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Mostrando postagens de Março, 2013

ZAPPING

Imagem: wikimedia commons

Hora de pensar, pensar. Hora de não pensar, ligar a televisão - essa fabulosa caixa hipnótica. Aperte o power do aparelho e acione o off do cérebro. Renda-se ao vício paralisante, entregue-se ao esvaziamento mental.

Mas a culpa não é toda da TV em si. Há todo um clima ao redor que induz ao não-pensamento: o cobertor e sua pelúcia acolhedora, a meia-luz do ambiente, a musculatura relaxada - tudo isso junto já é um pré-estado Alfa. Uma vez nesse estupor, é assistir ao desfilar de pastores em seus púlpitos, calouros se esgoelando, falsas loiras saracoteando seus predicados de silicone. Sem falar dos televendedores, a uma velocidade de oitocentas palavras por minuto, madrugada afora apregoando de títulos de clube a aparelhos ortodônticos.

Mas o ritual nem sempre foi assim, indolente e passivo. Tempo houve em que era preciso ginástica para gozar das delícias televisivas.
Quando a TV não pegava, os fantasmas apareciam ou os chuviscos aumentavam, deflagrava-se uma co…

TREVO

Imagem: Google



- Bom, o que a gente já esperava foi confirmado hoje no comunicado que a prefeitura fez no jornal: nossas terras foram desapropriadas e vão nos pagar preço de banana. Uma merreca. - Ai, ai, ai. Tá sacramentado mesmo, é? Bem, mas pelo menos vamos poder explorar algum negócio no entorno do novo trevo. Tá lá no edital de desapropriação. Temos a indenização e o direito de abrir comércio ou serviços nas imediações, como compensação pelo baixo preço que a prefeitura vai pagar. - Sei... um negócio ao redor de um trevo rodoviário? O que é que pode ir pra frente num entroncamento de trânsito rápido? É área de passagem, o cara tá preocupado com o caminho que ele tem que pegar. - Eu pensei em um empreendimento que tenha a ver de alguma maneira com o próprio trevo. Nem tanto com a função, mas com a forma e o significado dele.  - Nossa... nebuloso esse seu raciocínio, heim? - Imagina só, já tenho até o nome: "Trevo da Sorte". Uma moderna e vistosa lotérica. Quem trabalha ou mor…

FRANCISCO

Imagem: mercadolivre.com.br

O que o Chico Buarque ouve? O que o Chico Buarque lê? O que e quem o Chico Buarque come? De quanto seria o lance inicial de algumas caspas do homem, colhidas por um garçom na mesa de um café de Saint Germain em um obscuro outono dos anos 90? Para quem seria o seu primeiro pensamento, ao acordar da soneca vespertina após o risoto com tinta de lula regado a vinho? Já teria ele falado com alguma atendente de telemarketing, que esqueceria os gerúndios, gaguejaria e se perderia em seu script ao se dar conta de quem estava do outro lado da linha? Seria PC ou Mac o ambiente onde salvara um primeiro esboço da letra prometida para o Guinga musicar, e fadada à eterna inconclusão? Saberia da existência de uma certa Carolina, de Itaquaquecetuba, que passados tantos anos ainda guarda com ela toda a dor desse mundo? Cerdas duras, médias ou macias, e quantas vezes ao dia? Agora, um pouco de escatologia: seria Chico um praticante da automucofagia? Rimou, mas é de rimas que …

400 MILHÕES DE LIBRAS

Tomo a palavra nesta tribuna para, em nome da nossa comissão, me manifestar a respeito da confecção das cartilhas com o alfabeto Libras - Língua Brasileira de Sinais, popularmente conhecido como alfabeto do surdo-mudo.
Temos hoje no país aproximadamente 2 milhões de indivíduos com deficiência auditiva severa, que não querem e não merecem ser tratados como gente de segunda categoria. Por sua vez, os esforços de inclusão social empreendidos pelo governo vêm privilegiando sobretudo as pessoas com necessidades especiais, merecedoras do nosso respeito e do inalienável direito à cidadania.
Isto posto, decidimos inovar, produzindo algo diferente do costumeiro abecedário dos surdos impressos em grafiquetas de esquina e com aquelas mãozinhas horríveis uma ao lado da outra, mostrando letra por letra. Queríamos algo que de fato prestigiasse a notável e pujante categoria dos surdos, que numericamente justificaria inclusive uma bancada que os representasse no Congresso.
Assim, um lote de cartilhas fo…

A RÚCULA E SUAS DESCONHECIDAS PROPRIEDADES

Parcela do IPVA, água, luz, telefone, escola.
Podia muito bem pagar por internet, caixa eletrônico, débito automático. Mas não confiava em nada disso, gostava mesmo da autenticação mecânica. Ali, preto no branco. Vai que amanhã dá pau geral no sistema, como provar que tá pago?

Pra falar a verdade, nem queria que a fila andasse. Tinha hora no dentista daí a 40 minutos. E sair de um suplício para outro era demais. Um sacrifício pede recompensa, e não mais sacrifício. Boca aberta ao torturante motorzinho, boquiaberto com o buraco no orçamento. Não, não. Ligaria pro consultório, desmarcando.

O saco sem fundo de trabalhar pra ganhar, ganhar pra pagar as contas, pagar as contas pra continuar na estatística dos economicamente ativos. E assim sucessivamente – do mesmo jeito será com seu filho e destino igual terá seu neto, se até lá esse mundinho não explodir numa hecatombe.

Ontem tinha ido almoçar com a Débora. Como sabia esnobá-lo, a cachorra. Ô Débora desalmada. Deixa estar que ainda me vi…