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QUE DESELEGANTE



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- Óia, exprica direito essa história aí pra mim.

- O senhor tem que transmitir um certo verniz cultural, compreende? E no caso é só um verniz mesmo, porque a madeira... é de caixote de verdura...

- O quê?

 - Nada não, pensei alto. Sorry.

 - Ah...

 - Vejamos, vamos começar com a literatura. Aqui nesta parede da sala podemos providenciar uma estante bem grande. Na prateleira mais visível precisamos de pelo menos uns 80cm de lombadas de Guimarães Rosa, mais um outro tanto de Machado e uns 50cm no mínimo divididos entre Drummond e Pessoa.
 - Mai que diacho de pessoa é essa aí que a senhora falou?
 - Para os russos, seria de bom tom reservar uns dois metros ou mais de Dostoievsky, Tolstói e Tchekov. Todos com lombada bem vistosa, clássica, se possível livros bastante manuseados - pra dar um ar de intimidade do proprietário com as obras-primas. Conheço um sebo que vende esse tipo de livro para decoração e cenário de novela.

- Cerrrrrrrto.

- Fique tranquilo, pois os meus serviços abrangem a busca de conteúdo atualizado, para que o senhor fique inteirado de tudo o que acontece no circuito cultural - literatura, música, artes plásticas e assim por diante. Eu vou encaminhando as novidades em pequenos tópicos, para que o senhor as assimile e tenha suficiente repertório para não passar vergonha nas rodas de intelectuais. Trouxe um aqui um exemplo, veja só: "Vocês não acham que o último CD da pianista Maria João Pires obscurece os dois anteriores?"

- Ah, esses aí eu cunheço!! João e Maria, aqueles doi menino da casa de doce...

- Bem, continuando as orientações. O senhor tem que falar as frases que enviarei e desaparecer rapidinho, porque se alguém resolve lhe fazer uma pergunta as consequências podem ser desastrosas. O procedimento seria mais ou menos assim: o senhor lança uma determinada questão de natureza filosófica ou artística e o pessoal da roda, além de se admirar com sua cultura, vai querer deitar erudição para não ficar por baixo. E aí, enquanto eles se engalfinham, um querendo falar mais que o outro, o senhor dá uma desculpa e se retira discretamente. Entendeu?

- Entendeu.

- Agora, tenha a bondade de prestar atenção aqui, na tela do meu notebook.

- Ô, mai o rapai que fez essa escurtura aí foi se inspirá no hospitar. Ó só, essa muié aí tá com os braço amputado e a outra muié do quadro tá com o pé que parece uma jaca. Vai vê que que é ácido úrico, só pode sê, pra ficar com os pé desse tamanho...

- Oh, my God.

- Cumé?

- Meu senhor, a escultura é a célebre Vênus de Milo e o quadro é o Abaporu, obra máxima da Tarsila do Amaral.

- Uia, é memo? E tem quem compra esses estropiado aí? Ou então vai vê que na escurtura da muié fartô pedra, por isso a coitada ficô sem os braço. O escurtô carculô mar.

- Vamos fazer do senhor um apreciador de óperas, um entusiasta da cena lírica. Ou, pelo menos, fingir que é. Ser amante de ópera é omust, meu caro. Ouça um trecho de “La Bohème”, para ir se familiarizando.

- Eita berreiro disgramado! Parece leitoa no abate essa dona aí. Esganiça forrrrrrrte.

- Mas que deselegante. Please, contenha-se.

- Priss?? Eita...




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Comentários

  1. Manhãs de sábado reservo-as para lê-lo Marcelo! Realmente, a cada texto, novas emoções, risadas e a certificação de suas excelentes obras! É, sem dúvida alguma, um feliz momento. Obrigada.
    Abraço, Célia.

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  2. José Carlos Carneiro1:53 PM

    Eu não havia imaginado um bate bola entre um letrado e culto e um caipira, ou capiau, ou coió, ou jeca. Saiu melhor do que a encomenda, se tal lhe fosse pedida.

    Aproveito o embalo, já que você colocou um matuto na crônica, para contar uma historinha.
    Uma caipira ganhou um smartphone em um sorteio. Perguntaram para ela o que faria com ele.
    - O fone vai ficar para mim e o ismarti vou dar pra minha irmã cuidar dazunha.
    Um abraço

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  3. Carlos Aliperti2:10 PM

    Grande Marcelo, tudo bem?

    Tenho lido no A Cidade os seus textos e, como de costume, inteligentes, divertidos e muito bem sacados.

    É interessande a sensação de você estar tão perto e, ao mesmo tempo, tão longe.

    Continua como redator publicitário? Tem visto o Orlando?

    Fico por aqui e espero que continue aqui na "Cidade" por muito tempo.

    Forte abraço,
    Carlão

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  4. José Hamilton Brito3:38 PM

    Olha, pelo menos o capiau falaria algo possível de ser entendido. Já pegou um marchand pela frente? Nossa, é coisa mandada. Algo como :pouco me importa que a sêmola claudique, o que me apraz é acicatá-la.
    Se altou pedra para o braço da Vênus, fatou pedra para o pênis da maioria das estatuas daqueles …

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  5. O abestado ai, ganhou sozinho na mega-sena acumulada há meses, e agora quer inaugurar a mansão, é??
    Oh, Marcelo. Tenho um monte de livros aqui, coloque-os aí na lista do tatu-peba, quem sabe eu não acerto a minha situação através desse cabra!

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  6. Aqui, nas alagoas, o povo diria "eitchaa"... risos... cultura pode até ser comprada, mas sensibilidade não... amei, como sempre! Beijão!

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  7. Alessandra Rocha11:56 PM

    Oi, Marcelo!
    Mais um mergulho profundo pelas entrelinhas do seu trabalho SENSACIONAL!
    É! Nosso país caminha pelo "verniz"! Tudo tão superficial, tão insustentável,... especialmente no que diz respeito à educação, à cultura, à formação intelectual do cidadão.
    Parabéns por mais esse EXCELENTE texto!!!
    Com votos de uma semana bastante produtiva!!!
    Abraços,
    Alê

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  8. Claudete Amaral Bueno11:56 PM

    Marcelo:
    Sempre é gostoso apreciar a sua imaginação....
    Mas acho que com esse capiau aí.....desse mato n/ sai coelho, não!
    Feliz Dia das Mães, p/ as mães ao s/ redor......
    Um abraço,
    Claudete

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  9. Jorge Cortás Sader Filho12:00 AM

    Acho que estou reconhecendo este cara. Não foi ocupante de @&#% e anteriormente era ‘dos metal’? Ahhhhhhh! Esquece, Marcelo…
    Mas o abraço vai sim senhor!
    Jorge

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  10. Paulo Tácito12:01 AM

    - Por acaso Vossa Senhoria aprecia Vitor Hugo…
    -Por favor, aceito uma asinha….

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  11. Esse texto foi um deleite! Sem dúvida que Drummond, Rosa, Tarcila e todos os outros apareceram para aplaudi-lo! Parabéns, grande Marcelo!

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  12. Djanira2:22 PM

    Obrigada Marcelo, bom domingo.
    Djanira Pio.

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  13. Este comentário foi removido pelo autor.

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  14. Ah, meu caro amigo, conheço um monte de gente assim... A única coisa boa é que eles proporcionam a seus filhos o estudo, e se orgulham disso. Mas , os que conheço, apesar de ter tudo do bom e do melhor curtem mesmo é uma boa fazenda, muito gado de raça e de vez em quando hospedam uns cantores famosos... É mais ou menos assim, cada um na sua e os intelectuais sem grana que se lixem...
    *E para te falar a verdade, eu adoro ópera, choro quando ouço e chorava quando estudava no conservatório, me emociono muito com algumas (não com esta), e acho bem feios os quadros de Tarsila... Não compraria.
    Beijo!

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  15. Risomar Fasanaro5:16 PM

    Maravilha...Quantos por aí só leem a "orelha" dos livros, e passam
    por intelectuais, hein, Marcelo? Beijos

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  16. Maria Inês Prado5:18 PM

    Como sempre, sua criatividade me deixa pasma. Ah, se essas obras
    soubessem que ainda ecoam até hoje, mexendo com nossos neurônios,
    ficariam "inchadas".
    Abraço.

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  17. Fernando Dezena5:20 PM

    esse “eita” ficou muito bom kkkkkk

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  18. Sorry, mas capiau não sabe lidar com emergente, Marcelo”. Meu abraço.

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  19. Clotilde Fascioni5:22 PM

    Assim ficadifici mofio. Muito bom Marcelo, muito bom. Abraços.♥

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  20. Marco Antonio Rossi5:25 PM

    Boa tarde e uma otima semana.
    Tadinho.... quase ignorante.....faz parte da boa política educacional do governo.....
    abraço
    Rossi

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  21. Doroni Hilgenberg5:46 PM

    adorei o texto, metade do mundo esta envernizado!!!!

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  22. Elizabeth8:13 AM

    Marcelo, muito bom!
    Texto cativante e muito bem escrito.
    Abraços!

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  23. Clauduarte Sá4:20 PM

    Excelente, leve e muito bem humorada, muito bom, como sempre meu amigo Marcelo...
    Um grande abraco, sucesso
    ClauduArte Sa

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  24. Mara Narciso4:22 PM

    Caso perdido. Só se nascer de novo, para as artes. O entendimento dele é outro. O diálogo está autêntico.

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  25. Antonio Fonseca11:12 PM

    > Sua crônica me fez lembrar a conversa que tive com o Carlos Lúcio
    > Gontijo (jornalista, poeta e escritor), nesse fim de semana. É que
    > ele assumiu a Secretaria de Cultura do município onde mora e todos
    > seus superiores e iguais são como esse capiau aí. Daí ele me
    > perguntou: "Fonseca onde que fui amarrar a minha égua?"

    ResponderExcluir
  26. André Albuquerque11:16 PM

    Com uma assessoria dessas , só faltou mesmo virar colunista do New
    York Times,kkkk , (in) devidamente copidescado.Parabéns, forte abraço.

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  27. O pé de jaca do Abaporu fez este macaúbico desabar em deselegantes gargalhadas! Tarsilicamente genial, Marcelo.

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  28. Wagner Bastos4:58 AM

    Pior é que isso é verdade....hahahaha...boa Marcelão!

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  29. rssss, muito bom, hilário! Pobre da obra...
    Esbanjando criatividade.

    Abraços!

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