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Mostrando postagens de Setembro, 2012

VIDA DE SANTO

Imagem: Domínio Público


Engana-se quem pensa que vida de santo é um infinito dolce far niente. Nem ao mais preguiçoso deles é dada a graça de ficar chupando chicabon eternidade afora. E aquele estereótipo de se recostar em nuvens, entre cânticos e cítaras, é mais coisa de anjo que de santo - e anjo de quadro barroco, idealizado e fora de contexto histórico.
Santo passa maus bocados, verdade seja dita. E nem por isso os devotos lhes tratam com o devido respeito, o respeito que o santo, justamente por ser santo, exige.
Por exemplo, esse estranho hábito terráqueo de entornar no mínimo 10% da cachaça no chão da venda, dizendo que é pro santo. Posso dizer com certeza que todos eles abrem mão da homenagem e passam muito bem sem ela. Se gostasse mesmo de água que passarinho não bebe, santo não seria santo. Muito pelo contrário.
Depois, tem outra: manda a Justiça Divina que, toda vez que se oferece algo pro santo, e não se especifica pra qual santo é o presente, a oferenda seja repartida por todo…

CATEDRAL SUBMERSA

Devaneio ao som de La Cathédrale Engloutie, de Claude Debussy.

A verdade é que a lenda de lenda não tinha nada, pois juro sobre a Bíblia que vi a catedral engolida pelas águas, com suas ogivas góticas, seus altares e seus dezesseis sinos mudos há séculos. Ali jaz, até que razoavelmente conservado, o sacerdote de então. Ia com a missa pela metade, já que a história nos dá conta que estava na homilia quando as águas o calaram. E foi-se de estômago cheio, pois regalou-se na véspera com iguarias da Irlanda e vinhos da Normandia, trazidos por um fiel recém-chegado do velho mundo. Apesar do desencarne com o apetite satisfeito, trazia a testa franzida, como se advertisse os fiéis do dia do juízo final. Não muito longe da batina, pequenos peixes iam e vinham virando as páginas de um missal, com fecho folhado a ouro. Confessionários de ponta-cabeça, tomados por corais, bailavam sem gravidade, levando de vez em quando trombadas de tubarões. Um caco de vitral, do quinto mistério do rosário, prend…

MC LUA INFELIZ

Ilustração: Thiago Cayres



- Sabe de uma coisa, Ray, você até que é um cara esperto. O seu defeito é pensar pequeno, e um sujeito com 52 anos não tem mais tempo de errar na vida. Aonde pensa que vai chegar com esse sanduichinho de dois hambúrgueres, alface, queijo, molho especial, cebola e picles no pão com gergelim? Pretende mesmo pagar a faculdade dos seus filhos com isso?
- Meta-se com o seu foguete que eu sei o que estou fazendo. Um dia, milhares de manés californianos, metidos a inventores como você, tentarão copiar a minha receita e não conseguirão fazer igual. Pode apostar.
- Bom, igual não vai ficar mesmo. Ruim assim, vai ser difícil. Por que não abraça um projeto maior, com alguma chance de futuro, meu caro? A corrida espacial está só engatinhando, e temos literalmente um universo de possibilidades para explorar. O primeiro desafio é a lua, e os engenheiros da Nasa certamente vão cair de quatro com o projeto do meu foguete. Olha só a maquete... não é linda?? Mal posso esperar a …

LIQUIDIFICADOR JETMASTER SUPERTURBO 3 VELOCIDADES

O fato é que John Boy Walton mal conseguia disfarçar seu entusiasmo com algumas das partes palpáveis de Tetê, aquela que sabia demais e não viu que o tempo passou, ainda que continuasse em ótima forma dentro do seu biquíni de bolinha amarelinha. Há tempos os comunistas deixaram de ser uma ameaça, de maneira que compra-se uma Rural Willys zero quilômetro nos revendedores autorizados com apenas alguns ordenados ganhos - contanto que esse ordenado seja de piloto da Panair, de delegado de polícia ou de funcionário de carreira do Banco do Brasil. O Rio, às três da tarde de sexta, está no mínimo duas doses de cuba-libre abaixo do que seria desejável, e confesso a você que não vejo inconveniência alguma em reservar uns cruzeiros novos para o casaco do Mappin. Se te interessar fala com a irmã do Pedro, o falsificador de carteirinhas, ela trabalha lá e te dará uma atenção especial. Eu posso jurar que vi um dos dedos do Redentor se mexendo. Por falar em dedos, não me parece crível a sua nota fi…

O MELHOR DA FILA É ESPERAR POR ELA

Imagem: Thiago Cayres

Deu na "Folha": paulistano às vezes passa mais tempo na fila do que no programa que a originou. É tanto tempo que ela própria virou o passeio. As duas horas em média de fila no restaurante acabam sendo até mais cobiçadas e proveitosas que as próximas duas de esbórnia. Petisca-se e birita-se na faixa, paquera-se, twita-se, lê-se, medita-se, enfim...

Como dizem os americanos, no pain, no gain. No caso, sem espera não tem graça. Só que tem cada vez menos pain no processo, com os mimos e agrados que os donos da casa servem para amenizar a demora e o desconforto em pé. Digo em pé, mas até isso está mudando. Tem atração que oferece banquinho, mesa, cadeira e sabe-se lá mais o que para fidelizar a clientela.

E a fila, quem diria, de ritual enfadonho virou objeto de desejo.

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- E aí, faz muito tempo que tá aqui na fila?

- Umas três horinhas, mas passou tão rápido. Daqui a pouco já chega a minha vez de sair. Mas até que deu pra aproveitar bastante. Sábado …