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A MORTE PEDE SUBORNO



Imagem: http://www.caramarela.com.br/?p=detalhes&id=1759&titulo=ELASTICO+LATEX+100+GR


De que lhe vale esta mansão estilo Tudor, se dorme no chão para não gastar os lençóis? Atravessa os dias e as noites contando dinheiro, e a única coisa que consegue interromper esse passatempo vitalício é o boletim com a movimentação da bolsa e a cotação das commodities.

Ele ainda confia na eficácia redentora do óleo de fígado de bacalhau e desconfia dos comprovantes de banco.

"Que segurança pode ter um papel cuja impressão some toda com meia hora de sol ou três dias dentro da carteira? Se é para ser comprovante e documentar a transação, o que está impresso nele não deveria sumir nunca."

E aí ele tem toda razão. Não dá mesmo pra explicar esse negócio. Mas ele tinha outras e impagáveis assertivas, que repetia em tom ranzinza.

"Há muito tempo ouvi dizer que Aristóteles Onassis começou sua fortuna catando na rua bitucas para fazer novos cigarros. Isso é senso de oportunidade. Isso é erguer tudo do nada, revidando ao mundo e ao destino a pobreza de nascença."

Come maçãs acompanhadas de coisíssima nenhuma, pois lhe disseram que, ao mesmo tempo em que nutre e faz bem à saúde, conforme é mastigada a fruta já vai limpando os dentes, o que lhe poupa gastos com escova e creme dental.

"Uma maçã todo dia, não mais que uma. A ruína de Adão me blindará e será o meu salvo-conduto para o século que vem. Viverei mais que todos e evitarei o Alzheimer contando minhas lindas notas. Contar dinheiro exercita a mente e é tão terapêutico quanto fazer palavras cruzadas."

É, e pelo menos para ele, trata-se de uma tarefa que serve para alguma coisa. De qualquer forma, jamais deixaria outra pessoa fazer isso em seu lugar.

Arranca todas as etiquetas visíveis de suas roupas. Entende ele que essa é uma forma de propaganda do fabricante e, até onde sabe, jamais será remunerado pela veiculação. Então, tesoura nelas. Nem bem saem das lojas e as roupinhas de grife viram artigos genéricos.

"Ainda se a roupa saísse de graça, vá lá, tudo bem. Até toparia a permuta. Eles me dariam as calças, camisas e sapatos e eu sairia pra rua desfilando as marcas deles".

 “Caixão não tem gaveta”, para ele, é só uma frase feita - nunca uma sentença. Como não tem mais ninguém nesse mundo, ocupará sozinho o imenso mausoléu que mandou construir em meados dos anos 80. Sobrará espaço bastante para abrigar, ao lado dos seus ossos, as notas que conta e as que ainda irá contar. Enquanto isso, conforma-se em abrir mão de algumas delas para subornar a morte, que de vez em quando aparece com sua foice para levá-lo.


© Direitos Reservados 

Comentários

  1. Um olhar de sabedoria essa sua crônica, meu caro Marcelo! Canto com o Martinho e me safo, por enquanto da foice... o resto é "suborno", realmente...
    "Dinheiro pra que dinheiro /Se ela não me dá bola /Em casa de batuqueiro /Só quem fala alto é viola"...
    Abraço, Célia.

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  2. Elizete Lee6:07 AM

    Do jeito que as coisas estão caminhando, qualquer dias desses, teremos uma nova “ferramenta” anunciada por “especialistas de plantão”,para ludibriar a morte.
    Como sempre, preciso e direto em seus artigos.

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  3. Clotilde Fascioni6:08 AM

    Como é pobre essa criatura, possui apenas o dinheiro e será que suborna mesmo a morte?
    Abraços Marcelo♥

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  4. Marco Antonio Rossi7:40 AM

    boa tarde e um otimo final de semana.
    tá um cheiro de Cachoeira no ar..........talvez LULA....., esse negócio de suborno.......
    Abraço
    Rossi

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  5. Claudete Amaral Bueno9:48 AM

    Vc descreveu bem o "pobre rico"!!!!!!!!
    Um abraço!

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  6. Eu nunca tive nota pra contar. Muitas vezes as danadas nem passaram pelas minhas mãos.Enquanto elas vinham e iam a dona,a proprietária da foice, estava de olho em mim.Algumas vezes senti o seu hálito no meu cangote. Entre vá tomar no...e que se...cheguei até aqui nos meus setentinha.Ela continua se aproximando, eu continuo a mandá-la pra ...´é , pra. Vamos ver até onde vai esta merda.

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  7. Alessandra Rocha1:02 PM

    Marcelo,
    como sempre GENIAL!!! Uma reflexão e tanto!!!
    Bjo.,
    Alê

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  8. Regina Pirajá1:04 PM

    Adorei o texto! Bj primo Marcelo

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  9. Essa da maçã eu também faço...risos..... um beijo, querido!

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  10. Jorge Cortás Sader Filho10:20 PM

    E não é que tem gente bem próxima ao descrito por Marcelo?
    Naturalmente você conhece alguém…
    Bola na caçapa!
    Jorge

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  11. Sissym10:20 PM

    Marcelo,
    Cada ‘pensamento’ faz rir, entao a realidade é digna de risos!
    Bjs

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  12. André Albuquerque10:59 PM

    Marcelo,parabéns por mais este tipo inesquecível , criado com a maestria de sempre, no manejo do humor.Forte abraço.

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  13. Esse Patinhas ranzinza me lembra o [deixa pra lá, não quero perder o cliente por conta de boquirrotices]... texto letal para esse cinza mal humorado do domingo... abs

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  14. José Carlos Carneiro9:56 AM

    Uma mistura de ingredientes adequados para descrever o apego do personagem ao metal sonante. A ideia de subornar a morte fui excelente. Se, além do apego a tal materialismo ele fosse um ferrenho devoto do Senhor, poderia pedir a Ele que o tornasse tão longevo como Matusalem.
    Boa semana vindoura.

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  15. Elizete Lee2:50 AM

    Do jeito que as coisas estão caminhando, qualquer dias desses, teremos uma nova "ferramenta" anunciada por "especialistas de plantão",para ludibriar a morte.

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  16. Gina Soares6:39 AM

    Vida assim eu não gostaria de ter jamais..
    Passar a vida regrando e contando tostão, ninguem merece...
    E melhor nem se dar ao trabalho de subornar a morte, pois já morreu e não tem noção disso...
    rs
    Excelente...
    bjs

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  17. E quem vive dura? Logo, logo ficará durinha, comendo grama pela raiz ??? Buá, buá, buá! Vou contar tudo pra minha mãe !

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  18. Esta é mais uma ótima 'pensação' em que não achei graça... Muito pelo contrário, me fez refletir bastante, muito inteligente! Sabe que existem mesmo gente assim e que , guardadas as devidas proporções, nós temos nossos apegos à matéria. Só quem não compartilha, não tem... O essencial continua invisível aos olhos...
    Adorei o texto de hoje, e levei à sério mesmo, como lição.
    Beijão, meu amigo!

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  19. Pelo visto pouca gente vai escapar da foice. Cadê dindin pra subornar a Velha? Vou penhorar meus sapatos velhos na Caixa Econômica Federal. Será que eles acreditarão que são sapatos de cristal? Meu abraço.

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  20. Antonio Fonseca6:05 AM

    Tenho um irmão assim. Se você conversa com ele durante um minuto ou dez horas, o papo é só dinheiro e economia. Ele anda duas ou três horas fazendo orçamento de pé de frango. Acreditam? E disse que é para colocarmos toda sua grana no caixão no dia da sua morte. Acho que vou substitui-lo por um cheque nominal e ainda vou cruzá-lo, para ter certeza de que não vai ser depositado. Afinal de contas, fazer inventários é um ato tão desgastante!

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  21. Lendo o seu texto passa um filme na cabeça, acredito que todos nós conhecemos alguém assim, até mesmo pessoas queridas, que por serem idosas acreditavam e nós aceitamos que tinham conquistado o direito de viver como bem quisesse e nem por isso deixaram de ser menos queridas.

    Tanto conquistou em vida, morreu como indigente numa das vezes em que a morte exigiu demais e não foi possível pagar o suborno pra não ter que se desfazer dos seus bens. Saudades daquele velho ranzinza.

    Como sempre, é um prazer enoooooorme ler você, Marcelo. Obrigada, viu?
    Beijo!

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  22. Mara Narciso6:08 AM

    Vendo assim, não gastar parece ter sido um bom negócio. É gostoso vê-lo brincar com a sovinice e com a morte, Marcelo. Um mausoléu grande, enfim, servirá para alguma coisa.

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