Pular para o conteúdo principal

DUBLÊ DE SÓSIA


wikimedia commons



Encontra-se oficialmente aberto o inquérito para apuração de crime de falsidade ideológica contra Joseph Klariston Jr., o lendário tintureiro de Baltimore e uma das glórias do Estado de Maryland.

O escândalo veio à tona no auge da popularidade de Klariston, com sua imagem ostensivamente estampada em capas de revista, comerciais de sabão em pó e colunas de fofocas de celebridades. As suspeitas de falsidade ideológica ganharam força com a constatação de aparições simultâneas de Joseph em eventos e países diferentes, o que levou evidentemente à hipótese de que o tintureiro, além de hábil em multiplicar sua fortuna, seria também perito em multiplicar a si mesmo. As investigações se aprofundaram a ponto de Klariston não conseguir mais negar as evidências, declarando-se réu confesso em entrevistas recentes.

Entenda melhor o caso
O estrondoso sucesso mundial de suas singulares técnicas de lavar, passar, tirar manchas de WD40 e restaurar botões de madrepérola fora de linha de produção renderam a Klariston uma notoriedade acima da sua capacidade de comparecimento a coletivas de imprensa, palestras e talk-shows. Daí para o delito foi um passo. Ele conta: "Comecei com os sósias, que nos primeiros anos eram só uns quatro ou cinco. O assédio da mídia e os convites não paravam de aumentar, e fui forjando mais e mais sósias. Cheguei a abrir uma fábrica de sósias própria, em um alojamento subterrâneo no deserto do Atacama, a meu ver o lugar mais insuspeito para algo do tipo. Assumi um layout de rosto e de vestimentas bastante básico e fácil de reproduzir, para ajudar na falsificação. O trabalho maior era treinar os sósias na impostação correta de voz e nas respostas que deveriam dar aos repórteres. Mas caí em desgraça quando propaguei, por meio de minha assessoria, a técnica de criar ombreiras em blazers com ar comprimido, no lugar da tradicional espuma comumente empregada. Ao divulgar essa novidade, meu sucesso se multiplicou e vi que os sósias, somando então 494 nos cinco continentes, continuavam sendo insuficientes. O tempo de criar mais algumas centenas me era escasso, e decidi pela produção em massa de dublês dos sósias. Os dublês eram uma espécie mais tosca de imitadores, sem a desenvoltura dos sósias mas suficientemente adestrados para acenarem ao público sem levantarem suspeitas. Só que acabaram levantando, infelizmente. Não obstante toda essa loucura em que me vi envolvido, jamais descuidei da segurança de minhas cópias. Cheguei ao ponto de encomendar um Klariston-móvel, para que os dublês de sósia pudessem se locomover pelas multidões ensandecidas sem o risco de atentados, já que a fama do nome Joseph Klariston Jr. ganhou uma dimensão assustadora e completamente fora do meu controle."

Indagado a respeito de uma mesa redonda realizada quando de sua visita ao Brasil, na qual dividiu a participação com outros famosos - entre eles Tom Zé e Silas Malafaia, o indiciado afirmou que, na ocasião, ele era ele mesmo. Segundo Klariston, o evento teve transmissão ao vivo para vários países, e o deslize de um sósia poderia ser fatal para a sua até então imaculada reputação de tintureiro.


© Direitos Reservados

Comentários

  1. Lavei. Passei. Guardei cada sósia em sua devida gaveta... pois dizem por ai que 'eleições' só em 2014 ... mas aos quatro cantos já se ouvem 'estratégias' de estrategistas Ph.D. no assunto... Então meu caro, 'barbas de molho'... uma vez que sequer tintureiro sou!
    Abraço.
    Célia.

    ResponderExcluir
  2. Marco Antonio Rossi3:01 PM

    Bom final de semana, meu amigo.
    espero que o tintureiro não se encontre com o Zeca Pagodinho. Poderiam considerar caso devassa......
    Abraço
    Rossi

    ResponderExcluir
  3. Queria ter uma sósia... seria bom dividir "tarefas", nunca tristezas. Beijo, querido!

    ResponderExcluir
  4. Cristini11:50 PM

    Já dizia nosso participante da tal mesa redonda…
    Eu tô te explicando
    Pra te confundir
    Eu tô te confundindo
    Pra te esclarecer…… Tô música de Tom Zé!

    ResponderExcluir
  5. Jorge Cortás Filho11:50 PM

    Caramba! Eu quietinho aqui e não sabia nada disso!
    É clone demais. Se a moda pega… Nada não.
    Efeito ‘Coréia do Norte’.
    Abraço mestre Marcelo,
    Jorge

    ResponderExcluir
  6. Ele poderia ter feito melhor, já que o problema não era a grana mas sim o excesso de compromissos, iria num desses estúdios cinematográficos e encomendaria com o
    mestre dos mestres Steven Spielberg umas cópias bem feitas, dessas a base de silicone. O inconveniente seria pedir que a cópia falasse, aí meu amigo…

    ResponderExcluir
  7. Claudete Amaral Bueno3:26 AM

    Oi!
    Nem o Silas Malafaia escapou dessa vez, hein? Vc é fogo!!!!!!!!
    Muito bom! Parabéns!
    Abraços,
    Claudete

    ResponderExcluir
  8. Clotilde Fascioni7:09 AM

    Adorei amigo. Abraços

    ResponderExcluir
  9. Nossaaa! Mas que confusão de gente inventada à rascunhos permanentes mimeografados, siô!Dá para tirar xerox desses dublês, ou não!?

    ResponderExcluir
  10. Sarita Barros5:55 PM

    Marcelo,
    esse teu Joseph Klariston até parece marido tentando pular várias cercas em uma cidade pequena...
    Abraço.

    ResponderExcluir
  11. Ah Marcelo, eu sou meio desconfiada (sou mineira, né?) com esta história de sósias e dublês... Vai que um sósia acaba sendo melhor que o original! Mas creio que o nosso amigo deve ter lavado à pedra todos os vestígios. Ainda bem que aqui no Brasil ele não usou seu sósia paraguaio, senão ia ser complicado!
    Haja imaginação!
    Um beijo!

    ResponderExcluir
  12. Lisette Feijó1:56 AM

    Interessante, boa semana abraço Lisette.

    ResponderExcluir
  13. Ele teria feito um sucesso ainda maior se tivesse usado sua capacidade de criar sósias aqui no Brasil durante a ditadura militar. Teria deixado os generais doidos, sem saber a quem prender. Meu abraço.

    ResponderExcluir
  14. José Carlos Carneiro5:42 PM

    Caramba! Esse foi um finório em angariar fama e fortuna na maior picaretagem. E mereceu, pois para sobreviver ao inóspito e árido clima do Atacama, só mesmo tendo saúde de ferro e cara de pau.
    Um abraço.

    ResponderExcluir
  15. Risomar Fasanaro5:43 PM

    Com sua crônica, descobri porque ando na rua e acho todo mundo
    > igual...Obrigada, Marcelo. Esse era um problema que vinha há muito
    > me intrigando: Nunca sei quem é Marisa Letícia, quem é Martha
    > Suplicy...e as moças? todas com o mesmo cabelo, a mesma cara, as
    > mesmas pinturas de unhas...Você me ajudou muito com essa crônica.
    > Agora já sei de onde vem esse povo...

    ResponderExcluir
  16. Antonio Fonseca2:47 AM

    Se o Malafaia ler esta crônica vai mandar fazer milhões de cópias de si mesmo. Já pensou? Ele sozinho vende, por dia, de 4 a 5 mil frascos do Spray da solução “Espanta Capeta”, a 10 reais o frasco. Imagina suas cópias?! Não espalha.

    ResponderExcluir
  17. Mara Narciso5:30 PM

    Deu medo da fama e do fato de alguém se tornar celebridade. Tão perfeito o andamento do seu texto, que se entra nele,de tal forma que o protagonista original se veria nele e se reconheceria. Muito gostoso de ler. Ao final emiti um aahh que pena!!!

    ResponderExcluir
  18. Alessandra Rocha6:07 PM

    Oi, Marcelo!!!
    Bom dia!!! Como sempre um texto de pura criatividade a flor da pele!!!
    Excelente semana!!!
    Bjos., Alê

    ResponderExcluir
  19. Acredito que pegaram essa ideia aqui no Brasil faz tempo, só que ainda não descobriram pelo fato de que os sósias daqui tem atitudes iguais, mas aparências diferentes. Esperteza do brasileiro. Beijo, Marcelo!

    ResponderExcluir
  20. Celi Estrada5:30 PM

    AH! H! AH! TOM ZE E SILAS MALAFAIA ???
    Celi

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A CAPITAL MUNDIAL DO BILBOQUÊ

Para os menores de 30, é natural não conhecê-lo. Então comecemos por uma sucinta porém honesta definição.

Bilboquê: originário da França, há cerca de 400 anos, foi o brinquedo favorito do rei Henrique III. Consiste em duas peças: uma bola com um furo e um pequeno bastão, presos um ao outro por um cordão. O jogador deve lançar a bola para o alto e tentar encaixá-la na parte mais fina do bastão. (fonte:www.desenvolvimentoeducacional.com.br).

Mais do que um brinquedo, Bilboquê é o nome de uma cidade, localizada a noroeste da pacata estância de Nhambu Mor. Chamada originalmente de Anthero Lontras, foi rebatizada devido ao número desproporcional de habitantes que fizeram do bilboquê a razão de suas vidas, dedicando-se ao artefato em tempo integral (incluindo-se aí os intervalos para as necessidades fisiológicas).

A tradição se mantém até hoje, ganhando novos e habilidosos adeptos. Nem bem raia o dia na cidade e já se ouvem os toc-tocs dos pinos tentando encaixar nas bolas. Uma distinção se…

SANTA LETÍCIA

Letícia, em seu compartimento estanque, se bastava. Vivia debaixo de uma campânula guardada por um querubim estrábico, numa imunidade vitalícia às dores do parto, à lavagem da louça, às filas nas repartições e à rabugice dos maridos sovinas e dominadores. “Façam o que quiserem, contanto que poupem a Letícia” era o veredito invariável sob qualquer pretexto e em qualquer ocasião, naqueles sítios de lagartos e desgraças.
Nada que se comparasse àquela que chamavam de Letícia, e que raras vezes se afastava de seus cães e de sua coleção de abajures. Era o tesão das rodas regadas a cerveja. Era a inveja e o assunto nos salões de beleza. Era o exemplo de virtude no sermão do padre, que botava as duas mãos no fogo do inferno e uma terceira se tivesse pela sua inteireza de caráter.
Assim a vida corria daquele jeito de costume, com a cidade a lhe estender tapetes, a lhe levar no colo e a lhe cobrir de afagos, soprando-lhe o dodói antes que se machucasse. Passou a ser o tema das redações escolares …

ESTRANHA MÁQUINA DE DEVANEIOS

Habituais ou esporádicos, todos somos lavadores de louça. Lúdico passatempo, esse. Sim, porque ninguém vai para a pia e fica pensando: agora estou lavando um garfo, agora estou enxaguando um copo, agora estou esfregando uma panela. Não. Enquanto a água escorre e o bom-bril come solto, o pensamento passeia por dobrinhas insuspeitas do cérebro. Numa aula de história, em 1979. O professor Fausto e a dinastia dos Habsburgos, a Europa da Idade Média e seus feudos como se fosse uma colcha de retalhos. O Ypê no rótulo do detergente leva ao jatobazeiro e seu fruto amarelo de cheiro forte, pegando na boca. Cisterna sem serventia. Antiga estância de assoalhos soltos. Rende mais, novo perfume, fórmula concentrada com ação profunda. A cidade era o fim da linha, literalmente. O trem chegava perto, não lá. Trilhos luzindo ao meio-dia. Inertes e inoperantes. As duas tábuas de cruzamento/linha férrea dando de comer aos cupins. Crosta de queijo na frigideira, ninguém merece. Custava deixar de molho? A…