Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de Junho, 2012

NO CENTER DO SHOPPING

Meus irmãos, as negociações da venda da fazenda para a construção do shopping entraram num impasse sem solução à vista. Ainda que a gente tenha metade da propriedade, o pai é dono dos outros 50%, e pra complicar ele ainda tem o usufruto da casa-sede.

O velho continua batendo o pé dizendo que não sai da casa de jeito nenhum, mesmo que tenha que desviar da fila do Mc Donald’s pra tirar leite das vacas.

Tentei argumentar dizendo que ele não iria aguentar a muvuca, o trânsito de carros pra cima e pra baixo, o barulho... O pai me respondeu aos berros, falando que o bisa, o vô, ele, nós e os nossos filhos nascemos todos naquela casa - e que ele, pelo menos, só saía de lá pro campo santo. Bateu a porta e se trancou no escritório, onde nos últimos tempos passa horas lustrando a cartucheira.

E o pior é que não tem jeito. Dentro da fazenda, a topografia ideal pra construir o shopping é bem na área onde está a casa. Além disso, mesmo se houvesse outro ponto pra fazer a obra, não daria visibilida…

31 DE DEZEMBRO DE 1999 (EPISÓDIO QUASE AUTOBIOGRÁFICO)

Imagem: superdownloads.com.br 


Um dia de outono de 1981, último ano do colégio. Estava sentado na minha carteira, fingindo que não prestava atenção no pacto que ali, ao meu lado, se selava. Lá na frente, o professor de matemática falava para as paredes.

- Fica combinado, então. Nós cinco.
- Aconteça o que acontecer, tem que estar todo mundo lá.
- Tá tão longe isso, gente. Esse dia não vai chegar nunca, vocês não se tocam, não? Tanta coisa mais importante pra pensar... o vestibular, a faculdade. E depois tem outra, a gente vai continuar junto.
- Quem garante? Tudo pode mudar, de uma hora pra outra. Mais cedo ou mais tarde, vai cada um pra um canto.
- Tudo bem, só que até lá estaremos no século 21. De onde a gente estiver, vai bastar apertar um botãozinho e fazer o teletransporte para a pracinha. Tranquilo, pessoal.
- E se eu já tiver casado, com um monte de filhos...
- Não, não. Tem que vir sozinho.
- É, nada de família junto. Só a gente mesmo, esposa não é da turma.
- Que jeito, meu? Q…

PEQUENO STEVE

Ilustração: Thiago Cayres

Eram sempre graúdas, doces, se possível geladinhas. Tenras maçãs desde tenra idade. - Incrível, Steve. Você nunca esquece. Um dia sem suas maçãs na minha mesa e meu ânimo não seria mais o mesmo. Mal devoro uma e já fico à espera da atualização. - Que bom, professora. Acredito que toda pessoa precisa deixar sua marca no mundo, de alguma forma. Visível, presente. Garanto que esse pequeno gesto fará com que a senhora jamais esqueça de mim, ainda que a partir do semestre que vem nós nunca mais nos vejamos na vida. - Você parece tão adulto e assertivo. Às vezes você me assusta, garoto. Mas é ao mesmo tempo tão infantil a ponto de não fazer nunca a lição de casa, e sinto que você faz isso – ou não faz isso - de caso pensado. - Resposta certa, teacher. É que o caderno branco me parece perfeito. Gosto do branco, da coisa clean. - Percebo que, enquanto estou lá na frente explicando a matéria, muitas vezes você fica o tempo todo olhando para as janelas... - A professora não p…

O CESSAR DAS SESSÕES

Foto: Museu Freud, Londres.


Fiz análise durante um certo tempo, por motivo que não vem ao caso expor aqui. Esse certo tempo na verdade não chegou a 3 meses, o suficiente para que eu me desse alta – embora estivesse pior que no início das sessões. Bem pior, descrente da panacéia freudiana e de mim mesmo, me achando um caso perdido.

Era uma sessão semanal, às sextas e após o trabalho. Rua tranquila, lugar gostoso, consultório aconchegante. A iluminação indireta, só um abajur com uma lâmpada fraquinha. Sentia-me confortável com o chenile do divã e com a perspectiva de 50 longos minutos para um trato nos miolos. O único problema era justamente esse – os tais 50 minutos cravados eram longos demais. O que para os outros pacientes passava voando, para mim parecia todo o período paleozóico.

O analista seguia a linha ortodoxa, freudiano até a medula. E como todo discípulo empedernido do velho Sigmund, se agarrava aos sonhos, lapsos e associações livres pra ir formando o quebra-cabeças. Nesse ca…

A PRIMEIRA MAQUETE

- Eu quero que você me faça só a maquete, por enquanto.

- Tá certo, mas o senhor tem ideia do trabalho que isso vai dar? E se o projeto não for aprovado, já imaginou o tempo que eu vou perder? Meu negócio é carpintaria e marcenaria, essa história de maquete é servicinho de chinês, não é a minha praia.

- Mas não vai ter jeito, moço.  Quem encomendou o trabalho quer ter uma prévia pra ver se está tudo de acordo. Esse serviço é de muita responsabilidade. Eu diria até que o destino da humanidade depende dele.

- Sei não, acho que o senhor não regula bem da cabeça.

- Digamos que a minha sanidade mental não vem ao caso no momento...

- Mas espera um pouco, o que o senhor quer é uma arca ou um navio? Esse desenho que o senhor me trouxe parece mais um navio. Arca é como se fosse um baú, é pra organizar as tralhas dentro de casa. Ó só, tá aqui no pai dos burros: “Arca: caixa grande, geralmente de madeira, com tampa plana, usada para guardar roupas, objetos etc.”. Por falar em burro, tenho que faz…