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A RÚCULA E SUAS DESCONHECIDAS PROPRIEDADES






Parcela do IPVA, água, luz, telefone, escola.
Podia muito bem pagar por internet, caixa eletrônico, débito automático. Mas não confiava em nada disso, gostava mesmo da autenticação mecânica. Ali, preto no branco. Vai que amanhã dá pau geral no sistema, como provar que tá pago?

Pra falar a verdade, nem queria que a fila andasse. Tinha hora no dentista daí a 40 minutos. E sair de um suplício para outro era demais. Um sacrifício pede recompensa, e não mais sacrifício. Boca aberta ao torturante motorzinho, boquiaberto com o buraco no orçamento. Não, não. Ligaria pro consultório, desmarcando.

O saco sem fundo de trabalhar pra ganhar, ganhar pra pagar as contas, pagar as contas pra continuar na estatística dos economicamente ativos. E assim sucessivamente – do mesmo jeito será com seu filho e destino igual terá seu neto, se até lá esse mundinho não explodir numa hecatombe.

Ontem tinha ido almoçar com a Débora. Como sabia esnobá-lo, a cachorra. Ô Débora desalmada. Deixa estar que ainda me vingo, ele pensou. E a vingança veio a cavalo, naquele safado PF de padaria. Arroz, feijão, batata souté, salada de tomate e... rúcula.

Sentados à mesa, ela aciona o seu mais radiante sorriso em direção ao carinha da mesa ao lado. Foi quando se deu o desastre: aquele tiquinho de rúcula entre os alvíssimos incisivos. Quanto mais metida e insinuante a darling se mostrava, mais a verdura tornava bizarra aquela diva de subúrbio. Era nojento, constrangedor, hilariante. E a Deborazinha se achando.
Ele regozijava-se intimamente com aqueles míseros milímetros quadrados de rúcula, cujo poder de destruição ecoava por toda a Panificadora Doce Mel.

Contou: 28 à sua frente, sendo 7 office-boys. Aquelas caras de segunda-feira, mesmo sendo uma quinta que anuncia a sexta que traria o redentor fim de semana.

Se estudasse direitinho não estaria ali e não seria o que era. Esse ser de cera, dez horas por dia com o traseiro soldado a uma poltrona de escritório sem apoio para os braços. Essa previdente figura que não sai de casa sem guarda-chuva e talões de zona azul.

A cordinha de nylon a balizar a fila. Em todas as filas, de todos os bancos, a mesma cordinha e o mesmo dim-dom anunciando o caixa livre. Um passo à frente.

Olhou para o cartaz, na parede próxima ao subgerente. Um casal, dois filhos e um cão de guarda simpático, todos transbordando de felicidade graças ao seguro de vida que, além de cobrir morte, invalidez permanente e renda cessante, ainda oferece sorteios mensais de casas, carros e notebooks.

De novo a imagem da Débora, com sua carruagem transformada em abóbora ao meio-dia. Foi-se o encanto, seu sapatinho de cristal virou pantufa de palhaço. A Débora a quem a rúcula tornou ridícula.

Dim-dom. Chegou sua vez.
Olha no crachá da moça: outra Débora. Ela diz “pois não” sorrindo. E sem rúcula nos dentes.




© Direitos Reservados

Comentários

  1. "e a vingança veio a cavalo"... Marcelo você brinca com as palavras e eu brinco com os olhos, ao te ler! Beijo, ótimo post! Estou sorrindo e sem rúcula nos dentes... risos

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  2. André Albuquerque12:15 PM

    ...e a fúria entre os dentes,desmanchou-se no equívoco unívoco(?).Parabéns,a frustração tornada literatura,em excelente narrativa.

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  3. Claudete Amaral Bueno1:45 PM

    Oi! rsssssss

    Fez-me lembrar a história de uma conhecida, que foi c/ uma amiga minha ao ginecologista e, esnobando p/ o médico.....
    um quarentão boa pinta, sorria e falava coisas interessantes, para prolongar o papo.
    Ao sairem, m/ amiga disse a ela: Vc está c/ um fio de couve no dente.....Acabou a graça, o sorriso, a alegria da paquera....
    A acompanhante quase foi asfixiada.....por n/ ter falado antes.....kkkkkkkkkk
    É........as mesmas propriedades da rúcula............
    Bom final de semana!
    Claudete

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  4. Por essas e outras... princesas, carruagens, sem sapatinho de cristal e muito menos príncipes... só mesmo apelando para um "carregamento de rúculas" decoradas artesanalmente com abóboras-carruagens! Dura realidade, sem tempero algum!
    Abraço vegetariano!
    Célia.

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  5. Alessandra Rocha3:14 PM

    Oi, Marcelo!!!
    Boa noite!!!
    Pra variar ADOREI!!! Nossas "humanidades" tão bem expostas na clareza de suas palavras!!! Você é SENSACIONAL!!!
    Tenha um excelente fim de semana!!!
    Abraços, Alê

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  6. Lembrei-me de quando o Poeta disse ao Carteiro “Mais uma Beatrice”.
    Talvez tudo a ver, nem nada também. Pior se fosse uma cárie bem na frente. kkkkk
    Grande abraço, moço inteligente!

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  7. Viajo nessas crônicas. Parecem filmes.
    Como é o poder da imaginação transcrito para o papel, digo, computador...
    Vive se superando.
    Grandessíssimo abraço!

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  8. As Déboras (com ou sem rúcula)zanzaram pra lá e pra cá de um jeito muito natural. Naturalíssimo. Como a vida, tão à vontade, que vai seguindo seu curso e dando rasteiras. Genial a crônica ter captado tudo isso!
    Abração

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  9. Ah, mas está é uma vingança e tanto Marcelo! Eu tenho um texto sobre uma vingança assim (e foi de verdade) em algum lugar do TP. Não sei se era rúcula, mas a engraçadinha que se jogava nos braços do meu par ficou sem jeito e sumiu depois que aprendi a falar que estava com uma verdura nos dentes... Só que no meu caso, não tinha nada, foi um truque de guerra... hahahah. O fato é que é poderoso mesmo, pois a piriguete nunca mais se atreveu a se aproximar, hahahaha. (sabe como é, os pequenos tem que ter alguns truques na manga, hahahah)
    Adorei o texto e a criatividade! Sempre há alguém com um sorriso mais branquinho!
    Beijos!

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  10. Antonio Fonseca3:42 PM

    O fiapo de rúcula no dentinho branco até que dá um equilíbrio bom de cores. Mas outros fiapos (casca de faijão preto, arroz, carne) que não chegam a determinar a necessidade de escovar os dentes, viram "mico" e motivo de zoeira. Há outros fiapos de rúcula em nossas vidas: mau humor, soltar palavrões à esmo, ser mau educado, soltar pum ou arrotar em público, etc. Com todos esses prefiro o fiapo de rúcula nos dentes que sai com escova e pasta dental.

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  11. Pedra do Sertão3:43 PM

    Pior de tudo é estar de aparelho com uma rúcula enganchada nele...um sofrimento...mas que vingança, hein?..

    Abraço do Pedra

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  12. José Carlos Carneiro3:44 PM

    Para tal registro e tendo como pano de fundo a nada ridícula rúcula, o registro de um fato cotidiano tem contornos de ficção, mas abre portas para interpretações no plano da vida real.
    Gostei.

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  13. Marco Antonio Rossi3:45 PM

    boa tarde e uma otima semana.
    Bom memso seria um fio dental.......
    abraço
    Rossi

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  14. Núbia3:46 PM

    Rúcula é ainda mais cheguei que alface, se fosse minha amiga eu avisaria
    mas, enfim, há traumas e traumas.
    Mas não deixa de ser uma pequena vingança.
    Abração Marcelo.
    Ah! É por essas e outras que só mostro meus dentes ao dentista, um micão
    desses eu não pago.

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  15. Risomar Fasanaro3:47 PM

    Pior é quando a gente come um “cheesebourg”, e não consegue controlar o
    , a maionese. Aí não há charme que resita. Por isso é bom ser modesto, não pensar que se é rei/rainha do mundo, porque todos nós estamos sujeitos a uns milímetros de rúcula entre os dentes…rs. Beijos

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  16. Jorge Sader Filho3:47 PM

    Mas que este raio de inconveniente acontece mesmo! Pior quando é feijão…
    Nojento!
    Abraço, Marcelo.
    Jorge

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  17. Sarita Barros4:00 PM

    Marcelo!
    Que rúcula danadinha, acho que era um rúcula macho, pra queimar assim de forma tão horripilante, o filme da pobre Débora...
    Parabéns!
    Um abraço,
    Sarita.

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  18. Mara Narciso4:02 PM

    Doce vingança. Acontece mais com a couve, mas com rúcula ficou mais ridículo e sonoro. Eu tive que rir.

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  19. Maria Inês Prado5:10 PM

    Marcelo,
    Para evitar incidentes como esse que vc. relata com maestria (rs) é que muita gente passa “fome”, quando está longe do crítico imparcial e verdadeiro – o espelho. Mas, como comentou alguém lá em cima, prefiro fiapo de rúcula a outros fiapos que tornam impotente qualquer fio dental…
    Abraço.

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