela madrinha da menina, o pessoal continuasse sem arredar pé, o jeito era chamar a Fatinha para outro número imperdível.


Depois de se fazer um pouco de rogada, lá ia nossa entertainer mirim a desfiar, um após outro e quase perdendo o fôlego, os nomes de todos os presidentes e vice-presidentes equatorianos e de suas respectivas esposas, por ordem cronológica de posse.


Se ainda assim os convivas pedissem mais festa, e não tendo mais o que servir para comer ou beber, apelavam de novo para a superdotada Fatinha, desta vez lançando mão de um expediente muitíssimo mais eficaz que a vassoura atrás da porta. Era quando a pequerrucha pegava pesado, ao declamar de cabeça um edital do DETRAN, convocando motoristas para comparecerem à delegacia regional de trânsito, com os nomes em ordem alfabética, modelo do veículo, números da placa e do chassi. Limpava o pigarrinho da garganta e começava: “Marca/Modelo: GM/Chevette/1982. Proprietário: Aarão Fonseca de Sousa, Placa LVG3213/PI, Chassi
9BGLL19BSRB332112. Marca/Modelo Fiat/ Siena/2004; Proprietário:
Abdias Hugo Soares de Brito, Placa LVI5840/PI, Chassi
9BWZZZ30ZKT007813”...


O decoreba agiu como um repelente de moscas. Terminado o serviço Fatinha foi para a cama, não sem antes dar uma lida no catálogo telefônico de Teresina.






© Direitos Reservados



Comentários

  1. Deus me livre uma dessas aqui em casa! Que estrago...rsss...brincadeiras à parte, muito originais seu texto e o fino humor!

    Abraço

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  2. Marco Antonio Rossi12:22 PM

    bom dia e um otimo final de semana.
    Eta menininha porreta......., so faltou decorar quais cidades Judas passou até perder as botas......
    Rossi

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  3. José Carlos Carneiro12:23 PM

    Que superdote! E que mistura saborosa e diversificada de abordagens! Todas excelentes, mas a do Arquimedes foi D+. E o relatado retrata o que a história nos conta. Todo gênio tem seu lado maluco. Valeu mesmo, cara.

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  4. Ainda bem que inventaram a televisão e acabaram-se estas visitas que não vão embora e as performances dos "superdotados" da familia. Cada um fica vendo a Tv em sua casa. Adorei e me diverti muito Marcelo. Abrçs

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  5. Marcelo, a Fatinha é sua filha-invenção mais enciclopédica! Bj

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  6. Ah! Minha infância metida à besta tal qual a Fatinha... levava cada puxão no cabelo quando saia lendo de tudo o que via escrito pelos muros da minha terrinha natal... E, declamar "batatinha quando nasce então"... Um horror! Em um Natal, meu irmão e eu resolvemos fazer um cantata de "gingobel... acabou o papel..." E, cantamos a versão completinha... e, passamos a noite do Natal apanhando e sem papai-noel!! Nenhuma saudade desses prodígios!
    Bj. Célia.

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  7. Ainda bem que não existem mais Fatinhas. Do jeito que as casas andam por dentro, melhor deixar os rebentos no facebook.

    Brincadeiras a parte. Marcelo, não pode pôr a Fatinha lá em Brasília uns dias e depois entregá-la à imprensa?

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  8. Claudete Amaral Bueno11:52 PM

    Essa Fatinha, hein??????Dinamite puro!!!!!!!!! (Perigosa!!!!)  rssssssssssss
    Parabéns!!!!! Êta imaginação!!!!!!!!!!!  Abraços    Bom FDS   Claudete

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  9. Mirze Souza2:54 AM

    Marcelo!

    Um retrato pitoresco e falado das atuais e antigas famílias, depois da ausência do “bobo da corte”. Não acho que esta memina, a Fatinha possa um dia escapar de um bom psicólogo.

    Conheço famílias que usam as (os) prodigiosos meninos e meninas para “animar” festas. Que pena!

    O pitoresco está nos improvisos, que toda criança sabe fazer,

    Excelente!

    Beijos

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  10. Antonio Fonseca2:55 AM

    Cuidado com as crianças! Favor fazer suas travessuras longe delas, pois, CRIANÇAS NÃO MENTEM!
    Marcelo, você foi além…

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  11. Jorge Cortás Sader Filho2:56 AM

    Estou precisando dos bons serviços de uma Fatinha!
    Não digo que você exagerou na dose, porque semana que vem aparece gente muito pior do que a pirralha.
    Abraço, Marcelo.
    Jorge

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  12. Marco Bastos2:57 AM

    Parabéns Marcelo. A tua crônica é ótima. Fatinha é tolerável. Intoleráveis são as tietes de Xuxa, pirralhas com seis ou oito anos, sapatinhos altos, pintadas com batom e usando outras gorduras de galinha, fazendo as ensaiadas macaquices nas festas de crianças ou de adultos.
    um abraço.

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  13. José Hamilton Brito2:58 AM

    Fazer travessuras longe das criânças….nunca existe um longe suficiente. Imagine uma Fatinha destas por perto?

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  14. Por coincidência, o artigo do Blog do Sono de hoje é sobre memória! A Fatinha faz tudo direitinho, decora tudo antes de dormir e seu sono deve ser exemplar! A propósito, a foto do Arquimedes na banheira poderia estar no meu post! Grande abraço, meu grande amigo!

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  15. Zezinha Lins7:04 AM

    Garoto!!!! O que é isso!!!
    Ri demais com a Fatinha.
    Obrigada por nos proporcionar momentos tão divertidos com os seus textos, Marcelo!!! MUITO BOOOOOMMMMM!!!!!!

    Beijos!

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  16. Deus me livre! Sempre detestei criança prodígio. O daqui já me dá bastante trabalho com seu Q.I. na média.

    Mas vá lá que algumas visitam necessitam mesmo de uma Fatinha pra se tocarem e saírem de fininho.

    Um bjo, Marcelo.

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  17. Risomar Fasanaro1:42 PM

    Que beleza, Marcelo! quanto humor…Pois é…memória boa demais nem sempre é um bênção (para os outros.Pode ser até perigoso, para os outros…Origada! Beijo

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  18. Jota Effe Esse1:42 PM

    Concordo com Marco Bastos, mais chato do que a Fatinha, só a Xuxa e suas Xuxetes. Falando em chato, parece que detonaram o Big Bosta Bordel, não tenho visto nenhum anúncio do porcaria ultimamente. Meu abraço.

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  19. Delícia de risadas noturnas domingueiras. Nessa depressão pré-segunda, a Fatinha muito me arribou. e vou lá decorar as receitas da Ofelia.

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  20. Sandra Nogueira12:41 AM

    Marcelo, adorei, morri de rir, você ´bom demais!
    abração

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  21. Gina Soares9:01 AM

    Crianças….
    O grande problema, é que na inocência dizem as maiores verdades… melhor mantê-las distante das conversas dos adultos… rss
    Excelente!!
    Bjs

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  22. Núbia9:02 AM

    “_ Mãe, essa aí não é aquela que você chamou de vaca?”. Essa pérolas as crianças não tiram do nada, elas simplesmente absorvem como esponjas tudo o que se passa a sua volta.
    E o pior, é que elas falam a mais pura verdade.
    Mais um texto descolado e divertido

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  23. Ai, Marcelo, essa Fatinha deve ficar solta por aí... Fará bem ao Piauí, ao Brasil, ao Planeta. Ainda bem que você a apresentou ao mundo.
    Abração

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  24. Mara Narciso12:22 AM

    É a mais do que famosa cultura inútil. Pobre criança, apresentando essa peculiaridade, nunca mais terá sossego, porém, antes dos cinco anos, e já esgotada, dará um basta. É duro ser criança prodígio, ainda mais quando tratada como aberração de circo

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  25. Eliane12:30 AM

    Olá meu amigo!
    Tenho andado um pouco afastada da Net, mas o seu convite é sempre uma honra.
    Adorei o texto!!!
    Sou uma ahnitaf, pois nem o número do meu cel eu sei decorado….rsrs

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  26. Gostei da Crítica, detesto este tipo de pais que detonam a mente de criancinhas, para parecerem mais cultos. São na verdade, curtos! Pobre Fatinha! Beijos.

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  27. Marcelo, eu adoro fazer novas amizades.
    Eu aguardo o seu retorno.

    Seja muito benvindo!

    Bom domingo!

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