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ANACRÔNICA






Outro dia um colega de trabalho me mostrou um programinha que ele tinha acabado de baixar da internet: um simulador de barulho de máquina de escrever. Acionado o software, bastava ligar as caixinhas de som e, ao digitar no teclado, saíam ruídos que imitavam o tec-tec da dita cuja. Com o requinte de poder escolher entre vários modelos de máquina. Para cada modelo um som diferente, cópia fiel do original. O mais engraçado é que se ia escrevendo e, ao chegar o fim da linha, tinha aquele barulhão do carro da máquina voltando.

Retornei ao meu lugar e à época em que se datilografava ao invés de digitar. Tinha uns 12 ou 13 anos quando meu pai me matriculou num curso de datilografia da Escola Remington, do Seu Mario Sundfeld. Guardo até hoje o certificado de conclusão - passei com 9. Lembro direitinho do primeiro exercício, só com a mão esquerda: asdf asdf asdf – quatro ou cinco linhas da mesma seqüência, para o aluno memorizar a localização das teclas. Para boa conservação do equipamento, era bom passar o limpa-tipos de vez em quando - uma espécie de borrachinha que, pressionada como um chiclete nos tipos da máquina, ia tirando os resíduos de pó e de tinta que se acumulavam nas letras e tornavam os caracteres ilegíveis.

Quando a gente xxxxxxx errava alguma coisa no xxxx que estava escrevendo, ou resolvia substiutir uma xxxxxxxxxx palavra por outra, o texto ficava cheio de xxxxxxxx. Ou então se usava o corretivo, também chamado de branquinho, utilizado por muitos para fins bem menos nobres. Hoje, o processo de gestação do texto não deixa rastro. Os originais já nascem insípidos e imaculados. Tudo se deleta, se remove, se inverte, sem rabisco e rasura. É o fim do lixo cheio de papel amassado.

Uma máquina de escrever era o que se poderia chamar de “bem durável”, com direito a plaquinha de patrimônio. Objeto de ciúme e estimação, inspirava respeito. Era um monolito encravado na mesa do escritório. Muita gente ganhava uma na formatura do ginásio e ficava com ela até se aposentar. A pessoa, porque a máquina, nem pensar. Quanto mais se batucava mais a bichinha ia amaciando o teclado, ficando mais sensível ao toque e aos caprichos do dono. Tinha valor, atravessava gerações, ficava de herança. Já pensou hoje um computador ser arrolado em inventário? Por mais moderno que seja, daqui a uns meses não valerá mais nada – não suportará a versão 11.2 do Word, os novos recursos do Excel e a interface amigável do próximo Windows. Para que os programas continuem rodando satisfatoriamente, será preciso providenciar mais 4 pentes de memória, um processador mais potente, um hd de 100 gigas e 6 entradas USB. Aí o técnico em informática dirá a você que talvez seja melhor e mais em conta trocar de uma vez a CPU ao invés fazer as atualizações.

Em contrapartida, o que a minha boa e velha Hermes portátil me pede? Quando muito uma fitinha nova a cada dois anos. E olha que maus tratos é que não faltaram nesse tempo todo em que está comigo. Quanta migalha de bolacha e cinza de cigarro já deixei cair em cima dela. Poderia entornar uma ceia de Natal inteira sobre a coitada, com leitoa e tudo, que ela continuaria firme. Já o teclado do computador, se pingar uma gotinha de refrigerante, pode esquecer. Curto nos circuitos, falha geral de sistema, adeus aos dados não salvos.

Preço não é desculpa pra que você deixe de satisfazer esse excêntrico sonho de consumo. Por 100, 150 reais dá pra comprar uma maquininha bem razoável nas poucas oficinas de manutenção remanescentes. De quarta ou quinta mão, mas em perfeito estado de funcionamento - revisada e garantida. Mesmo que não seja pra usar, mas pra sentir o gostinho (ou o cheirinho) de ter uma. Sim, porque as máquinas de escrever têm um cheiro peculiar, de metal e óleo lubrificante. Todas cheiram assim. Exceto as que estão no ferro-velho.

NOTA: esta crônica foi gerada em ambiente Windows XP, no editor de texto Word 2003, salva em disco rígido, copiada em CD e finalmente passada a limpo numa Hermes Baby cor de abóbora, fabricada em 1979.


© Direitos Reservados


Comentários

  1. Marcelo!
    Saudosismo de um brechó da tecnologia/século XIX? Jamais... nem como presente quero saber da minha OLIVETTI... que castigo! Quanta penitência... Não é à toa que sua invenção foi consignada a um padre! Este na certa foi absolvido!
    Adoro o Delete... Home... End... Inserir... Escolher Fonte... Tamanho e Cores... Salvar Como... e por ai vai... Ah! Delicio-me...
    Abraço, Célia.

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  2. Noooosssa! Que texto maravilhoso e gostoso de ler. No emprego éramos tentados a concorrer com o amigo para 'demonstrarmos' quem datilografava mais rápido. Os xxxxxxxxxxx já faziam parte do estilo.

    Uma historinha curta:

    Fui atrás de uma máquina dessa para que os meus filhos a conhecessem.Consegui uma, ganhei! Para mantermos a harmonia com os vizinhos a levei para a casa da minha mãe(na casa da avó tudo pode). Cheguei, muito acanhada, em uma livraria e perguntei se ainda existia a fita para máquina de escrever- de duas cores-

    AAAAi que delícia! Lambuzei todos os dedos para trocar a bendita fita. Vai daí que levamos as coleguinhas para a casa da avó para conhecerem a 'máquina'.

    Imagine uma fila com crianças ansiosas esperando a sua vez para 'datilografarem'. Imagine novamente o choro da criança tendo que dar o lugar para outra criança experimentar 'a máquina'!?

    Pedaços do nosso passado podem, e muito, alegrar essa geração 'cristal' tão 'natievoluída'.

    Obrigada por me proporcionar esta 'contação' de história aqui.



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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Marcelo eu não fiz curso de datilografia e sinto muita falta dele, pois cato milho e parece que será para sempre. E o que eu queria mesmo seria catar o tempo passado, para realizar sonhos que ficaram para trás... talvez numa lixeira, cheia de papel rasurado e xxxxxxxx... risos... um beijo!!

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  5. José Carlos Carneiro6:05 AM

    Eu não tive uma na juventude, mas me valia da Ollivet Letera 22 (Não sei se é assim que se escreve) do meu mano, já na época professor de colegial. Não foram poucas os registros que efetuei nela, mas não tive o zelo de guardá-los, mesmo porque nem sei se valeria a pena.
    Mas é um verdadeiro passeio pelo tempo ler suas reminiscências sobre esse objeto que marcou época e hoje mais se presta como relíquia. Mas há casos em que essa relíquia pode dizer muito de um pedaço de nossa vida.
    Um abraço e boa semana.

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  6. Claudinha Almeida6:19 AM

    Adorei o texto, principalmente pela loucura que sempre tive pelas máquinas, engrenagens, tipos. Meu avô materno, uma paixão, foi quem me mostrou o caminho das máquinas, armas de caça e engrenagens de brinquedos e bicicletas. Tenho um jeitim com estas coisas (para desespero do meu pai que me ensinava também, porém morria de medo de eu não ser menininha, rsrsrsr).

    Eu ainda tenho muitas saudades da velha máquina dele (avô), e da minha, parecida com a da foto. A minha é uma Olivetti Lettera, laranja avermelhada (porque não achei vermelha). Escreve quadradinho, fiz todos os meus trabalhos de faculdade nela. Depois de alguns anos, dei-a pra minha mãe, que não é afeita aos pcs e escreve todas as suas poesias nela, catando milho mesmo. Depois comprei uma eletrônica, mas está em meu guarda-roupas guardada, não tem pra ela diante dos pcs.

    Seu texto, ao mesmo tempo é brilhante e portal do tempo, pois nos traz de volta àqueles bons tempos, nos faz sentir saudades gostosas.
    Acho que no fundo, você é bem parecido comigo. Gostamos de tecnologia e não paramos no tempo, mas respeitamos e cultuamos as antigas ternuras...

    Um beijo e parabéns pelo texto! Gostei imensamente!




    --
    .:: Claudinha ::.

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  7. Ana Lucia Finazzi6:22 AM

    Querido primo


    Tudo bem com vocês?
    Fui correndo ler a sua crônica da semana achando que tratava-se uma crônica para alguma Ana (talvez eu). Passada a decepção, deliciei-me, mais uma vez com o texto bem bolado e o tema, que igualmente me remeteu à nossa velha amiga máquina de escrever. Ainda conservo a minha Remington, bem acondicionada na sua caixa, protegida da poeira e umidade. A gente nem sabe porque. Mas vai qu um dia temos um apagão e então teremos de recorrer a elas, outra vez.
    Parabéns! Fiquem com Deus.
    beijos
    Ana Lucia

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  8. Alessandra Rocha6:25 AM

    Oi, Marcelo!
    Boa tarde!
    Primeiro, quero te dizer o quão você tem tornado alegres os meus dias através do seu estupendo trabalho.
    Esse texto em especial me fez viajar no tempo e recordar a minha antiga Olivetti (portátil), capa verde oliva, que me acompanhou durante bons e longos anos até adquirir meu primeiro computador. É! Foram muitas noites datilografando traduções de texto que fazia por encomenda, muitas provas e apostilas para os meus alunos no colégio, muitos trabalhos da faculdade,... e enchendo a paciência da minha mãe que não conseguia dormir com o tec-tec-tec.
    Diferente de você, eu não consegui meu diploma do curso de datilografia. Quando iniciei já tinha "vícios" tão arraigados, dos tempos de criança em que ficava brincando com a máquina do escritório do meu pai, que acabei perdendo a paciência e desisti. rsrsrs
    Então, obrigado por esse "presente" em forma de texto!!! ADOREI!!!
    Tenha um excelente fim de semana!!!
    Abraços,
    Alê

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  9. André Albuquerque6:34 AM

    Marcelo, parabéns pela crônica (que não é anacrônica) sobre a magia da escrita na máquina de escrever; no mundo do obsoletismo programado, a perenidade perde o sentido; tenho a impressão, que a escrita na máquina de escrever talvez nos fizesse um pouco mais perfeccionistas, pela mão de obra em apagar e/ou refazer tudo; escrevíamos na fluidez tátil e mais refletida que no teclado de hoje, onde a facilidade em deletar,reescrever, ás vezes nos incita a produzir coisas que talvez não existissem no bom e velho teclado mecânico, digo-o sem medo de parecer neoludita.Forte abraç

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  10. Jorge Xerxes6:35 AM

    Marcelo,

    Gostei do texto: de tom leve, agradável e saudosista!

    Um grande abraço,

    Jorge

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  11. Suas crônicas são sempre muito agradáveis...
    E me fez nisso tudo lembrar dos meus tempos em que também fui matriculada numa dessas escolas famosas de datilografia.
    Em Jundiaí, onde morava, na época, tinha uma que era muito famosa. Mas não consegui concluir o curso, Marcelo, pois eu tinha e tenho um problema visual muito grande...
    Mesmo assim possuíamos em casa uma máquina de escrever que nos auxiliava muito. Grandes tempos...
    Abraços

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  12. Natanael Jr.6:43 AM

    Caro Marcelo,

    Muito legal seu texto "Anacrônica", parabéns mesmo amigo.

    Natanael Lima Jr
    Editor do Blog Domingo com Poesia
    http://www.domingocompoesia.com


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  13. Elizete Lee6:46 AM

    Eu era uma excelente catadora de milho…e continuo sendo, segundo meu marido.

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  14. Maria Bonfá6:47 AM

    incrível com certas leituras nos remetem ao passado.. me vi na sala onde com maior orgulho aprendi a datilografar.. o desafio de teclar com a mão esquerda.em que a mão se recusava a obedecer….e a professora exigia que não olhasse nas teclas…tive meu certificado.sai de lá me sentindo vitoriosa….maquinas de escrever eram meu objeto de desejo..mas nunca tive uma..minha mesmo.. ficava maluca quando tinha a oportunidade de datilografar..foram tempos difíceis onde nem sempre o que se desejava podia ter..hoje tudo mais fácil , mais rápido..e cada vez mais depressa os objetos ficam antigos..obrigada por me dar essa oportunidade de ler esse texto..relembrar é bom… ainda mais quando são lembranças boas.. de uma adolescência onde os sonhos eram simples e o sorriso uma constante no rosto.. beijo..

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  15. Gercio Tanjoni6:49 AM

    Infelizmente a eletronica vai destruindo cada dia mais os aspectos bonitos da nossa vida. A simplicidade de uma maquina de escrever, o disco de vinil, a pelicula fotografica. A modernidade e suas máquinas contribui para que o mundo se torne cada dia mais desinteressante.

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  16. Núbia Nonato3:19 AM

    Barulhinho bom...ô saudades...
    Não que eu tivesse uma, mas peguei carona em uma dessas máquinas que minha irmã ganhou por conta de uma redação, até trabalhos da faculdade cheguei a fazer nela. Sabe qual era o meu sonho? Ganhar uma vitrolinha...e mais uma vez caroneei
    na projeção de outros, mas valeu.
    A vida era tão mais simples amigo...
    Vida longa ao tec, tec...

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  17. Olá Marcelo, que lindo e saudoso texto. Também me aventurei numa dessas "vermelhinhas" que compramos para a filha fazer um trabalho escolar. Com ela muito escrevi e muito briguei comigo mesma errando e corrigindo até que fui salva pela minha filha Ligia que me deu o primeiro computador há bem uns desesseis anos, sei lá. Mas seu texto fez-me também lembrar que certa vez, com os quatro filhos ainda pequenos resolvi aprender datilografia aí no "Alan Kardec", para facilitar as minhas aventuras escrivinhatórias, porém depois da terceira aula de batucar e escrever sem nada para escrever "injuriei-me" no meio da aula e fui até a professora e devolvi minha vaga para quem a quisesse, pois eu não tinha paciência para tantos exercícios enfandonhos como eles eram.É isso meu amigo, para escrever à maquina é preciso ter aquilo que o papainoel carrega nas costas. Abçs

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  18. sou um bancário da era PC... digitador lerdo, acho que não estaria na profissão em outras épocas em que a rapidez nas remingtons da vida era condição sine qua non pra admissão... e eu não sei de verdade se isso, a admissão, foi bom ou ruim... acho que nunca vou saber... abs

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  19. Ah, quanto texto cheio de xxxxxxxxxxxx. Também fiz curso de datilografia e me tornei um ás de velocidade com os 10 dedos! Quanto bico, quanta apostila, quanta monografia passou pela maquininha que até hoje está embrulhada no fundo do baú! Saudade dela!!
    Abraxxx (ops) Abração, Marcelo

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