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LINDOS COROS NATALINOS




Imagem: http://www.public-domain-image.com


Foi no 201 do Bloco C. Os vizinhos não souberam dizer o que ocorreu de fato antes do grito fatal, nem o que motivou a briga. Ao fim de barulhenta surra, a vulga Eglantina Vinte Arrobas vazou um dos olhos de Amadeu com o osso da sorte do frango da ceia. Pelo menos é isso o que consta no boletim de ocorrência.

Eram doze garotinhos, todos em vermelho e branco. Vermelhos de sangue e brancos de medo, alguns deles também roxos de hematomas. Gritavam alto, e à medida que o faziam eram separados em dois grupos: contraltos e sopranos, para cantarem na missa do galo.

Blitz de rotina. Fizeram sinal para parar o trenó. Uma pedra de crack no bolso acetinado do Noel de loja. Sem tempo para explicações: motorista e renas detidos para averiguação. Na cela, comitê de boas vindas: pau no bom velhinho. Em seguida, salmoura e rabanada amanhecida.

Nem precisava abrir o pacote para adivinhar o que era. Um cinto, de novo. Claro, tem sido assim desde o Natal de nem sei quando. De courvin, preto, seis furos. Fivela quadradinha, sem detalhes. As mãos tremeram. O sangue subiu à cabeça. "Não vai experimentar?". Experimentou. O cinto cantou na carne, antes que abrissem a sidra.


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Comentários

  1. Gercio12:12 AM

    Marcelo, com poucas palavras você conseguiu reproduzir os clichês natalinos, adaptados aos tempos modernos.

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  2. elide camargo signorelli5:01 AM

    pessoas patéticas, ações patéticas, Natal patético, vida patética. Parabéns.

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  3. Ai, o natal sem o romantismo de antes é mesmo como uma rabanada no dia seguinte, sem graça e amolecida.... dá uma dó pensar no mundo cruel que temos. Beijo, querido!

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  4. José Carlos Carneiro12:39 PM

    BO, crack e baixaria... Nada faltou para uma comemoração natalina sui generis e nada difícil imaginar que na vida real aconteçam tais disparates ou coisa pior. O "dono" do dia, pobre coitado, nem sempre é lembrado.

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  5. Risomar Fasanaro12:40 PM

    Natal contemporâneo, a linguagem cinematográfica traduz o que é o Natal nos nossos dias. Parabéns, Marcelo! Texto doloroso por sua crueza, mas perfeito!

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  6. Marcio Ibiapina12:42 PM

    Os coros cuidadosamente regidos, alinhavados pelo tema natalino, são como pontas de icebergs, cujas profundezas ficam a ressoar muito tempo após a leitura.
    Difícil conseguir essa proeza em tão poucas palavras. Parabéns!
    Abraço,
    Márcio.

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  7. E ainda dizem que a tendência é piorar... Boa tirada, Marcelo. A coisa vai por aí mesmo.

    Abraço,
    Jorge

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  8. Olá Marcelo! Fantasiam tanto, mascaram demais, vulgarizam aos cintos, meias e cuecas, no velhinho, ô dó... nem pau... vermelho de raiva na certa ele - o bom - deverá ter uma listinha própria nunca realizada! E... jingobel ou a versão dingobel... acabou o papel... era o que eu e meu irmão cantávamos depois de uma sessão espinafrada de "missa do galo"... dormíamos no banco da igreja e acordávamos querendo saber do galo... pois "noel"... aquele bom velhinho sempre errava o endereço! Se isso for comemorar o nascimento de alguém, por favor, continuem errando meu endereço! Bah!
    Abraço, Célia.

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  9. Isso porque Papai Noel não existe. Já pensou se existisse? Meu abraço.

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  10. Claudete Amaral Bueno8:36 PM

    E pensar que hoje sua imaginação nem esteve tão à altura......essas s/ cenas do cotidiano dos n/ dias, infelizmente!....(até piores!)......
    Mas no Dia de Natal.......realmente ...é mais triste!
    Um abraço e um Feliz Natal....sem nenhum acidente, nem incidente.......desagradável!
    Claudete

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  11. André Albuquerque10:38 PM

    Um narrativa pungente como a vida; um painel colorido e abrangente das pequenas e grandes desgraças do cotidiano,também porque é Nata.Parabéns,Marcelo.

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  12. Um choque, o que senti ao ler a crueza do seu natal, e o pior é que ele realmente existe assim o ano todo.Porém é bom não entrar no negrume dessas cenas, voltemos ao bom humor de sempre para poder suportar esses natais periféricos.
    Realmente como dizia aquele pastor que agora é Ministro da Pesca, o Marcello Crivella, "O Brasil precisa orar".
    (Ministro da Pesca? O que ele tem a ver com o peixe?)

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  13. Gracas a Deus nunca presenciei nenhuma circunstancia dessas nesse periodo... Acho que todos ficam tao bozinhos...
    Bjsss

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  14. Gracas a Deus nunca presenciei nenhuma circunstancia dessas nesse periodo... Acho que todos ficam tao bozinhos...
    Bjsss

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  15. Precisei ler pelo menos 3 vezes para rir cada vez mais alto e com mais vontade ain da. Não demora no próximo Natal surgirá o coral das risadas. Esses doze elementos expostos em vermelho e branco desbancaram a última Ceia dos apóstolos de Da Vinci. Marcelo pinto a realidade da Ceia contemporânea.

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  16. Celi Estrada10:47 AM


    Que pobreza, sidra?
    AH! AH! AH!
    Celi

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  17. Marco Antonio Rossi10:48 AM

    Bom dia, meu amigo e um otimo final de semana.
    Só gostaria de saber porque pai e avo recebem de presente, tanto nos dias dos pais como no natal, meias, cuecas e lenços.......cabe uma cronica?
    Abraço
    Rossi

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  18. Marco Bastos10:50 AM

    Sinto pelo cinto, contraltos e contrabaixos, que no 201 o Natal foi quente. O couro cantou forte. Deu nisso tirar a sorte na fúrcula da penosa, na austríaca de balanço. A vovó Jacinta tinha ido ao sanitário.
    Em 1959, lá em Birigui, teve um caso parecido. O bereguedê começou no par-ou-impar do Caetê licoroso. O Lau-sem-mindinho queria contar o dedo que não tinha.
    abraços e parabéns.

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  19. olá Marcelo..chocante esse natal que vc apresentou. infelizmente é real e verdadeiro a historia de tanta gente.. que conhee o outro lado donatal..um papai noel diferente e cruel....mas achei muito engraçado a escolha do coral.. dei risada.. adorei.. vc sempre fantástico..sua criatividade é algo que admiro muito em vc... adoro te ler..parabéns... beijão

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  20. Impressionante!
    Estou em choque ou em transe ou as duas coisas e outras mais.
    Nunca vi um Natal tão a vida como ela é.
    Impressionante!

    beijoss

    Lelena

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  21. Carlos Edu Bernardes2:30 PM

    Acabei lendo primeiro a "anacrônica" e adorei!
    É exatamente como você relatou a nossa relação com as máquinas de escrever.
    Quantos livros datilografei nela (ganhei de presente de aniversário em 1981) da minha atual namorada e ex-mulher.

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  22. Meu querido amigo, que babado! Um Natal assim é de meter medo... Mas tenho certeza de que , mais perto do que a gente imagina, tem coisas assim acontecendo... Neste eu achei graça, irreverência e , infelizmente, uma dose de grande probabilidade de ser real...
    Um beijão

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  23. Situações reais, com uma pitada de humor, claro, o detalhe do osso da sorte foi demais. Mas é assim mesmo... O Natal na naioria das vezes está apenas na decoração e nas frases dos cartões natalinos. Fico feliz por ter um Natal tranquilo, mas isso é apenas consequência do dia a dia, amor e umiao na família, não é mágica natalina.
    Um foerte abraço, Marcelo!

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  24. Este comentário foi removido pelo autor.

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  25. Alessandra Leles Rocha9:39 PM

    Oi, Marcelo!
    Apesar do realismo de suas palavras, espero que o Natal volte a ser algum dia um oásis de paz e reflexão para a humanidade.
    Um grande abraço,
    Alê

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  26. oi Marcelo .. adoro receber sua visita no meu blog..me sinto honrada..e envergonhada..
    vc é um grande escritor..eu só rabisco bem pouquinho
    mas obrigada por ir...ter sua presença lá é um presente pra mim.. beijo

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  27. Mara Narciso10:30 PM

    O lado amargo do Natal, que vemos o ano todo e nesse período fazemos de conta que todos se amam e são felizes. Foi bom nos mostrar, Marcelo

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  28. Sõ não pode os esquecer a expendia do Natal, abraço Lisette.

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  29. uma crônica crua, um tabefinho na cara, uma náusea por esse mundo vendedor e comprador demasiado... abs

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