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O DEDÉ





Foi revendo “Forrest Gump” que lembrei do Dedé, o sumido porém inesquecível Dedé. Estava ao seu lado no cinema, na época do lançamento do filme, quando num rompante inspiradíssimo ele lavrou a versão tupiniquim da filosofia do anti-herói americano: “A vida é como uma empadinha de rodoviária: a gente nunca sabe o que vai encontrar”.

Nada do que o Dedé dissesse era levado a sério. Por mais sérios que fossem seus enunciados e máximas.
Consta que foi por volta de 1978 que o Dedé cismou que o tempo estava passando mais rápido. Alardeava aos quatro ventos a singular constatação, dispunha-se a chamar a comunidade científica pra comprovar por A+B a sua tese. Tinha toda uma teoria, amparada por equações complicadíssimas, cálculos quânticos e dízimas periódicas. Porém, mais rápido ou não, o tempo passou e a coisa ficou por isso mesmo.

Uma figura, o Dedé. Pelo seu jeitão aloprado, muitos o chamavam de Lelé. Que maldade.
Líder nato, amava palavras de ordem e gritos de guerra. Adivinha, no colégio, quem era o presidente do grêmio, o chefe da fanfarra, o representante de classe, o orador da turma? Lógico, o Dedé. Na faculdade, estampava e vendia nos intervalos das aulas camisetas do Che, da plantinha de Cannabis e contra o imperialismo ianque.

Se havia alguém perito em arrumar uma confusão, esse alguém era o Dedé. Sem querer, espalhava boatos e insultos difamantes, semeando a discórdia por onde passasse. Aprontava todas e, quando o tempo fechava, escafedia-se em meio à turba se estapeando. O Dedé sumia com a leveza e a rapidez de um ninja. Aquele monte de amigos batendo e apanhando por causa dele, e ele lá, rindo e guardando distância segura do quiproquó.

O Dedé era também um diletante gastronômico, e suas panelas assistiam às combinações mais esdrúxulas – macarrão doce, sorvete de queijo com cobertura de azeite de oliva e polvilhado com orégano, pato ao molho de fanta uva.

São muitas as recordações. Devia ter umas duas semanas de casado, praticamente ainda em lua de mel, e quem me aparece em casa, de mala e cuia? Adivinhou de novo, leitor: o Dedé. Disse que ia ficar só uns dias. E uns dias, para o Dedé, eram muitos. Mais exatamente, 94.
Assaltava a geladeira sem cerimônia nenhuma, esparramava-se no sofá da sala para ver televisão e urinava com a porta do banheiro aberta.

O ecletismo era sua marca registrada no âmbito profissional. Chegou a gerenciar simultaneamente um bingo para a terceira idade, um serviço de telemensagem e um quiosque de tapioca.

Há cerca de dois anos, aconteceu aquela que seria a grande guinada de sua vida. Com a pompa que a circunstância exigia, abriu as portas do “Hair Fashion by Dedé”. Portas que foram fechadas antes mesmo da tesoura de cabeleireiro cortar a fita inaugural, por não ter sido expedido o alvará da prefeitura. Nunca testemunhei tão retumbante fracasso. Mais de 150 convivas, entre autoridades, convidados e representantes da imprensa local, degustando sidra vagabunda e assistindo o fiscal lacrar o natimorto salão de beleza.

O sucesso do Dedé com as mulheres era inversamente proporcional à sua desenvoltura como empreendedor. Tinha todas as que punha em sua alça de mira. Incluindo a filha de um promotor de justiça, com a qual chegou a noivar e a quem dedicou uma canção de relativo sucesso na época, finalista de um festival em Santa Rita do Passa Quatro e terceiro lugar num outro em Ijuí.
Não obstante essas heroicas conquistas, o pai da moça se opunha ao relacionamento, subestimando seus feitos e julgando-o indigno da filha.
Afrontado e ávido por um revide, Dedé foi à luta e um mês mais tarde esfregou na cara do promotor uma medalhinha de menção honrosa no 12º PIC - Piraporinha in Concert, e o cheque de R$ 75,00 a que fez jus.

Convertido a uma seita pentecostal, passou a levar uma vida regrada e produzia, em sociedade com um cunhado, pesos de porta com grandes figuras bíblicas, como Maomé, Isaac e Matuzalém. Mas foi à bancarrota ao ter um contêiner de Isaacs devolvidos. O comprador alegou que os Isaaquinhos rechados de areia trajavam suspensórios, artefatos que ainda não estavam em voga naqueles idos distantes.

Assim era o Dedé. Esse ser que não existe.



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http://www.publicdomainpictures.net/view-image.php?image=19999&picture=homem-triste-e-chuva">Homem triste e chuva
por George Hodan


Comentários

  1. MARCELO,ESTE TEXTO FICOU SHOW DE BOLA.QUEM NÃO TEVE UM AMIGO DEDÉ NA INFÂNCIA?EFUSIVOS APLAUSOS E BOAS FESTAS,NOBRE CRONISTA!

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  2. Ah! Quantos "Dedés" me acompanharam na vida estudantil e pós!! Se não fechar bem a "carranca" eles, ainda hoje, grudam feito "carrapatos" e haja inseticida para exterminá-los... Nem sempre eficaz a conduta... tanto do elemento descrito, quanto do pulverizante exterminador!! Haja paciência!!
    Abraço, Célia.

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  3. Para todo Dedé há uma Dedeia.
    Coisa de doido essas figuras!

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  4. kkkkkkkkkk não existe
    Só aqui em Araçatuba, tá sssim ó.
    Mas esses caras, por incrível, eles têm uma para o dia e outra amarrada para o amanhã.

    Conheço um que com a metade de uma guarddanapo de papel, faz um tratado de economia ou plano gerencial de marketing...quando nao está pedalando sua bicicletinha. Mas são educados, os carinhas...pelo menos os que eu conheço.

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  5. Maldade chamar um ser tão iluminado de Lelé... risos..

    Adorei, querido!!! Beijo!

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  6. ficou o máximo seu texto.. show mesmo.todos temos um Dedé que já passou por nossa vida..e do jeito deles, conseguem se tornar inesquecíveis.
    um feliz natal a vc e sua família.. que papai noel seja generoso com vc..beijão

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  7. Como assim, ele não existe Marcelo? Ah, mas existem Dedés por todo o mundo, ate´um pouco dentro de nós mesmos!
    Um feliz Natal para todos aí e um feliz mundo novo! Beijos!

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  8. Belvedere Bruno3:29 PM

    Amigo
    Feliz Natal e um 2013 pleno de realizações. Com o curso de roteiro estou atrasad´ssima nas leituras. Depois te retorno.
    Bjs

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  9. Wilson Miranda3:31 PM

    Ainda bem que o Dedé é um ser que não existe. Você já foi em Ijuí? Eu fui. Coitado do Dedé. É muito próximo da Argentina. Fui no inverno passado. Faz um montão de graus negativos. Na próxima história manda o Dedé no festival de Campos do Jordão, mas não manda mais para Ijuí. Um abraço.

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  10. Marco Antonio Rossi3:40 PM

    Meu amigo bom dia.
    Será que o Dedé realmente não existe ou tem um pouco de cada um???????
    A esperança de um dia dar certo, leva as pessoas......
    Obrigado a voce por escrever e me fazer participar bem como a Deus que me permitiu viver para lê-las, pelo menos até o fim de 2012, já que o mundo não acabou a meia noite....
    Mais uma vez um Natal abençoado junto aos seus e um 2013 com muita saude, paz, sucesso e me permitindo participar de suas crônicas que aprendi a aguardar toda semana.
    Um grande abraço e até a tarde.
    Rossi

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  11. Núbia Nonato4:15 PM

    O mundo seria tão mais…humano eu diria, se houvessem mais Dedés.
    Dedé é um sonhador, daqueles que não fecha os olhos que é pra não perder os segundos tão preciosos…
    Lindo Marcelo, adorei!
    Abração.

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  12. Jorge Cortás Sader Filho4:16 PM

    Ouvi dizer, não sei se é verdade, que ele foi quem inventou esta do mundo acabar no dia 21 de dezembro. Ah! Dedé! Só mesmo o Marcelo para criar você…
    Abraço,
    Jorge

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  13. Clotilde Fascioni4:16 PM

    Que pena que Dedé não existe, seria muito divertido.
    Abrçs Marcelo e Bom Natal extensivo a toda a família.♥

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  14. Cacá4:17 PM

    Marcelo,sinceramente pensei que o final dele seria numa câmara de vereadores, de deputados ou no congresso nacional (e como senador)! Muito bons esses tipos que você pinta com deliciosa pena. Abraços, boas festas e ótimo 2013.

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  15. André Albuquerque4:18 PM

    Bela narrativa sobre um "tipo inesquecível";imaginação e estilo na composição de um personagem de muitas nuances e de promissor futuro,espero.Forte abraço.

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  16. Wagner Bastos4:38 PM

    Muito bom. Parabéns, Marcelão!

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  17. Marcelo: São esses Lelés que aproveitam a vida, né? Quebram protocolos e reinventam a rotina. Taí, gostei muito!
    Boas Festas e muita inspiração para 2013!
    Grande abraço

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  18. Lisette Feijó10:13 AM

    Feliz Natal abraço Lisette.

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  19. P... texto! Dedé existe, ou melhor, Dedés existem. você, genialmente, juntou nesse personagem uma pá de tipos soltos por aí.
    em tempo: Forrest Gump, 1994, é um dos poucos filmes que revejo com frequência. Um apatetado que vence na vida é uma história com a qual me identifico. Tenho um bom naco de Forrest. abs

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