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CATEDRAL SUBMERSA






Devaneio ao som de La Cathédrale Engloutie, de Claude Debussy.


A verdade é que a lenda de lenda não tinha nada, pois juro sobre a Bíblia que vi a catedral engolida pelas águas, com suas ogivas góticas, seus altares e seus dezesseis sinos mudos há séculos. Ali jaz, até que razoavelmente conservado, o sacerdote de então. Ia com a missa pela metade, já que a história nos dá conta que estava na homilia quando as águas o calaram. E foi-se de estômago cheio, pois regalou-se na véspera com iguarias da Irlanda e vinhos da Normandia, trazidos por um fiel recém-chegado do velho mundo. Apesar do desencarne com o apetite satisfeito, trazia a testa franzida, como se advertisse os fiéis do dia do juízo final. Não muito longe da batina, pequenos peixes iam e vinham virando as páginas de um missal, com fecho folhado a ouro. Confessionários de ponta-cabeça, tomados por corais, bailavam sem gravidade, levando de vez em quando trombadas de tubarões. Um caco de vitral, do quinto mistério do rosário, prendia na areia a conta de água do mês. Paga após o vencimento, com multa e juros de mora.



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Comentários

  1. Bem, não é devaneio, não! Pura realidade! Muita água corre debaixo dessa ponte... muito se submerge em esgotos profundos...
    [ ] Célia.

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  2. Marcelo, de onde vem sua imaginação? Em que lugar de verdade você reside? Adorei sua "viagem" submersa ao [sub]mundo da igreja católica.... um beijo!

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  3. Sinal dos tempos... Até as paredes e os vitrais têm testas franzidas, mesmo que engolidos pelas intempéries. Cicatrizes ao som de cânticos divinos...
    Texto exemplar. Grande abraço, Marcelo.

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  4. Clotilde Fascioni10:18 AM

    Olá Marcelo, você consegue ser romantico até debaixo dágua. Muito interessante o seu texto. Abrçs.

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  5. Maurette Brandt11:53 AM

    Gostei, Marcelo. Vou lê-lo com mais frequência.
    Um abraço
    Maurette

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  6. Marco Antonio Rossi11:54 AM

    Carissimo amigo e vizinho Marcelo. Um ótimo final de semana.
    Quanto ao texto de hoje, OREMUS................................................
    Abraço
    Rossi

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  7. André Albuquerque12:46 PM

    A poesia do surreal,em um grande momento.Inspirado e com imagística bela e instigante.Forte abraço.

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  8. Oi Marcelo,como vai? Olha...você é demais.De gênio! Ao som de La Cathédrale Engloutie até os tubarões ficariam mansinhos. Seu texto me botou de ponta-cabeça.:)

    Um beijo pra você e bom domingo.

    E.T.Minha filha, que passa pelo meu blog, morreu de rir com o seu comment.:) Obrigada.

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  9. Marcelo3:29 AM

    Tam…Tam …Tam…Tam…Tlim. Tam…Tam…Tam…Tam…Towm…

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  10. Realmente muita água corre debaixo desta ponte. O diabo é que tendem a torná-la toda putrefata, quando sabemos ser de bom tom nunca generalizar.
    Ipso facto realmente o fundo musical é da melhor qualidade e demonstra apurado gosto.
    Quanto ao padre folgo saber que morreu com a barriga cheia. Não ficaria surpreso saber que na véspera tivesse compartilhado dos favores de alguma paroquiana generosa...afinal tem muita poesia em todas as religiões,

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  11. Claudete Amaral Bueno7:01 AM

    Essa , superou sua imaginação, hein?????????
    Boa semana.
    Claudete

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  12. Jorge Cortás Sader Filho7:04 AM

    É assim mesmo.
    Não paga a conta d’água na data estipulada, vêm juros em cima de juros, e o padre de barriga cheia vê a sua igreja ser invadida pela tempestade.
    Qualquer semelhança com fatos políticos atuais não é mera coincidência.
    Abração.
    Jorge

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  13. Djanira Pio10:10 AM

    Obrigada Marcelo, gosto de dr uma olhada em seus textos, tenha um bom domingo.

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  14. Miriam Sales10:11 AM

    Isso é uma premonição?Assim terminarão os mitos,as farsas religiosas,as facções que levam ás guerras?
    Sic transit gloria mundi!
    Como sempre,vc tem ideias geniais.
    Abç

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  15. Sei não! Só consigo ver esse texto como um recorte de Atlantida, ainda tão desconhecida. Marcelo, abra logo o jogo! Tem em seu poder um fato já descoberto daquela ilha submersa que consta, ainda, nos circuitos inquietos dos deuses que lha procura. Se estou certa da minha visão, tome cuidado, correrá o risco de ser excomungado como escritor pagão! KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK
    ADORO esses textos que me arrebentam os neurônios.
    Eita, criatura que escreve!
    Vá inventar assim lá na quarta raça humana, digo em Atlantida, sô!

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  16. Olá Marcelo!
    Sei que é verdade, porque fui lá também. Debussy me abriu os portais e mergulhei fundo em seus devaneios... E eu ainda posso jurar que esta música é a avó do rock progressivo.
    Vi cada sino e até a conta de água (paga e com juros), mas encontrei o sacristão dentro de um confessionário, também conservado porém com a expressão vazia pois a água lavou todos os seus pecados... Não muito longe, a imensidão azul me chamou, era hora de voltar...
    Adorei esta sua viagem e aproveitei para viajar também! Parabéns, ótimo texto! Beijos!

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  17. Marcelo, seu perfil não está nos remetendo ao blog, você deve ter desativado alguma função. Quando abrimos seu link nos comentários, caímos direto nas páginas dos blogs que assina e só quem sabe seu endereço vai chegar até sua página. Se foi proposital, me desculpe, mas quis avisar caso não tenha percebido. Bj

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  18. Fernando Dezena4:47 PM

    Sempre inteligente a nos mostrar como caminha o mundo. Parabéns!!!
    Gostaria de ser um contador de histórias como você!

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  19. José Carlos Carneiro8:02 AM

    Com essa matéria você fez-me lembrar duas fobias que me acometem desde tenra idade. A bem da verdade não posso negar que fobias eu tenho um monte, mas só declaro uma ou outra e mesmo assim quando cutucado com vara curta. Uma delas é a claustrofobia - medo de lugares fechados ou reduzidos. A outra é a aquafobia - medo de água (que no meu caso deve ser entendido como receio de morrer afogado, mas não existe verbete específico para isto). Engraçado é que dos quatro elementos o que mais me seduz é a água. Dai eu concluo o seguinte:
    1) Ainda bem que até hoje só fui preso uma vez e por engano;
    2) Para entrar em piscina, mar, rio, lagoa etc, só se me empurrarem.
    Peculiaridades minhas à parte, não conheço e enredo da obra do Debussy, mas admiro a maneira com que você inseriu a Catedral e personagens no rolo. Por conta disso rolaram uns bons risos meus ao ler o texto.

    Abraço.

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  20. Lelena Terra Camargo8:19 AM

    All that jaz naquele cardume de cristão, cacos e catedrais!
    beijos
    Lelena

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  21. Lídia Maria de Melo8:20 AM

    Não resisto a uma partitura (um desenho que me faz viajar). Nem às suas histórias. Abraço.

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  22. Nubia Nonato8:21 AM

    24 de setembro de 2012 às 9:24
    Bom dia Marcelo, aproveitei a folga na lida pra te “ler”. Que viagem!!!!!!!!
    Não deixa de ser uma bonita alegoria, afinal foram todos em paz(será?).
    Viajei, assisti a cena dentro de um escafandro(para evitar o assédio dos tubarões
    e das piranhas, vai que alguma tenha se desviado de algum canal e veio assistir
    a tua profecia). Pelo sim ou pelo não, vou fazer refeições leves, dizem que faz mal mergulhar de estômago cheio.
    Abração!

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  23. Mara Narciso1:48 AM

    Depois do fim, tudo perde o sentido, até uma catedral. Pensei que você faria um trocadilho após afirmar que o padre morreu deixando a missa pela metade. É que por aqui há um ditado que se fala, quando a pessoa está ouvindo um caso e manifesta grande interesse e susto: "Você não sabe da missa um terço". E assim badala o sino submerso, enquanto os tubarões passam. São inesgotáveis as suas ideias do absurdo, Marcelo. Pena que quem as lê não comenta. Gostaria, assim como Pedro, de saber o que pensam dos temas e das formas.

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  24. Amém, sacerdote do verbo, amém! Baita petardo!

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  25. Marcelo, lembrei-me do filme "Planeta dos Macacos", da primeira leva, quando o Charlton Heston tinha ao fundo a Estátua da Liberdade e fugia do gorila maior. A Igreja Gótica submersa é aterrorizante. Presságio ou pesadêlo?

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