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ENSEBADO



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Troco numa boa mil megastores de livros novos com cybercafés por um sebo mal arrumado e labirintuoso. Daqueles encravados nos centrões das metrópoles, com as paredes caindo aos pedaços como os volumes que abrigam. Até meados dos 80, nos sebos a gente só encontrava livros e revistas. Hoje tem vinis, CDs, fitas de vídeo e até DVDs. Muitos têm brinquedos usados, jogos de tabuleiro, vitrolas. Outros dividem espaço com brechó. Mas sempre sebos, honestos sebos, sem nenhum vendedor chato querendo te empurrar os últimos lançamentos.

O que frequento é muito grande, Pra dar uma espiada rápida em tudo vai pelo menos uma semana. Sério. Como a empreitada é longa, pelo comprido galpão há banquinhos espalhados pro pessoal se acomodar, além de umas duas ou três poltronas. Velhas, com o estofamento puído, mas um oásis pras suas costas depois de algumas horas naquela babel.

Embora o habitué do sebo seja, ou quase sempre aparente ser, muito tímido, nem todos têm o perfil do rato de biblioteca. Há o frequentador funcional, rápido e rasteiro. Esse tipo é pragmático e não gosta de antiguidade, vai lá porque é mais barato, geralmente está atrás de um livro específico pra faculdade ou coisa assim. “Tem? Vou levar. Não tem? Tchau”. Pronto. Sebo nas canelas.

O silêncio impera nos sebos, e isso às vezes é constrangedor. Dá pra escutar a respiração da pessoa na prateleira ao lado. E a consulta aos volumes vai aproximando fisicamente um freguês do outro. Aí a situação fica insustentável, parecida com o “efeito elevador”. Um dos dois acaba cedendo, indo ciscar em outras paragens até o outro desocupar.

Uma vez comprei um livrinho impresso em 1912. O carimbo da livraria, de Campinas, mostrava um número de telefone inacreditável: 27. As ligações, na época, inclusive as locais, eram via telefonista. “Senhorita, por favor, me liga no 36”. Parece morador de prédio falando no interfone com o porteiro.

Imagino a peregrinação daquele volume com o passar dos anos. Pode ter sido dado de presente pra filha mais nova de algum barão do café, que passou pro filho dela, que o doou a uma escola pública, que o emprestou a um aluno, que ficou com ele até vendê-lo ao sebo, em meio a um lote de outros 163 volumes. Quis o destino que estivesse agora aqui, a poucos metros das minhas fuças. E daqui a 100 anos, onde estará?

Não raramente se encontra, como marcador de página, algo devastadoramente íntimo. Veja esse bilhetinho, que veio no meu “Sagarana” de sebo:
“Pedro querido,
Às vezes dizemos besteiras sem pensar. Magoar você é a última coisa que quero nesse mundo. A comida está na geladeira, é só esquentar. Depois conversamos melhor.
Sua esposa, que muito te quer,
Odila Maria”

Odila Maria. Quem será, ou seria? Qual o motivo daquela briga, o que aconteceu e quando? Como era sua vida, a cor dos seus olhos e cabelos, onde morava? A vida lhe deu filhos ou acabou se separando do Pedro pra virar freira? Pode ter morrido tragicamente num acidente de carro, dias depois.

Dedicatórias de Natal, de aniversário, formatura. Páginas com anotações do leitor a lápis, trechos sublinhados. Às vezes umas manchinhas. Goiabada, purê de batatas, misto quente, bobó de camarão?

Na última visita levei 14 vinis. De “Vida Bandida”, do Lobão, até uma coletânea de Ismael Silva. Total de 53 reais. Faz por 50? Faço, claro. Se preferir tem redeshop. É, sebo hoje trabalha com débito automático e cartão de crédito. Mais: há grandes sebos de São Paulo e do Rio com portinha aberta na web. Tudo separado por assunto, descrevendo o estado do livro e ano da edição. E dá pra dar zoom na capa. Você escolhe, compra e entregam em casa.

Mas aí também não tem graça. O legal é banhar-se naquele mar de ácaros e escancarar os pulmões à deliciosa poeira. E foi entre um espirro e outro que pincei um DVD de “As Invasões Bárbaras”, Oscar de filme estrangeiro em 2004. No estojo alguém escreveu, em esferográfica verde: “ L’ Amitié. Notre chanson”. Pesquisei no You Tube. Apareceu uma espécie de clipe em preto e branco, de 1965 e produção rudimentar, onde Françoise Hardy canta “L’Amitié”, uma romântica canção que embala a cena final do filme de Denys Arcand. Acesse e emocione-se. Se for alérgico a ácaros, tudo bem. Pelo menos por enquanto eles não vêm pela internet.




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Comentários

  1. Ensebados, ficamos todos os saudosistas em um passeio por um sebo! Memórias afetivas e indestrutíveis chegam e revivem em nós com sua presença marcante. Navegando no You Tube ouvi a bela chanson française com Françoise Hardy e pude constatar a passagem dos anos em seu rosto... um paralelo do que o tempo faz conosco, instalando-nos nos "brechos da vida"... onde muitos sequer entram e, se passam é bem rapidinho mesmo... e lá ficamos com nossos ácaros de desilusão... Um sebo é isso, asilo dos enjeitados.
    Bj. Célia.

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  2. Do título aos afetos imaginados a partir das dedicatórias amei cada parágrafo. Eu, rata de livraria, fiquei com muita vontade de passar a frequentar um sebo de vez em quando. Texto para guardar, Marcelo! Parabéns e bjs.

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  3. Que texto bonito, carregado de poesia, em meio a ácaros de livros velhos. Quase espirrei! rsrs
    Eu ia a sebos com meu saudoso irmão, quando éramos adolescentes. Lá ele garimpava discos de suas bandas de rock favoritas e tbm encontrou o HQ do Homem Aranha, número 1! Uma raridade que guardou por toda a vida.
    Hoje, pelas dificuldades de tempo e locomoção (e tbm pela rinite crônica), me aventuro pelos sebos virtuais. Sem poesia nenhuma.

    Um grande beijo pra ti, seu moço!

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  4. Sandra Nogueira9:57 AM

    oi Marcelo, mais uma vez viajei no seu texto. Uma vez comprei um livro autobiográfico num sebo do Itaim Bibi em São Paulo e estava autografado para a escritora Cassandra Rios. E você cita o filme “Invasões Bárbaras”, dos mais lindos a que assisti nos últimos tempos.Obrigada, meu bom amigo, pelo convite ao túnel da memória e pelo belo linguajar. Ainda vou ter a alegria de ler um livro seu. Já mudou de idéia?
    um abração
    Sandra

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  5. Nada ensebadas e também destituídas de poesia, assim vão ficando todas as coisas, que mais e mais vão sendo entregues em casa dentro de caixinhas de papelão recicladas. Tudo muito higiênico, vivemos num mundo que mais parece um centro cirúrgico. Lembro bem que Rémy Girard, de "Invasões Bárbaras", busca justamente essa poesia perdida pelo caminho na hora de morrer. Taí, SEBOS S.O.S!
    Abração

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  6. Mario Bonzanini12:31 PM

    Olá Marcelo,

    Sem misturar alhos com bugalhos tire seu possante da garagem e dirija-se até o Viracopos que um Embraer da Cia Azul o levará em 50 minutos até a http://www.betadeaquarius.com.br/ no rio de janeiro, mais precisamente no flamengo. Em frente a este mágico lugar vc poderá se deliciar com os bolinhos de bacalhau fritos na hora enqto folheia seu novo livro adquirido nesse sebo. Saber é divulgar, passe pra frente essa msg. Mario.

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  7. Roberto Galian12:32 PM

    Muito bom.
    de quebra um presentinho.
    http://abduzeedo.com/beatles-collection

    abs

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  8. Carlos Edu Bernardes12:35 PM

    excelente!
    pena que aqui em GO os bons sebos que haviam minguaram, provavelmente devido ao Mercado Livre...
    que saudade daqueles sebos onde eu achava gibis antigos e coisas incríveis dos Beatles!

    porém, acho que encontrei a Odila! = https://www.facebook.com/profile.php?id=100000269500945

    Abração!

    (~()

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  9. Belvedere Bruno12:37 PM

    Ai, só vc pra me fazer rir, Marcelo!!!!!!!!!!!! Valeu! LI várias!
    Bjs
    Recomendei no face tb

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  10. Marco Antonio Rossi12:39 PM

    bom final de semana, desejando que todas AS MÃES sejam felizes.
    quanto ao texto, seria bom que todosebo tivesse um mercadinho e uma farmacia para comprade anti alergico e inseticida.....o pozino sufocante......
    abraço
    Rossi

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  11. José Adriano Neves12:41 PM

    Como sempre muuuuuuuito bom mesmo. O Sebo é meio como a vida da gente né? .


    Parabéns pelo texto


    abs

    Adriano

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  12. José Carlos Carneiro12:42 PM

    Últimas - veja bem - mais recentemente escritas.

    Ensebado

    Descrição ótima. É como se a gente estivesse dentro de um deles, vivenciando o que lá se passa. Isso sem falar das tiradas que você acrescenta no momento oportuno.

    Análises cínicas

    Que espírito sádico! Mas, tendo em vista os motivos alegados com bases realistas, não lhe será imputado qualquer crime. Nem visitará o Purgatório, muito menos o Orco.

    Estação paradiso.

    Serve de roteiro para uma produção inovadora, principalmente se filmada em branco e preto. E continuo me questionando: Por que não tenho tal poço de idéias? Acho que me falta uma musa na qual me inspirar.

    Um abraço e ótimo fim de semana.

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  13. José Claudio - Cacá12:45 PM

    Que maravilha, Marcelo. Meu sonho ainda é ter um sebo. Além de todas essas maravilhas que você citou é um comércio que não se tem notícias (pelo menos eu) de que foi alvo de ataques de assaltantes.
    Meu pesar, no entanto é com um autor que descobri outro dia ser meu conterrâneo (Horácio Carvalho), considerado naturalista e que escreveu um livro chamado O CROMO. Já vasculhei nos sebos de BH e na internet e não oconsegui .A obra é mais ou menos do fim do sec XIX – iníciodo XX.
    Abração, meu caro e ótimo final de semana.

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  14. Miriam Sales2:33 PM

    Amigo, sou da tribo.Vidrada em sebos.Aqui temos o Brandão onde n/ há o q/ não haja.
    Descobri maravilhas.
    Tb sou cliente assídua da Estante Virtual,mas,ai não tem graça.Sem ácaros,sem cheiro de suor,sem a expectativa da descoberta.Sem dedicatórias,ah,as dedicatórias!
    Só elas dariam um compêndio de costumes!E as caligrafias antigas,tão lindas,tão rebuscadas; envergonho-me das minhas garatujas,fruto do teclado e da ausência da caneta.
    A empolgação quase me fez esquecer de dizer o mais importante.
    Que maravilha de crônica ,Marcelo!

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  15. Marcelo viajei nas suas prateleiras e nas histórias ensebadas... anotações em romances são muito sugestivos, mesmo!!
    Adorei, querido!!

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  16. Marcelo adorei, me deu até rinite tanto pó aspirei lendo a sua coluna.
    Abração meu amigo.♥☼♥

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  17. Olá, Marcelo! Tive que recorrer ao You tube para encontrar e Françoise Hardy em L'Amitié, canção muito linda. Olha só! Até os blogs andam dando notícias dos sebos e dando vida aos esquecidos. Que maravilha essa condição que a virtualidade nos proporciona, resgatar o passado do passado. Nada como a modernidade, né!
    Abraço, Rita

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  18. Claudete Amaral11:55 PM

    Marcelo: Posso falar uma coisa? Pagar c/ cartão de crédito é melhor! rssss

    Valeu a peregrinação!!!! Gostei muito do Ensebado!!!!! Mesmo pq, nunca encontrei um (a m/ cidade n/ tem), mas tenho
    a certeza de que me deliciaria c/ a poeira, os ácaros, o silêncio, as respirações....e tudo o mais...

    E, se ainda encontrasse o que procuro???????? Nossa!!!! Seria a Glória!

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  19. Jorge Cortás Sader Filho11:57 PM

    Não sou chegado.
    Preconceito com velharias? Talvez…
    Com sorte, encontramos muitas obras ‘difíceis’ nos sebos. São pouco mais caras, e sem poeira.
    Marcelo descreveu o sebo e o frequentador como se estivesse filmando tudo, tal a veracidade que sentimos lendo o texto. Quem é bom, sabe!
    Abraço, amigo.
    Jorge

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  20. Este comentário foi removido pelo autor.

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  21. Jota Effe Esse7:05 AM

    Marcelo, adorei o texto de hoje, mas infelizmente não vou poder usufruir das vantagens que o sebo oferece, porque, além de superalégico aos malditos ácaros não compro nada pela Ineternet. Mas digo aos seus leitores que não há coisa mellhor do que fazer um passeio pela cultura que os sebos oferecem, sim, porque sebo também é cultura! Meu abraço.

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  22. Marcelo, assim como você, não troco as poderosas pelo velho e bom sebo. Eu me acostumei aí no centro de Campinas, e ainda hoje, de vez em quando, quando a vida me deixa a ponto de explodir, eu fujo para passear em um deles. Adoro me perder em histórias e desde os tempos de Ouro Preto, tenho mania de sentir vibrações e ficar imaginando as cenas que os objetos presenciaram, suas histórias e sabe, eles me contam muito do que viveram...
    Assim como JFS, também sofro com ácaros, mas fiz curso de festauração. Tenho alguns exemplares de mil oitocentos e bolinha que tenho que abrir com máscara. Adoro tudo isso! Este post é especial para mim, pois vejo que existem mais pessoas, que como eu, veem no passado uma fonte de imaginação... Um beijo!

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  23. Marcelo, viajando nas suas gostosas linhas ensebadas, deu vontade de atravessar a rua e buscar entre as coisas que deixei na casa da minha mãe, o vinil do Lobão, aquele em que a prima que era sua mulher aparece de peito nu ao lado do cantor vestido de padre.

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  24. Eliana5:51 AM

    Que crônica linda Marcelo! Gosto tanto quando você escreve sem muitas ideias alucinógenas (rs). Sabe aquelas suas divagações que a gente não sabe se são reais ou não?! Prefiro estas reais e de tão reais quase consegui enxergar o seu sebo. Também sou fã deles. Pena que em Indaiatuba não vira. Tudo que lançaram por aqui, fechou. Mas em S.P. adorava ir em um na Rua Nestor Pestana que misturava livros e objetos antigos. Lindo! Mas isso foi há muitos, muitos anos…
    Parabéns!
    Eliana

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  25. Jorge Domingos de Freitas5:53 AM

    Ê , rapaz...isso é uma reliquia...
    Tenho um receiver e um pick-up ,para converter LP em CD...
    abç
    Jorge

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  26. Gina Soares2:44 AM

    Nossa, Marcelo!
    Adoro sebos, antiquários… adoro ver coisas antigas, sempre me trazem lembranças muito gostosas..
    Graças a D’us não sou alérgica, e posso vasculhar tudo….
    Adorei.. vou ouvir a música sugerida, mais tarde!
    Obrigada!

    ResponderExcluir
  27. Antonio Fonseca2:45 AM

    Aposto que seus leitores vão pensar que estou inventando, mas quase todas suas crônicas se aplicam em fatos vivenciados por mim. Sou fã de sebos. Nunca chego em casa só com o procurado. Ele vem sempre acompanhado de outro/s livros interessantes. Nãoé que num deles também tinha um bilhete! E um bilhete safado. Um tal Roberto marcava um encontro com Júlia às 6 da tarde atrás de uma moita de bambús. Aí fica a pergunta: será que rolou?
    Abraços.

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  28. Marcelo, mais uma vez tenho que te elogiar.
    Descrição e impressões absolutamente perfeitas. Você conseguiu no texto passar o cheiro do ambiente mofado e rico em ácaros que estamos acostumados a ali respirar. Sem mais palavras.
    Saúde!!!

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  29. "Ensebado"chegou aqui através de duas coisas que mexem comigo de forma profunda rsrs: minha paixão por livros inclusive os antigos e minha terrível alergia ao ácaro. Adorei o texto, consegui me embenhar num sebo sem espirrar, nem tossir sem parar.
    Bjos, Marcelo!

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  30. Mara Narciso4:11 PM

    A minha mãe tinha fobia de bactérias e nos contava histórias dos habitantes dos leprosários quando não havia tratamento para a hanseníase. Por total falta de que fazer, os doentes enviavam pelo correios cartas impregnadas de bacilos, pedindo ajuda. Então eu aprendi a temer objetos usados. Com a minha asma, seria difícil chegar perto dos ácaros. Nessa parte foi impossível não dar risada. Passear no sebo (nas canelas) foi um deleite. Parabéns, Marcelo! Nota dez!

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  31. Adriana Ferreira4:13 PM

    Parabéns pelo artigo, uma delícia de ler.

    Realmente um dos prazeres da vida (não para muitos) é frequentar um sebo, ler o conteúdo do livro e tentar imaginar a história dele enquanto objeto. Aspirar o cheiro peculiar destes lugares e "viajar" para outros.

    Abraços

    Adriana

    ResponderExcluir
  32. Ah! gosto muito de procurar velharias...quer dizer, antiguidades em sebos. O ano passado encontrei Metais em Brasa, H,Jerome que eu nao via há muiito tempo. Tambem um lp dos Velhinhos Transviados....trans, eu disse.
    Aqui em Araçatuba tem Lan house, estilingue, arapucas....
    Parabéns pelo texto.

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  33. Jorge Xerxes3:11 AM

    Marcelo,

    Um Ótimo Texto!

    "Quis o destino que estivesse agora aqui, a poucos metros das minhas fuças. E daqui a 100 anos, onde estará?"

    Meus Parabéns e Um Grande Abraço, Jorge

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  34. Clarice Villac3:33 AM

    Crônica encantadora !
    Parabéns !

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  35. Eliana Mattos1:14 AM

    Novamente eu falando sobre essa sua linda crônica. Levei-a para ler na reunião da Sociedade dos Escritores de Indaiatuba, que já te falei que faço parte. O nome é pomposo demais, mas é apenas uma reunião aos domingos, de pessoas que gostam principalmente de ler. Já houve tempo em que tinhamos mais de 20 membros. Hoje não passam de quatro. Mas deixa pra lá. O importante é te contar que todos adoraram sua crônica e o Penna, um dos fundadores junto comigo da SEI, disse assim: “esse cara tinha que estar escrevendo na Vejinha”. Parabéns novamente Marcelo!
    Eliana

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