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31 DE DEZEMBRO DE 1999 (EPISÓDIO QUASE AUTOBIOGRÁFICO)



Imagem: superdownloads.com.br 



Um dia de outono de 1981, último ano do colégio. Estava sentado na minha carteira, fingindo que não prestava atenção no pacto que ali, ao meu lado, se selava. Lá na frente, o professor de matemática falava para as paredes.

- Fica combinado, então. Nós cinco.
- Aconteça o que acontecer, tem que estar todo mundo lá.
- Tá tão longe isso, gente. Esse dia não vai chegar nunca, vocês não se tocam, não? Tanta coisa mais importante pra pensar... o vestibular, a faculdade. E depois tem outra, a gente vai continuar junto.
- Quem garante? Tudo pode mudar, de uma hora pra outra. Mais cedo ou mais tarde, vai cada um pra um canto.
- Tudo bem, só que até lá estaremos no século 21. De onde a gente estiver, vai bastar apertar um botãozinho e fazer o teletransporte para a pracinha. Tranquilo, pessoal.
- E se eu já tiver casado, com um monte de filhos...
- Não, não. Tem que vir sozinho.
- É, nada de família junto. Só a gente mesmo, esposa não é da turma.
- Que jeito, meu? Que mulher vai aceitar que você passe a virada do milênio com quatro barbados ao invés de ficar com a família? E quatro barbados carecas, porque até lá...
- Bom, por mim, tá feito.
- Eu também topo. Pode redigir uma ata e botar meu nome que eu assino.

Eles cinco, a panelinha inseparável, estavam tramando de se encontrarem à meia noite do dia 31 de dezembro de 1999, na praça do coreto. Passagem de ano, de década, de século e de milênio (não exatamente de século e de milênio, mas a data era emblemática). Dezenove anos depois. Eu não conseguia imaginar aquele reencontro. Era amigo dos cinco, mas não era exatamente da turma. Tanto que eles não me incluíram no pacto.


(Coloque aí na sua telinha um efeito especial de passagem de tempo. Velhas casas de família viram prédios. Os Corcéis, Opalas e Brasílias agora são Vectras, Fiestas e Golfs. A imagem em sépia fica colorida. E aparece aquele texto bem manjado no rodapé do vídeo: “19 anos depois”...)

Por nada nesse mundo eu poderia perder aquela cena. Queria assistir de longe, ver sem ser visto, estava de bicão naquela festa privê. Depois do encontro me juntaria a eles. A hora da virada chegou e me pegou sozinho ali na praça. Meia noite, nada. Meia noite e meia, nada. Ninguém apareceu. Só eu, a testemunha intrometida, o que não era pra estar lá. Decidi ficar mais uns cinco minutos, até dar uma da manhã e ter certeza de que não apareceria mesmo ninguém. Era horário de verão. Será que estava valendo o horário antigo? Se fosse assim a coisa tinha acontecido às onze da noite e talvez já tivessem ido embora. Foi quando surgiu um rapazinho, de jeans e camiseta branca, meio ofegante. Sentou-se num dos bancos, olhou para os lados, consultou o relógio, esperou. Os cabelos longos e lisos, os olhos amendoados, as pernas finas. Claro, era o Tavito. Em qualquer lugar do mundo o reconheceria.

Saí do meu posto de observação e fui até ele.
- Tavito!
-
Não era possível, o tempo não tinha passado pra ele. A mesma cara, nenhuma ruga, nenhum cabelo branco. O Tavito me olhava com um jeito de quem não estava entendendo nada.
- Sou o filho dele. Meu pai morreu quando eu era criança. Deixou uma carta lacrada, que só deveria ser aberta ontem, dizendo que tinha um encontro marcado com seus melhores amigos hoje à meia noite, aqui nesta praça. Se por algum motivo ele não pudesse vir, eu deveria representá-lo. O senhor deve ser um deles...

Logo ele, o Tavito. Dos cinco, o mais descrente do pacto. O único a honrá-lo, mesmo morto.

- E os outros três, já foram?

Sentei ao seu lado e expliquei a história e minha condição de testemunha. Depois ficamos ali, madrugada adentro, à espera dos quatro ausentes. Uns fogos estouravam ao longe, carros passavam pela pracinha buzinando, grupos de branco iam em direção ao clube. Falei da linha do trem, que antes dele nascer cortava a cidade de fora a fora. Comentei como o pai dele era bom de natação, os campeonatos que ganhou, o sucesso que fazia com a mulherada. Os porres que tomamos, os aventais brancos que vestíamos na escola. Ele me contou do acidente de avião, do trauma da perda, do segundo casamento da mãe. Eu escutava, mas não ouvia. Divagava, vendo em sua boca os lábios do pai dele me sussurrando as respostas da prova de biologia.



© Direitos Reservados


Comentários

  1. Anônimo4:55 AM

    Excelente texto Marcelo. Você sabe como poucos contar uma boa história. Espero em breve ler um livro de sua autoria, uma coletânea de textos já escritos me faria feliz. Pirajá no Submarino ou na banca de jornal. Aguardo até vinte e cinco anos, ou um quarto de século para ter o meu pedido atendido. Abraços e boa semana!

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  2. É o tempo é cruel mesmo... traz, leva, separa, distancia sem nos perguntar se queremos ou não... não importa a data, pois o tempo dele é bem outro. O agora já é ontem e será o amanhã em nossos projetos mentais... nem sempre concretizáveis!
    Abraço, Célia.

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  3. Que lindo texto Marcelo.
    Interessante que me deu uma sensação de saudade e nostalgia,
    talvez pelo estilo que usou.
    Me transportei para o banco da praça ao seu lado...
    Abrçs

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  4. Que pena que ou quatro não apareceram, fiquei lendo interessada pra saber o final da história. Bom demais!!!! Parabéns, Marcelo. Tive a impressão que o narrador e o escritor eram a mesma pessoa, só impressão... Um forte abraço!

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  5. Nostálgico e comovente. Adorei perceber a passagem do tempo e os sentimentos que ela provoca em seu texto. Beijão e ótima semana.

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  6. Marcela Romanin Sguassábia9:24 AM

    Eu conheço essa historia!!!! =)

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  7. Claudete Amaral Bueno11:15 AM

    Marcelo:
    Amei a sua crônica......e, se essa parte n/ foi imaginação.... (pois vc disse que foi quase autobiográfica)...
    me diga o que aconteceu c/ os "furões".....simplesmente se esqueceram?????? Ou todos morreram????????
    Se eu n/ tivesse a idade que tenho...iria combinar um encontro desses c/ um ou uns amigos....é o tipo de
    coisa que eu "curto" até!!!!!!!! (por isso gosto tanto do filme Tarde demais p/ esquecer!).......rsssssss
    Parabéns!!!!!! Um abraço! Obrigada
    Claudete

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  8. Marco Antonio Rossi11:16 AM

    Meua amigo bom dia e um otimo final de semana.
    Que belo texto, cheio de saudades e nostalgia....lembro dos meus grandes amigos.....
    muito obrigado pela saudade.....
    Um grande abraço
    Rossi

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  9. Sempre leio teus textos, mas tenho dificuldade de comentar.. rs... Devo estar fazendo alguma coisa errada por aqui.
    Adorei o texto, Marcelo!
    Uma verdadeira "viagem à memória"... Muito interessante!
    Abraços!

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  10. Quando era adolescente costumava ficar elucubrando com os amigos acerca do futuro. Tudo muda tanto, somos ingênuos em imaginar que as amizades sobrevivem tanto. Só algumas.

    Um bjo, Marcelo, adorei o texto.

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  11. Que emocionante, Marcelo! É uma pena que estas amizades que parecem tão promissoras na adolescência sejam as que se desfaçam mais rapidamente. Descobri que só os colégios de freiras conseguem manter essa tradição (e com ela muitas amizades ). Há encontros todos os anos de ex alunas e é um sucesso nas cidades onde pude presenciar (uma delas através de minha irmã).
    abraços e ótima semana.

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  12. Que linda crônica, Marcelo, estou aqui emocionada Que pena que os outros quatro não foram, e fico pensando: o que teria acontecido? Teriam morrido, teriam esquecido? E uma coisa ou outra seria muito triste. E que bela pessoa era esse Tavito, hein? Pedir ao filho para cumprir o trato... Amei seu texto, um dos mail lindos que li.

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  13. Muito boa narrativa, Marcelo. Mas, cuidado com as coisas do além, elas podem nos surpreeder a qualquer momento sem que percebamos o porquê! Meu abraço.

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  14. Emocionante!!!
    Conheci uma história muito parecida, contada por Amir Klink, o navegador, em uma palestra que assisti dele.
    Ele e alguns amigos depositaram um tesouro em uma das montanhas que visitaram, numa região muito fria,e coberta de muita neve. Marcaram num mapa e marcaram a data para retirar o tesouro junto as suas familias, para alguns anos depois. E assim aconteceu...
    Muito legal....

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  15. André Albuquerque9:44 AM

    Original,bem estruturado.Parabéns.

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  16. Nossa! Comecei querendo rir, mas fui me intrometendo na história, como se ela fosse minha e me sentei bem ao lado do filho do Tavito. Consegui sentir até a presença do Tavito ali,tamanha a verdade expressada. Vai ser criativo assim lá no coreto da praça, seu Marcelo!

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  17. Nossa...eu senti uma nostalgia absurda aí... saudade é assim... Bj, querido!

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  18. OLá Marcelo,
    Simplesmente maravilhosa sua história.
    Senti saudades de alguns amigos que ficou pra trás.

    Beijos e ótima semana!

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  19. Amei Marcelo! Eu sou sentimental, gosto destas 'paradas'. Eu fiz minha cápsula do tempo, mas meu pai me fez vir para lugares distantes e nem sei o que rolou. Estou adorando o Face e antes o Orkut, pelos grandes reencontros. O seu texto é ótimo, como todos, mas este em especial traz os quinze anos, os carros, o ambiente e depois a continuidade, o que fica... Fiquei imaginando a cena. Parabéns! Beijo!

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  20. Mara Narciso8:08 AM

    Palmas para você e para o encontro marcado que não houve. Somos uns tratantes. Damos o bolo. Não cumprimos o combinado, nem mesmo os compromissos selados. Como podemos ser considerados sérios?

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  21. Nubia8:09 AM

    O tempo...esse vive a nos aprontar, sonhos
    por vezes se perdem, fica difícil sermos leais
    a eles. Seu relato remexe, embaralha, expõe
    uma memória que pode falhar, mas que ao menor
    contato com o passado pode embaçar nossos olhos.
    Abração Marcelo.

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  22. Lidi Horácio2:22 AM

    Oiee te encontrei na blogosfera..
    Adoreiii seu blog..
    Tô te seguindo.

    Me visite tbm:
    http://lidiepaulo.blogspot.com.br


    Beijocas :*
    Ótima Noite ")

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  23. botando as essenciais leituras sguassábicas em dia: bela viagem de saudade!

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  24. Marcelo, cinematográfico e emocionante. Senti-me no centro da praça de nossa cidade, na passagem de ano... Muito bonito. Parabéns.

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