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ZAPPING


Imagem: wikimedia commons


Hora de pensar, pensar. Hora de não pensar, ligar a televisão - essa fabulosa caixa hipnótica. Aperte o power do aparelho e acione o off do cérebro. Renda-se ao vício paralisante, entregue-se ao esvaziamento mental.

Mas a culpa não é toda da TV em si. Há todo um clima ao redor que induz ao não-pensamento: o cobertor e sua pelúcia acolhedora, a meia-luz do ambiente, a musculatura relaxada - tudo isso junto já é um pré-estado Alfa. Uma vez nesse estupor, é assistir ao desfilar de pastores em seus púlpitos, calouros se esgoelando, falsas loiras saracoteando seus predicados de silicone. Sem falar dos televendedores, a uma velocidade de oitocentas palavras por minuto, madrugada afora apregoando de títulos de clube a aparelhos ortodônticos.

Mas o ritual nem sempre foi assim, indolente e passivo. Tempo houve em que era preciso ginástica para gozar das delícias televisivas.
Quando a TV não pegava, os fantasmas apareciam ou os chuviscos aumentavam, deflagrava-se uma complexa operação que envolvia no mínimo duas pessoas. Uma plantada em frente à caixa, a outra virando o cano da antena, no quintal da casa.
- Melhorou?
- Não!
- E agora?
- Continua ruim.
- Assim tá melhor?
- Espera um pouco...volta pra onde estava antes.
- Assim?
- É.

Dois artefatos, hoje em desuso, orbitavam em torno dela: o conversor de UHF e o regulador de voltagem, também conhecido como transformador. Controle remoto não tinha. Nem precisava - eram só cinco as opções disponíveis. A então TV2 Cultura (canal 2), a Tupi (canal 4), a Globo (canal 5), a Record (canal 7) e a Bandeirantes (canal 13).
Com o advento do cabo e das miniparabólicas, a ordem é zapear. Então...

(zap)
Você pode perder até seis quilos em duas semanas. E não é só isso: fazendo agora seu pedido você ainda ganha este maravilhoso...
(zap)
- Mas me diga uma coisa, dona Antonieta. E agora, como é que está sua vida hoje?
- Ah, hoje o meu lar é abençoado. Como do bom e do melhor, tenho 2 padarias, 3 postos de gasolina...
(zap)
- Chegou a hora de você saber de toda a verdade.
- Onde é que você está querendo chegar? Do que você está falando?
- Maria Helena... Maria Helena... é sua filha!
(zap)
Só seis parcelinhas de setenta e quatro e cinquenta, no cartão.
(zap)
Ohhhhh yes.... ohhhhh... hum, hummmm... oh yeeeeeeessss... ahhhh!!!!
(zap)
Foi sem querer querendo!
(zap)
Daqui a pouco a gente volta. Não sai daí.

1284 zaps depois...
Os olhos pesam, a cabeça pende molemente para o outro lado da almofada. A mão deixa cair o controle no chão. Aí você acorda, assustado com o barulho. Desliga a TV, apaga a luz, se ajeita sob as cobertas. Tarde demais: o sono se foi. Enquanto ele não volta, você liga a televisão.




© Direitos Reservados

Comentários

  1. Elizete Lee5:34 AM

    Putz! lembrei da minha velha tv. Ela quando pegava bem a imagem, o som desaparecia! Era um tormento, porque a gente queria ver o Bonanza ou o Gasparzinho.
    Hoje em dia tá difícil passar mais que dois minutos ouvindo aquele som repetitivo dos programas inúteis.
    Parabéns pelo ótimo post.
    Abs.

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  2. A tv é milagrosa às vezes. Fazem nosso tico e teco descansarem. Outras tantas, fazem os dois ficaram alarmados... eu amo novelas, justamente por essa capacidade: viajar em tempos e lugares diferentes. Em vidas diferentes da minha. Adorei a crônica, querido. Nunca estarei OFF desse seu espaço! Boa páscoa!!

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  3. Carlos Edu Bernardes10:24 AM

    No ponto, Marcelo!

    E nos primórdios a gente (molecotes danados) chegava nos vendedores do Ponto Frio Bonzão ou de outra loja de eletrodomésticos e perguntava: tem televisão colorida?
    - tem!
    - então deixa eu ver uma azul? kkkkkkkkkk ( e saía correndo da loja).

    (~()

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  4. Jorge Sader Filho10:25 AM

    Já me distraí muito vendo a “Corujinha da Madrugada”, passava bons filmes.
    “Um corpo que cai”, “Paris está em chamas?”, “Fugindo do inferno” e tantos outros…
    Boa lembrança, Marcelo.
    Feliz Páscoa. Abraço.
    Jorge

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  5. Estar divagando por esse território, quando quero sentir efeitos esclerosados... é onde me aventuro na boemia de uma insônia atrevida! E, um detalhe: quando criança... a TV era a do vizinho... bem depois é que tive a 'honra' de ficar virando e revirando o cano no quintal para uma imagem melhor... Ah! Um detalhe: - bom bril na ponta da antena... mais um mito!! Mas, ninguém era obeso!! Hoje, com todas as diversidades tecnológicas ainda reclamamos... Mas, claro!! A qualidade sequer como sonífero é indicada! Pasmem!
    Abraço. Feliz e Santa Páscoa... com HD Max!!
    Célia.

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  6. Hoje em dia com “trocentos” canais a sua disposição, estabelece-se o domínio com aquele que primeiro pegar o controle remoto, sendo assim, geralmente a sala esvazia-se.
    Confesso que já perdi muitas noites de sono só para poder ver aquele clássico do cinema…
    Abração Marcelo.

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  7. José Carlos Carneiro7:02 AM

    Parece-me que essa sua crônica foi escrita já a algum tempo. Isso não importa, pois é ótima e reflete de verdade uma realidade que você simula ter vivido e explorou muito bem, mas se aplica a muita gente, inclusive a mim.

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  8. Descrição perfeita, Marcelo, do que é e foi essa porcaria de TV, não há um só canal digno de ser visto. Meu abraço.

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  9. Marcelo, você maravilhoso quando quer ler a vida alheia por trás das suas teclas...(zap)
    Na minha infância colocávamos bombril quando chuviscava...(zap)
    é por isso que tem tanta gente gorda, não levanta nem para mudar o canal...(zap)
    Também, com tanta gente bonita nas programações, quero ficar igual...(zap)
    tá tudo igual mesmo, qualquer canal e pura porcaria...(zap)
    porcaria é a sua mãe, sua vaca, eu vou dá na tua cara...(zap)
    Abaixo o preconceito, fora deputado enrustido...(zap)
    inédito! morreu entalado com uma cenoura no ra.. no rasgo (zap)
    calada...(zap)

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  10. Marco Antonio Rossi4:52 PM

    meu amigo, FELIZ PASCOA!!!!!!!
    sempre uso o zap para dormir mais rapido, com a tv do quarto.
    sua cronica lembrou minha ação para dormir com a tv em ação.
    Abraço
    Rossi

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  11. Edson Maciel4:57 PM

    Muito legal o texto Marcelo.

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  12. Risomar Fasanaro4:58 PM

    Nossa!…Parece até que fui eu que escrevi esse texto. toda noite o ritual é esse…
    Adorei!
    Beijão

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  13. Meu caríssimo amigo, hahaha, zapear é a moda... Ainda me lembro de quando lá em casa tinha uma Telefunken e eu e meu irmão ficávamos uns 3 minutos esperando as válvulas se apagarem... E quando dava 21h, 21:30H vinha o "Já é hora de dormir, não espere a mamãe mandar..." Parayba... Ainda tenho as mantinhas... Ah... Mas esta história de lavagem cerebral e de zapear é um problema sério aqui em casa. Eu tenho minha lei. Minha tv vem equipada de controle remoto, algemas e uma espingarda! Sim... Prendo o Szafir na cama, e ameaço quem mais ousar entrar no quarto com a espingarda, assim, posso assistir um programa INTEIRINHO, acredite! Verdade escrita aqui: http://desejosdaclaudinha.blogspot.com.br/2011/05/oh-lord-wont-you-buy-me.html

    Beijos, ótimo texto, como sempre!

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  14. Antonio Fonseca4:46 PM

    Quando a televisão chegou lá na minha terra, me pegou de calças curtas e com 9 anos. Era na televisinha, pela janela, que víamos gente naquele caixote. Só se conhecia o caixote que falava e já me deixava intrigado: como caberia um homem ali dentro? Agora: como cabe tanta gente nesta caixa? E sonhávamos noites a fio. Hoje as novidades são feijão com arroz e não fazem sonhar. Obrigado Marcelo, você transportou meus pensamentos para o ano de 1957.

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  15. Gina Soares4:47 PM

    Era isso mesmo…
    E nos, 7 irmaos, brigando pra sentar bem na frente da televisao… Era um pri, si, ter…. Rsss pra ver a ordem dos lugares… E riamos, brincavamos e nos divertiamos muito… Com programas inocentes, efeitos especiais nao tao especiais assim… Mas o que recebiamos de informadoes e entretenimento, deixava nossos pais tranquilos..
    Hoje, tem zilhoes de canais, sim, mas meia duzia deles apenas, oferecem bons produtos, que nao sejam so induzir a comprar, a dancar vulgarmente, a chamar todos os tipos de palavroes, a ver jovens bebendo e se vulgarizando em rede nacional.
    Excelente texto…
    Bjs

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  16. Bernadete4:48 PM

    Que belo! Foi uma viagem a um passado (não muito remoto! rsrs), quando na minha cidade só havia 5 televisões, sendo uma a do meu tio avô! Todas as noites era o mesmo ritual: o Dico, cozinheiro do meu tio, em cima do telhado girando a anteninha!…
    Zapping! Os tempos mudaram. Ou foi o canal?!…
    A vida não se repete, nem permanece como antes!
    Parabéns pelo texto!

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  17. André Albuquerque4:53 PM

    Excelente, mostra o que fizemos com a TV e a sua retribuição, narrado com maestria e inteligente humor. Parabéns, Marcelo.

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  18. Maria Adélia Horvath4:53 PM

    Muito bom!

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  19. Maria Inês Prado1:21 AM

    Ótimo, Marcelo! Bem realista! Sem falar que o controle remoto é o grande vilão, responsável pelo sedentarismo. Aliás, como você bem lembrou, a regulagem da antena (quanto sobe-desce do tenhado!), a mudança de canais etc. já eram exercícios suficientes para se dispensar academias (elas proliferaram graças à tecnologia…). Agora, a TV é ópio e o controle, despertador, pode?
    Abraço.
    M. Inês

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  20. Claudete Amaral Bueno1:22 AM

    Parabéns!!!!!
    Vc descreveu magistralmente tanto a TV, como o que acontece c/ os telespectadores.....kkkkkkk
    É isso aí.......
    Abraços,
    Claudete

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  21. Este comentário foi removido pelo autor.

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  22. Alessandra Leles Rocha1:24 AM

    Oi, Marcelo!!!
    O que dizer sobre seu texto?
    Cabecinha privilegiada você tem e de onde surgem ideias SENSACIONAIS; então, qualquer comentário meu torna-se bobagem, pois já me tornei fã de carteirinha do seu trabalho literário.
    Tenha uma semana GENIAL, de muito mais inspiração, ok?!
    Bjocas da amiga,
    Alê

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  23. kkkkkkkk
    Nossa!! Era desse jeito mesmo, era um processo... Lembro que na minha cidezinha ainda não tinha TV a cores mas colocavam uma "coisa" encaixada nela, (era tão pequena que não lembro o nome que davam aquele objeto plano) de cor azul, verde, qualquer cor e assim a TV ficava com cor, uma única cor, mas tinha cor... Viajei e dei muita rizada lendo vc Marcelo. Bom demais da conta!!! Beijos!!

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  24. Quanto ao zap, zap até dormir, isso não funciona comigo, nem tenho TV no quarto. Quando vou para o quarto com certeza não é pra ver televisão. Gostei tanto que comentei duas vezes rsrs. Abraço!

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  25. Mara Narciso1:47 AM

    Desse mal não me queixo. Larguei de ver TV há treze anos. Troquei-a pela internet. Só ligo na Band News durante o almoço, e já está suficiente. Quanto ao sua abordagem do "problema", faço gosto em lê-la. Faz um bem!

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  26. Experiência de viagem recente... a abstinência de zapear faz um bem danado pra cachola! Abstinências que de verdade me incomodam são a falta de Coca, carne bovina e textos do amigo, gênio, MPS.

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  27. Saudade do tempo quando assistir à TV tinha caráter de solenidade! Causava pasmo pelo desconhecido! Hoje ela faz parte do mundo onde pensar virou atividade anacrônica. Pensar pra quê? Adorei o texto, Marcelo! Abração.

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  28. Muito boa crônica! Acho que estou ficando velha, basta-me dois piscar de olhos e já desmaio, outro sintoma da idade é que a TV não me atrai do mesmo modo rss... em casa tinha uma TV laranja - imagem em preto e branco rss... Gostei bastante da leitura!

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