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REVANCHE DOS SUICIDAS





Assis Valente, aquele gênio nem sempre lembrado da MPB, era o ídolo e a inspiração deles. Tinha um quadro em lugar de destaque na sede da associação, da qual era patrono oficial.

Para quem não sabe, Assis Valente tentou suicídio em 1941, saltando do morro do Corcovado. Na queda, quicou na copa de uma árvore, frondosa o suficiente para amortecê-lo e livrá-lo do sono eterno. O ex-futuro morto teve que administrar o próprio chabu, que rendeu-lhe não mais que umas costelas quebradas. Foi um caso único no até então 100% fatal cartão postal do Rio. Não bastasse ser uma figura conhecida na cena carioca de sua época, ganhou as páginas dos jornais no dia seguinte como o único sujeito a escapar da morte pulando do famoso morro. Viveu mais algum tempo, o suficiente para legar à humanidade mais algumas dezenas de obras-primas. Após nova empreitada cortando os pulsos, igualmente fracassada, partiu para a terceira tentativa em 1958 - esta certeira, ao pôr do sol na Praia do Russel, se contorcendo sob o efeito de um gole de guaraná batizado com formicida.

Como o autor de "Camisa Listada", aqueles homens, ali reunidos, carregavam o infortúnio de terem tentado e não conseguido dar fim à existência. Dividiam o peso da humilhação suprema: retornar do gesto abominável com o rabo entre as pernas. Situação constrangedora. Não bastasse o fracasso na vida, tinham fracassado também na morte.

Era vergonha demais, precisavam lavar a desonra com sangue, mostrando aos amigos e parentes que não mudaram de ideia e não se acovardaram. Longe disso: eram duplamente corajosos para buscarem, outra vez, o tão sonhado paletó de madeira.

Naquela assembleia ordinária, deliberaram um revide à altura. E bota altura nisso: os 324 metros da Torre Eiffel. Partiriam em excursão para Paris, os 21 frustrados suicidas, e saltariam de algum ponto menos vigiado do monumento em 3 grupos de 7 - de mãos dadas e no melhor estilo "um, dois, três e já!". Só não teriam muito tempo para ensaiar a coreografia macabra, sob risco de descobrirem e interceptarem o seu intento com o ostensivo esquema de segurança da torre.

Seria o primeiro suicídio sincronizado da história. Os saltos seriam filmados pelo guia turístico do grupo, também simpatizante da prática suicida mas ainda não suficientemente apto à derradeira atitude. A este caberia, ao fim do espetáculo, entregar a filmagem à imprensa, bem como os 21 envelopes com as últimas palavras dos herois aos remanescentes da raça humana.

Porém, o destino foi de novo caprichoso. Ao se afastar andando para trás, procurando um melhor ângulo para a foto, o guia acabou despencando sem querer, antes dos 21. Pronto: soou a sirene, a polícia foi acionada e a turma toda convocada para interrogatório, no inquérito para apurar a causa do acidente. Ficou adiada a revanche, e com ela a lavagem da honra.

© Direitos Reservados



Em tempo: já que falamos dele, fica a dica para conhecerem a fantástica obra de Assis Valente. Um legado que vai muito além do "Brasil Pandeiro", sua música mais executada. Grande Assis. Imortal, ainda que suicida.

Comentários

  1. Tragicomédia das boas... Escolham e sirvam-se da incompetência humana! Aplausos, ainda que frustrados ou frustrantes?
    Abraço, Célia.

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  2. O que mais gosto em ler você é a minha tentativa de acompanhar seu pensamento! Amei!! Vida aos futuros mortos!

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  3. Tô gostando bastante desse novo tipo de texto, "tipo" realidade.
    Despeje aí toda sua bagagem!
    Quanto ao Assis Valente, caso ele soubesse que seria imortal, talvez conseguisse "de prima"!
    Até sumana!

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  4. Zezinha Lins10:56 AM

    Bom Dia , Marcelo!.
    Sempre achei o horror dos horrores esta história de suicídio, acho que é um ato de covardia, pois enfrentar a vida é um ato de coragem, e adoro ser corajosa assim ao extremo, pois adoro viver. Só nunca imaginei que seria tão divertido ler um texto sobre esse assunto, mas vindo de você, meu amigo, nada mais me surpreende.
    Escute o som das palmas… De pé: BRAVO!!!
    Um lindo sábado pra você!
    Bjo!

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  5. Clotilde Fascioni10:57 AM

    Bom dia, Marcelo!
    O assunto é por demais perigoso, já que para um suicida em potencial basta um “empurrãozinho”, mas o texto é muito divertido mesmo. Adorei! Abçs♥

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  6. Jorge Cortás Sader Filho10:58 AM

    Não conhecia estas histórias. Nenhuma delas.
    De Assis Valente só a “Vestiu uma camisa listrada e saiu por aí…” Quem interpreta muito bem é a Maria Bethânia.
    Tá sério hoje, Marcelo!
    Abraço.
    Jorge

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  7. Mara Narciso11:01 AM

    Na nossa cultura ocidental vivemos como se a morte não existisse e quando tocamos no tema somos convidados a nos calar. Parabéns a Marcelo Pirajá Sguassábia que não só falou na morte, mas nela e no suicídio com uma graça séria, se é que isso é possível. Bom demais!"

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  8. Marco Antonio Rossi11:02 AM

    Bom dia e um otimo final de semana.
    Bela lembrança, parabéns!

    Hoje eles ja podem tentar a nova torre japonesa....................
    Rossi

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  9. Evelyne Furtado11:03 AM

    Desenvolver um texto com humor sobre um tema tão delicado e mesmo evitado, como disse Mara Narciso, requer maestria. Em você sobra, Marcelo Pirajá Sguassábia. Ainda ficou a dica para melhor conhecer um pouquinho Assis Valente.Sei lá o que desejar a esse grupo, sucesso é que não, rsrs. A você todo. Bjs"

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  10. José Cláudio - Cacá3:34 PM

    Tudo o que abunda ou falta em demasia é terrível. Inteligência demais perturba o sujeito e estupidez enorme também atravanca a vida de um infeliz.
    No caso dele, acho que foi excesso de genialidade mal gerida, sei lá.
    O texto é que está genial. Um viva!
    Abração, Marcelo. paz e bem.

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  11. Belvedere Bruno3:35 PM

    Muuito boa, Marcelo!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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  12. Claudete Amaral Bueno3:36 PM

    Gostei demais!!!! Mto bem bolado!!!!!!! (como sempre, aliás!)......
    Um abraço!
    Claudete

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  13. José Carlos Carneiro3:37 PM

    Eu não sabia sobre esse lado trágico da vida dele. Na verdade pouco sabia da sua história. Você trouxe à tona, em forma de homenagem, o reconhecimento pelo trabalho dele no mundo da música.
    Abraço.

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  14. Leda Valéria Suppa Basile3:42 PM

    Ótima crônica!

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  15. De que mal sofrem esses gênios? apaixonados pela Dona Morte, fazem de tudo para apressar o tal encontro com ela! Vai entender...

    Um ótimo texto, Marcelo, trazendo história e humor pra gente pensar.

    bjo

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  16. Este comentário foi removido pelo autor.

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  17. Perdoe-me, Marcelo, mas nem conhecia esse Assis Valente. Obrigada por apresentá-lo nesta tua crônia!
    Cortar um dedo é pra lá de horrivel.
    Cometer suicído é ato de coragem, aff!
    Vai ver o Assis da questão queria fazer jus ao sobrenome "Valente" afinal de contas, morrer, para alguns, acaba sendo muito mais fácil do que viver.
    Vai entender a valentia dos outros!

    Obrigada por mais esta!

    Abração

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  18. Fernando Dezena7:43 AM

    Muito bom, Marcelo!

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  19. Djanira Pio1:06 PM

    Obrigada Marcelo, achei bem interessante, gostei.
    Abraços, Djanira.

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  20. Jota Effe Esse1:07 PM

    Sem a menor dúvida, Marcelo, Assis Valente foi um dos suicidas mais imortais que conheci. E a música dele que mais gosto é Camisa Listada. Quanto à revanche, esperemos uma oportunidade, o brasileiro não desiste nunca! Meu abraço.

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  21. Gina Soares5:18 PM

    Não conhecia o fato…. essas situações sempre me chocam, apesar do texto ser excelente!!!
    bjss

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  22. Carlos Edu Bernardes5:19 PM

    Muito bom!

    (~()
    .

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  23. Miriam Sales8:38 AM

    Conheço o melhor do Assis,suas músicas maravilhosas,nunca reconhecidas como deveriam ser.
    O Brasil esnoba seus gênios e a inteligência,para os naturais deste país,é uma tremenda carga a ser carregada.
    O velho Ruy já dizia:” De tanto ver triunfar as nulidades…”
    Agora,o suicídio nunca me seduziu;amo a vida demais.Porém,não condeno quem queira dirigir a rota da sua própria vida sem o consentimento do Altíssimo.Ou,como o Gringo Velho,do Carlos Fuentes,decidir como será seu fim.
    Abração

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  24. Olá Marcelo! Tragicômico desfecho e eu acabei me lembrando dele "Por causa de você". Mas que esta turma de "Camisa Listrada" "Fez Bobagem" é fato! Vai ver que ele estava brincando de "Cai cai balão"... Dizem que "Tem Francesa no Morro" e o nome dela é "Janette", pra quem ele buscava "O vento e a rosa"... Não deu... "O mundo não se acabou", não era a hora dele e deles... "Lamento"! Agora, 'chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor'...
    Adorei a homenagem, seu texto, adorei relembrar dos tempos em que eu dava aulas de história da música e estudava no conservatório... Um beijo!

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  25. Edir Araújo11:47 PM

    Olá Marcelo. Excelente texto sobre Assis Valente, este magnífico compositor. Foi interpretado também por grandes vozes da época como Orlando Silva, Altamiro Carrilho e muitos outros. “Tem Francesa No Morro”, foi um dos grandes sucessos gravado por Aracy Cortes.
    Foi um poeta, e como tal, não temia a morte. Foi encontrado no seu bolso seu último verso; "Vou parar de escrever, pois estou chorando de saudade de todos, e de tudo." Pois é, meu amigo... isso me fez lembrar uma citação do poeta José Félix; “O poeta nunca vive. Morre aos pedaços.”
    Edir Araujo - poeta e escritor independente... Forte Abraço !

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  26. Não vejo no suicídio um ato de coragem
    mas, de alguém que não sabe lidar com a vida que leva ou com aquilo que não pode mudar.
    Que essa revanche não logre sucesso.
    Abraços

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  27. Lisette Feijó11:48 PM

    Cada um com sua criatividade…
    Abraço Lisette.

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  28. Antônio Fonseca11:49 PM

    É. O meu tio Miguel, como o Assis Valente, também passou a cultivar o suicídio depois que a tia Edith morreu. Nas oito tentativas foi salvo por pessoas próximas. Depois passou dez anos sem nenhuma tentativa. Era a estratégia para que todos pensassem que ele tinha desistido. Depois encontraram-no dependurado em uma árvore com a língua pra fora. Foi enterrado vestido com uma camisa listrada.

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  29. uma história cheia de comicidade e tragédia e ainda nos traz a referência a um artista do underground. conheço pouco da vida dele e vou googlar sobre. abs

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  30. Bela homenagem, Marcelo, apesar de conhecer bem pouco do Assis Valente. Pelo jeito, valente ao tratar da vida, mas nem tanto na hora de morrer, né?

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