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A LUNETA

Foto: HBO Voyeur Project



Na embalagem havia um enorme splash, onde se lia: “Montagem fácil e rápida”. Bom, dois dias e duas noites não é tanto tempo assim. O suficiente para encaixar nos lugares certos as lentes, roldanas, parafusos, porcas e cilindros de diferentes calibres e tamanhos.



Custou mas valeu, telescópio e tripé montados. Agora, ao desfrute. Ao merecido desfrute - porque que de ferro, só a luneta. Marca Superrvision, zoom de 1600 vezes, nitidez absoluta.


Primeira parada. Uma enfermeira dando comida na boca de uma velhinha em uma cadeira de rodas. Ai, que estréia mais sem glamour. E a enfermeira era mais velha que a velhinha.


No apê ao lado, uma bruta discussão. O engraçado era ver apenas as bocas se mexendo, os braços gesticulando, os socos na mesa, os rompantes coléricos e não ouvir absolutamente nada. Pastelão de cinema mudo, só faltou torta na cara.


Vamos lá, meu povo, cadê a sem-vergonhice? Duas horas e quinze e nenhuma mulher sem sutiã passando do banheiro para o quarto. Nem uminha. Tá louco, era o caso de devolver pro fabricante. Telescópio que se preze não faz um papel assim.


Três andares acima, um cara solitário no sofá, o nó da gravata meio afrouxado, à frente de uma TV de plasma. A lente é poderosa, dá pra ver a programação que o sujeito está assistindo. A sala escura, ele zapeia. A luz do aparelho refletida em seu rosto se altera a cada mudança de canal. Enfia um dedo no nariz. Que nojo, não volto mais na sua casa, seu sem-educação. Isso são modos?


No quinto andar havia uma loira de tirar o fôlego, há tempos já a observava a olho nu. A vadia não saía do quarto, dando mole pro primeiro telescópio que se habilitasse. Mais que depressa, zoom máximo na dita cuja. Era loira mesmo, e seria perfeita se não fosse um pôster. Duplo azar: além da mulher ser de papel, o quarto com certeza era de macho. Castigo pouco é bobagem.


Na noite seguinte, a caçada continua. Ao mirar no décimo-sexto andar do Edifício Itapuã, sua luneta dá de cara com uma outra luneta apontando exatamente para ele. Sim, tinha certeza que era pra ele. O voyeur do voyeur, a perversão das perversões.


Assim que os olhares telescópicos se cruzaram, tentaram até fingir que não se viram. Uma luneta virou pra esquerda, outra pra direita, como se assobiassem, disfarçando.


Depois de umas dez janelas sem nada de interessante à vista, ele finalmente achou algo com que se entreter. Após um prolongado “Nooooooooooosssa!”, ali parou e ficou. Puxou até uma cadeira pra se acomodar melhor.


- Vai, vai, vai...


Uma voz feminina e muito familiar responde ao seu ouvido:


- Vai o que, Claudinho?


Era a esposa. Ô mulher pé de pluma. Quando deu pela presença, já estava no cangote. Mão na cintura, cobrando esclarecimento.


- Vai? Ah, sim. Vai logo, planeta, aparece logo, planeta...


- Planeta? Até onde eu saiba não tem planeta nenhum desse lado do céu. E mesmo se houvesse, esse prédio enorme aí em frente não ia deixar você ver nada.


- Nossa, é mesmo. Nem tinha reparado.


- Mãos ao alto, seu safado. Não mexe um milímetro nessa porcaria. Deixa eu ver o que você está vendo. Sai daí, sai daí!


Se aquilo era um planeta, só poderia ser Vênus. Um raro espécime do belo sexo, dessa vez de carne e osso, em trajes e poses que, digamos, acusavam claramente não tratar-se de uma freira.


- Sabe como é, testando o foco, querida...

E foi assim que, naquela noite, ele acabou vendo estrelas.










© Direitos Reservados








Comentários

  1. Por essas e outras lunetas é que mantenho meus pés de pluma e boas cortinas em meu apê...
    Bj. Célia.

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  2. uma espiadinha básica no seu blog que, visível pela qualidade literária, faz a alegria deste voyeur das boas letras. [você diria com a luneta: "um boavístico abraço".

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  3. Belvedere Bruno4:59 PM

    Se aquilo era um planeta, só poderia ser Vênus. Um raro espécime do belo sexo, dessa vez de carne e osso, em trajes e poses que, digamos, acusavam claramente não tratar-se de uma freira.

    - Sabe como é, testando o foco, querida…

    E foi assim que, naquela noite, ele acabou vendo estrelas.

    Seus textos são balsâmicos. Obrigada. Vou ler alguns que ainda não li.

    Mil bjs

    Bel

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  4. Mulher mais enxerida, fica aborrecendo pesquisadores de astronomia...

    Abraço,
    Jorge

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  5. Carlos Edu Bernardes1:19 AM

    Muito bom!
    O lance das lunetas se esquivando como se assoviassem disfarçando! Show!


    Ah, saiu outro texto meu lá no A Redação.
    Vamos ver se você adivinha qual é A Palavra antes do final do texto...
    Se deixar comentário, melhor! Guardo todas as páginas com as devidas impressões ali registradas!


    Abração = http://www.aredacao.com.br/artigo.php?noticias=11412

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  6. Claudete Amaral Bueno1:21 AM

    E garanto que nas seguintes também!!!!!!!! kkkkkkk Bem feito!!!!!!!!!
    Bom FDS.... Claudete

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  7. KKKKKKKKKKKKKKKKKK

    Marcelo, fui lendo, rindo e me divertindo com as piads que já fizeram com o meu sobrenome.
    Sempre esclareço que Lavoyerismo é diferente de Voyeur . kkkkkkkkkk
    Abração e bom domingo a todos.

    Rita Lavoyer

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  8. Zezinha Lins12:19 PM

    Marcelo, Marcelo…
    Ainda é cedo e aqui só eu estou acordada, mas se alguém pudesse me ver através de um telescópio desses veria que enquanto lia eu estava com a mão cobrindo os lábios para conter uma rizada.
    Só vou dizer mais uma coisa: seus textos são incríveis, de um humor inteligente impressionante!! A cada semana você consegue se superar.
    Adorei!
    Beijo!!!

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  9. Cristina Siqueira12:20 PM

    Que mulherzinha chata,e que prédio cinza.
    Melhor mesmo é ver estrelas.
    Ótima crônica.Retrato dos tempos urbanos,do procura e não acha mesmo com luneta de hiper alcance.
    Ainda estou em Trancoso,escrevendo cartas,postei no blog http://www.euamotrancoso.blogspot.com passe para uma visitinha.
    Beijos,

    Cris

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  10. Jorge Cortás Sader Filho12:20 PM

    Mulherzinha enxerida! Gosta de atrapalhar a complicada pesquisa astronômica!
    Não é a favor do progresso…

    Abraço,
    Jorge

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  11. Sarita Barros12:23 PM

    Ótima!
    Marcelo... que furada, não? Fiquei até com peninha do salfra!
    abraços,
    Sarita.

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  12. Marco Antonio Rossi12:24 PM

    MEU AMIGO, S,O FALTOU A FOTO DA JANELA DO FLAGRA.............
    BOM FINAL DE SEMANA
    ROSSI

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  13. "E foi assim que, naquela noite, ele acabou vendo estrelas." "..." comigo terminaria em reticências, vc sabe... risos, nossa, que "viagem [de imagens] linda! Marcelo, meus parabéns pela criatividade, cada vez mais acesa em você!!

    Receba um abraço caloroso (ou calorento?) dos ares acreanos, que hoje, chove e venta (quase inacreditável).

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  14. Olá Marcelo, novo layout, ficou ótimo!
    Bem, nem preciso dizer que está ótimo o texto e que ver estrelas assim é meio chato. Eu prefiro me 'encontrar com elas', mas isso é proibido falar neste horário. Achei o máximo o encontro das lunetas que disfarçam e assobiam, essa foi demais!
    Um beijo!

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  15. José Carlos Carneiro8:06 AM

    Quando morava em SP, morava comigo um amigo que noite afora ficava procurando mulheres nuas ou em intimidades amorosas. De vez em quando dizia que tinha encontrado uma. Pelo menos apagava a luz para não me incomodar. Sua ótima crônica me fez lembrá-lo. Tinha o mesmo nome que eu. O final da sua crônica foi nada menos do que espetacular. E dar uma de voyeur com a patroa por perto só podia dar em ver estrelas.
    Um abraço e boa semana.

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  16. Lisette Feijó8:51 AM

    Não ia gostar de ver vizinhos….
    Abraço Lisette.

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  17. Clotilde Fascioni8:52 AM

    Olá Marcelo, infelizmente já não se fazem mais lunetas como antigamente. Abçs♥♥

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  18. Marco Bastos8:53 AM

    Não se desespere o amigo. É melhor ter uma pombinha na mão do que duas voando. Se ela continuar dando voltas em torno do seu telescópio, você ainda não acertou o azimute. Tem na NET a tabelinha de Knaus que diminui o risco.
    abraços e boa sorte.

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  19. Vacilão! É como seria chamado aqui na Bahia.
    Voyer casado tem que ser safo, moço!

    Um bjo, Marcelo!

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  20. Marcelo, isso aí dá um ótimo episódio para qualquer comediante!
    Ri pra Krai!!!
    Excelente repaginada!! Fez-me pensar: cada um pinta um quadro diferente dentro da mesma moldura!
    Abraço!

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  21. Mario Bonzanini8:08 AM

    Quando fui morar em SPaulo no início dos anos 80, a cidade fervilhava de rockinroll, era show em tudo que é canto, e paralelamente havia as “instalações” artísticas. No MASP havia uma bem interessante que remetia ao filme janela indiscreta de Hitchcok: o local era escuro e havia uma escada, você subia e dava num muro de aproximadamente um metro e meio de altura, em cima desse muro uma infinidade de binóculos, e lá na frente depois do muro havia TVs empilhadas imitando as janelas de apartamentos de um prédio residencial e em cada uma passava a história na vida das pessoas, você via isso através do binóculo, nesse momento vc era o James Stuart. È a imagem semelhante da sua crônica.

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  22. Jota Effe Esse8:11 AM

    Bem feito, quem mandou dá mole? Primeiro tem que ver se dona encrenca tá no pedaço, e só então fazer uma varredura na vizinhança a procura daquele mulherão peladinha da silva. Meu abraço.

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  23. Este comentário foi removido pelo autor.

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  24. Antonio Fonseca4:44 AM

    Me lembrei das vezes em que fui pego com a mão na massa. E o pior que minha cara sempre me condenava. Nunca soube mentir. Tenho algumas cicatrizes de beliscões e lesões em encontrões com portas e janelas. Cada uma delas tem uma história erótica no seu bojo. E olha que eu nunca usei lunetas nem telescópios.
    Marcelo, você sempre trazendo-me recordações. Obrigado.

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  25. Mara Narciso4:46 AM

    Adorei esse assombro de inspiração. Delicioso passeio pelos encantos prediais. Em cada parada da luneta, uma risada. Final com direito a riso astronômico. E estelar, ainda por cima. Fico pensando em como as pessoas conseguem ler sem comentar.

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  26. Sissym4:49 AM

    ahah…. nem tudo é tão facil assim!!!!
    Isso me fez lembrar o falecido quando comprou um binoculo para ficar olhando pra fora… eu não perdi meu tempo policiando, porque pau que nasce torto morre torto mesmo.
    Beijos

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