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ESTAÇÃO PARADISO







Abre com lua e estrela, a pleno brilho em lugar qualquer. Clima de épico bíblico. Cena 2: panorâmica nos trilhos da linha azul do metrô. O filme dentro do filme dentro do filme. Metrô é espaço de passagem e não de saudosismo, destrói sem dó pessoas, memórias e o que restar de humano na meia dúzia de desolados a esperar na plataforma. Ninguém "é" estando ali, fica-se provisoriamente. Centenas de cópias piratas de DVD do monumento de Tornattore, prontas para serem esmagadas pelo próximo trem. Do jeito que fazem quando a Polícia Federal apreende contêineres de ray-bans falsificados. Travelling lento. Slow. Fusão para mim, dizendo em off algum lamento indecifrável. Uma cópia de cinquenta centavos do Cinema Paradiso não deixa de ser uma irônica continuidade dele. A banalização da permanência, diria o crítico com ar blasé ajeitando os óculos. A saga das películas salvas e guardadas, as âncoras enferrujadas na conversa dos dois na praia, o ancião cego ordenando que o menino vá embora da aldeia e não olhe para trás. A ferrugem da âncora, metáfora. Totó morreu do coração após aquele choro todo vendo as cenas de beijos censuradas pelo padre - imprevisto que não constava no roteiro. Ennio Morricone é outro que pode morrer em paz depois da trilha que fez, ela também nos trilhos agora, esperando a morte vestida de bites. Ninguém quase soube quando há meses um estilhaço de meteorito colidiu com o estacionamento onde fora o Nuovo Cinema Paradiso, que por sua vez era a reconstrução do antigo que pegou fogo. Pegaram fogo o velho cinema e o velho Alfredo, queimados o celulóide e o projecionista. Um dedo de poeira acumulada sobre a ruína da ruína da ruína. Daqui do buraco da estação eu sei que chove lá fora, no pavimento dos autos. É triste, não gosto. Quero de volta o meu ingresso, trazido pelo Totó menino com vestes de coroinha que vem chegando de bicicleta.



© Direitos Reservados

Comentários

  1. Oba Marcelo! Novo lay-out! Aprovado!
    Quantas lembranças queremos de volta! Ah! Onde foi o meu "ingresso" que comprei para entrar na vida? Não foi no "Paradiso", mas me disseram que era no "Paraíso"... Que enganação! E, meus direitos? Afinal, propaganda enganosa!
    Abraço, Célia.

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  2. Sei lá! Li duas vezes, porque gostei e porque precisei. Parei um pouco de escrever esse comentário e voltei a lê-lo. Portanto, eu o li, eu o li, eu o li. Assisti ao teu filme lendo-o. Ganhei o meu bilhete.

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  3. Miriam Sales4:42 PM

    Caro amigo,adorei esse filme.Qualquer amante do cinema jamais o esquecerá.
    E,magistralmente,vc retratou tudo isso. Abç

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  4. Jorge Cortás Sader Filho2:26 AM

    Feliz postagem, Marcelo. De quando em vez, assisto o filme, tenho o DVD.
    É qualidade e arte mesmo, sem trapaças.
    Abraço,
    Jorge

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  5. Carlos Edu Bernardes2:28 AM

    Ótimo, Marcelo!

    Ah, certa vez escrevi sobre esse filme incrível: http://www.ubebr.com.br/post/cronica/por-onde-andara-a-molecada-travessa-por-carlos-edu-bernardes

    Abraços!

    Carlos Edu

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  6. Marco Antonio Rossi2:29 AM

    boa noite e um otimo final de semana.
    Meu amigo, so faltou o dedinho do ET.......
    Rossi

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  7. Olá Marcelo! Enquanto eu lia tentava escapar do rolo compressor que esmaga as memórias (que tenho dentro de mim também) e as piratarias da vida. Já vivi o meu próprio cinema Paradiso, não tinha ingressos, meu pai era o homem da música, ele me apresentou a Enio Morriconi. E é esta magia toda que nos transporta ao tempo, ao nosso tempo de meninos, para podermos participar do cinema, muito antes deles serem destruídos ou maculados. Mas, esta mesma magia, deixou gravadas em algum lugar estas cenas. Eu as tenho recuperado, mesmo que sem parte do encanto, para presentear meu pai. Excelente texto, cheio de particularidades que só você pode decifrar e cheio de pistas para descobrirmos as nossas memórias... Bj

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  8. ah! Ficou bem moderno o novo lay estilo revista! Bom mesmo!

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  9. O filme dentro do filme... ontem assisti " Tão forte, tão perto" e saí com a sensação de que um dos grandes desafios do cinema, além da quase-obrigação em entreter, seria o de nos tornar mais sensíveis às dores e emoções alheias. Pela sua sensibilidade, meus aplausos, parecido com aquele bonequinho do jornal, quando assiste a um filme e recomenda, aplaudindo de pé. Bj, querido!

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  10. em primeiro lugar, meus vivas pelo novo visual do blog, moderno, arejado... e essa lavra inspirada numa obra-prima do cinema, é outro primor... curta, lírica, tocante... viajei...

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  11. Risomar Fasanaro8:31 AM

    Um poema, Marcelo, é o que escreveu. Digno do filme, pra mim o mais terno, o mais lindo que eu, romântica convicta, já assisti. Senti nas entrelinhas do texto suas emoções. Parabéns!

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  12. parabéns pelo novo visual. Adorei o texto romântico e saudosista. "Um dedo de poeira acumulada sobre a ruína da ruína da ruína." Abrçs♥

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  13. Antonio Fonseca11:59 PM

    Ah! Não vou assistir o filme mais… Já me contou tudo. Economizarei o ingresso ou o aluguel do filme. Com sua narrativa, amigo Marcelo, já sei tim tim por tim tim.
    Abraços.

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  14. Gina Soares8:11 AM

    Fica sempre um saudosismo..
    Adoro!!

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  15. Lisette Feijó8:12 AM

    Vale a pena ver o filme…
    Abraço Lisette.

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  16. Durante essa minha longa ausência do blog uma das coisas que mais fiz foi copiar todos os meus CDs para o computador e esta trilha do Cinema Paradiso eu aproveitei para ouvi-la calma e repetidamente. o filme eu não me canso de reassistir. Sua crônica me devolveu esta gostosa nostalgia. Saudade do Alfredo e do Toto.

    Mercelo, obrigado pela visita gentil . Estou de volta - devagar, mas estou. Grande abraço. paz e bem.

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  17. Nubia5:03 PM

    Amo esse filme e sou completamente entregue
    a sua trilha sonora.
    Uma das mais belas obras do cinema italiano.
    Ótimo texto Marcelo.

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  18. Um dos melhores, porque, como você diz, cavoca por dentro e vai descascando a vida em pétalas, uma depois da outra, até nos vermos em essência, a essência dentro da essência, como numa viagem sem fim. Que filme! Que abordagem do filme!
    Abração

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  19. Eu lembro quando foi lançado e quanto gosei deste drama, escrito e dirigido por Giuseppe Tornatore, uma estoria interessante com as lembranças de Toto.

    Muito bom recordar isso.

    beijos

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  20. Mara Narciso2:02 AM

    Faz surgir uma espécie de saudade da saudade. O filme dentro do filme dentro do filme é a introspecção levada às últimas consequências.

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