Pular para o conteúdo principal

VELA DA VIDA TODA


wikimedia commons





Existe uma tradição católica cultivada não sei onde, nem desde quando, mas existe. A vela de toda a vida: uma mesma vela acompanha o fiel desde o batismo até o velório, passando pela primeira comunhão, o crisma, o casamento, a unção dos enfermos. Concluída cada uma destas cerimônias, ela é apagada e guardada em casa, à espera do próximo uso, até que sua chama seja extinta em definitivo junto com o seu dono.

Bela tradição, de profunda simbologia: a mesma chama se renovando nos momentos decisivos da existência. Mestre Duña, o avatar da sabedoria suprema, enumera alguns possíveis desdobramentos - do fato e, literalmente, da vela, já que ela muito provavelmente trincará em vários pedaços e não estará mais parando em pé ao fim da vida do marmanjo.

No batizado, ao lado do padre, o padrinho segura a vela. Este sofre de Mal de Parkinson. É a primeira de uma série de fissuras no ainda reto bastão de parafina.

Mestre Duña adverte que há de se fazer uma ressalva que precede o batizado do cristão. Em caso de parto difícil, se acenderem uma vela nas vigílias de oração, é essa que valerá oficialmente como sendo a vela da vida do rebento, pois foi acesa por intenção dele - que para todos os efeitos já era um filho de Deus, mesmo estando ainda na barriga da mãe.

Crisma. Sendo a confirmação do batismo, acaba também confirmando a sina da vela rachada. Ela ganha novas fissuras quando o crismando a usa para bater na mão de um colega de sacramento, que inventou de fazer chifrinho sobre sua cabeça na hora da foto da turma.

Casamento. O padre se excedeu na homilia e deixou a vela acesa além da conta, consumindo quase a metade dela. O noivo, que a segurava, derrama um charco de parafina líquida nas mãos da noiva, quase na hora de colocar a aliança. A noiva morde o véu para não gritar de dor, mas num sofrido espasmo dá com o cotovelo na vela, que vai ao chão junto com o buquê de flor do campo.

Um belo dia, num interim de cerimônias, a estabanada faxineira foi limpar o armário e  a vela, mais uma vez, obedeceu a lei da gravidade. A essa altura já são dezesseis pedaços presos um ao outro pelo barbante do pavio.

Extrema unção. Após a benção do padre, o moribundo, em seu leito de morte, orienta a futura viúva: "Querida, tem só um toquinho de vela, mas deve dar e sobrar para o velório, o último ofício dessa minha fiel companheira. Você acende por uns dez minutos, apaga e coloca a pouca parafina restante no caixão. Pode ser no bolso do paletó, para ficar perpetuamente comigo, junto do coração".

O pavio, mal apagado, incendeia instantaneamente o terno de tecido sintético, e em segundos temos um esturricado defunto duplamente morto.

Mestre Duña conclui, com sua proverbial sapiência: "Queridos amigos, essas são apenas conjecturas. Uma advertência nem contra e nem a favor desse costume, seja lá onde for costumeiro. Só quis refletir um pouco, e fazê-los também ponderar sobre as consequências, nem sempre beatíficas, de sua prática. Fiquem com meu abençoado abraço”.



© Direitos Reservados

Comentários

  1. Marcelo! Percorri ao vivo e à cores todas as tradições da minha avó... e ri muito, pois, a cada desmembramento das velas familiares, ela profetizava futuro nada promissor para a vítima! Novenas e ladainhas percorriam 'uma rezorréia familiar' para que nada de ruim acontecesse ao vitimado! Detalhe: - as velas passaram a ser marcadas, pois era comum a miscelânea entre elas e seus herdeiros...
    Abraço, Célia.

    ResponderExcluir
  2. risos... "duplamente morto"... você é muito genial.. adorei, querido! Bj

    ResponderExcluir
  3. uma vela acesa para que a criatividade do amigo cronista não se apague... texto iluminado, meu caro, como sempre... abs

    ResponderExcluir
  4. Jorge Cortás Sader Filho12:43 AM

    Logo que vi o início do tema, fiquei temeroso que o Marcelo fosse contar a famosa piada do Ary Toledo. Felizmente enganei-me!
    Que susto!
    Abraço. Jorge

    ResponderExcluir
  5. Elizete Lee12:44 AM

    Mais um grande ensinamento do Mestre Duña.
    Pergunto ao discípulo Marcelo, quando o mestre Duña vai lançar seu livro. Tenho certeza que vai vender mais do que o “O SEGREDO” de Rhonda Byrne.
    Abraço fraterno.

    ResponderExcluir
  6. Clotilde Fascioni12:45 AM

    Mestre Duna um sábio. Abraços meu amigo Marcelo.

    ResponderExcluir
  7. Claudete Amaral Bueno12:47 AM

    Ainda bem que eu não sou católica, Marcelo!!!!!! Affffffff

    Parabéns pela genialidade! Um abraço,

    Claudete

    ResponderExcluir
  8. Quando o Duña aparece na história , pode ter a certeza de que boa coisa não vem.
    Mas esse Duña é pra lá de sábio. Uma voz que ecoa da clarividência do mestre Marcelo.

    Tô com o Dunã. Assim seja!

    ResponderExcluir
  9. Tudo é relativo, até as conjecturas do mestre Duña;o que nunca deixa de merecer bravo pra lá e bravo pra cá, no entanto, são seus textos, grande Marcelo!

    ResponderExcluir
  10. Marco Antonio Rossi8:09 AM

    Bom dia e uma otima semana.
    Quanto as velas, hoje já existem com distintivos de clubes, cores gays, com orações de santos e tantas outras para atender as exigências do mercado consumidor desde o nascimento até vestir o capote de madeira.......
    abraço
    Rossi

    ResponderExcluir
  11. José Carlos Carneiro8:14 AM

    Eu não imaginava que uma vela e uma tradição gerassem crônica tão divertida. Ah! Mas aí veio o Duña a ajudar a juntar as pontas soltas. E tudo ficou amarrado direitinho.
    Abraço e boa semana.

    ResponderExcluir
  12. Alessandra Leles Rocha8:17 AM

    Marcelo,
    genial!!! Nem sei por onda anda a minha vela de batismo!!!rsrsrs
    Mas, o bacana mesmo, é que tenhamos dentro d'alma a nossa própria chama da fé.
    Então, te desejo uma semana pra lá de ILUMINADA!!!
    Bjo. grande, Alê

    ResponderExcluir
  13. Claudete Amaral Bueno8:21 AM

    Ainda bem que eu não sou católica, Marcelo!!!!!! Affffffff

    Parabéns pela genialidade! Um abraço,

    Claudete

    ResponderExcluir
  14. E agora, amigo Marcelo... Se há um duplamente morto, serei eu uma duplamente viva? E ainda por cima nas vésperas do próprio aniversário??? Eu decepcionei Mestre Duña e todos os seus discípulos. Recebi a extrema unção, agora chamada unção dos enfermos (e para acabar com o mal estar, dizem que não é para quem está nas últimas não.)(Sei...)Eu gastei tudo o que é vela da família, e ainda estou aqui. Por favor, além destes incidentes acidentais que poderiam acontecer, e o meu caso? Serei vaso tão ruim que superei toda a parafina???
    Rsrsrsrs, adorei, mais um texto que nos faz filosofar...
    Um abráss sum bêju ium pedáss di quêju...

    ResponderExcluir
  15. Zezinha Lins5:21 PM

    Que triste final para uma pobre vela que tinha como propósito apenas fazer o bem... Toda vela só quer mesmo iluminar e não torrar defunto.
    Abração, Marcelo!

    ResponderExcluir
  16. Fernando Dezena5:24 PM

    abraços Marcelo, vamos ouvir o mestre kkk

    ResponderExcluir
  17. O texto, como sempre, um primor. Mas eu não sou adepto desse costume. Sabe-se lá se essa vela não vai ser pedra de tropeço lá no andar de cima? Meu abraço.

    ResponderExcluir
  18. Gina Soares5:25 PM

    Sera que a vela dura tudo isso? Hoje em dia elas sao tao finas que acabam em minutos…. Rsss
    Muito bom….

    ResponderExcluir
  19. Risomar Fasanaro5:26 PM

    Adorei seu texto, Marcelo! A vela parece nos acompanhar ao longo da vida, com nossos tropeços, nossas quedas, os ferimentos causados por outros, enfim,ela é nosso duplo eu, acho…
    Quanto à caminhada dos corinthianos, José Hamilton, nossa fidelidade é tamanha, que mesmo toda rebentada, o fio que restar, com um tiquinho de cera, nos levará ao céu, com toda certeza. Mas não fique triste, deixaremos que vocês são paulinos assistam nossa subida ao céu…rs Grande e fraterno abraço!

    ResponderExcluir
  20. Hamilton Brito5:27 PM

    A tal vela , hoje dm dia, está acesa somente na alma de curintianos. Como eles vão todos para o inferno e o caminho é escuro, precisam da vela para ilumina-lo.. Nos, tricolores, temos o caminho para o ceu bem radiante e claro..Nao precisamos de vela. Ah. o Penapolense manda um abraço.

    ResponderExcluir
  21. Mara Narciso4:20 PM

    A parafina haverá de se ressecar e rachar. Não acho uma boa ideia essa de vela da vida toda. Lembrei-me ainda da vela de sete dias e que dura quatro. Então, em matéria de velas, tudo não passa de ilusão, inclusive a serventia de clarear o caminho em direção à última morada. Quanto a minha mãe, ela era uma contumaz acendedora de velas e nelas acreditava piamente para ajudar em tudo. Momento difícil, medo? Acenda-se uma vela. Bom texto para meditar e rezar.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A CAPITAL MUNDIAL DO BILBOQUÊ

Para os menores de 30, é natural não conhecê-lo. Então comecemos por uma sucinta porém honesta definição.

Bilboquê: originário da França, há cerca de 400 anos, foi o brinquedo favorito do rei Henrique III. Consiste em duas peças: uma bola com um furo e um pequeno bastão, presos um ao outro por um cordão. O jogador deve lançar a bola para o alto e tentar encaixá-la na parte mais fina do bastão. (fonte:www.desenvolvimentoeducacional.com.br).

Mais do que um brinquedo, Bilboquê é o nome de uma cidade, localizada a noroeste da pacata estância de Nhambu Mor. Chamada originalmente de Anthero Lontras, foi rebatizada devido ao número desproporcional de habitantes que fizeram do bilboquê a razão de suas vidas, dedicando-se ao artefato em tempo integral (incluindo-se aí os intervalos para as necessidades fisiológicas).

A tradição se mantém até hoje, ganhando novos e habilidosos adeptos. Nem bem raia o dia na cidade e já se ouvem os toc-tocs dos pinos tentando encaixar nas bolas. Uma distinção se…

SANTA LETÍCIA

Letícia, em seu compartimento estanque, se bastava. Vivia debaixo de uma campânula guardada por um querubim estrábico, numa imunidade vitalícia às dores do parto, à lavagem da louça, às filas nas repartições e à rabugice dos maridos sovinas e dominadores. “Façam o que quiserem, contanto que poupem a Letícia” era o veredito invariável sob qualquer pretexto e em qualquer ocasião, naqueles sítios de lagartos e desgraças.
Nada que se comparasse àquela que chamavam de Letícia, e que raras vezes se afastava de seus cães e de sua coleção de abajures. Era o tesão das rodas regadas a cerveja. Era a inveja e o assunto nos salões de beleza. Era o exemplo de virtude no sermão do padre, que botava as duas mãos no fogo do inferno e uma terceira se tivesse pela sua inteireza de caráter.
Assim a vida corria daquele jeito de costume, com a cidade a lhe estender tapetes, a lhe levar no colo e a lhe cobrir de afagos, soprando-lhe o dodói antes que se machucasse. Passou a ser o tema das redações escolares …

ESTRANHA MÁQUINA DE DEVANEIOS

Habituais ou esporádicos, todos somos lavadores de louça. Lúdico passatempo, esse. Sim, porque ninguém vai para a pia e fica pensando: agora estou lavando um garfo, agora estou enxaguando um copo, agora estou esfregando uma panela. Não. Enquanto a água escorre e o bom-bril come solto, o pensamento passeia por dobrinhas insuspeitas do cérebro. Numa aula de história, em 1979. O professor Fausto e a dinastia dos Habsburgos, a Europa da Idade Média e seus feudos como se fosse uma colcha de retalhos. O Ypê no rótulo do detergente leva ao jatobazeiro e seu fruto amarelo de cheiro forte, pegando na boca. Cisterna sem serventia. Antiga estância de assoalhos soltos. Rende mais, novo perfume, fórmula concentrada com ação profunda. A cidade era o fim da linha, literalmente. O trem chegava perto, não lá. Trilhos luzindo ao meio-dia. Inertes e inoperantes. As duas tábuas de cruzamento/linha férrea dando de comer aos cupins. Crosta de queijo na frigideira, ninguém merece. Custava deixar de molho? A…