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Mostrando postagens de Junho, 2013

DUÑA EXPLICA

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Abandonando o pedestal onde merecidamente repousa sobre louros, Mestre Duña, num assomo de humildade, se nivelou a nós mortais para dissecar alguns enigmas que há muito intrigam a alma humana.

Frases, comentários ou mesmo interjeições jocosas desse Aristóteles moderno transformavam-se instantaneamente em citações, máximas, enunciados, fórmulas e teoremas. Tais aforismos saíam desgovernadamente de seus lábios, ora em golfadas, ora aos borbortões, mas sempre com a chancela singular de quem é Doutor Honoris Causa pelas Universidades de Harvard, Oxford e Unip.

No intuito de testemunhar o inusitado torvelinho cultural, repórteres da BBC e da National Geographic, PHDs, filósofos e cientistas de todas as vertentes do conhecimento se espremeram por três dias defronte à choupana duñesca, alvo de peregrinação de muçulmanos e católicos, budistas e neo-pentecostais.

As aparições do Mestre se sucediam em intervalos regulares, à janela do seu quarto, onde o Iluminado se apresentav…

GENEALOGIA QUASE ILUSTRE

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Ananias, um parente muito próximo dos descendentes diretos de Noé, gerou Jacó Jr., que depois da arca seca, em terra firme e com muita lábia, convenceu Lenora a gerar Alcebíades no então abandonado compartimento dos gorilas. De Alcebíades a Theodore Jonathan, mais conhecido como TJ,  foram umas 230 gerações, das quais praticamente nada se sabe. Jonathan, o bocejador incorrigível, gerou Lucy, aquela que jamais perdia um comício. Lucy gerou Abelardo, o ser humano mais rápido do seu tempo na palitagem de dentes, cuja agenda de palestras sobre o assunto estava quase sempre lotada. Abelardo era funcionário público nas horas vagas, e em uma de suas viagens a trabalho acabou gerando Adolpha, que do pai só ganhava acenos distantes e uma ou outra bala de goma com validade vencida. Adolpha, embora com motivos de sobra para não ter libido nem ânimo de procriar, gerou os gêmeos Natan e Carolino, que juntos abriram cartório em conhecida cidade e passaram também a receber do avô, d…

DIVÃ NO DIVÃ

Foto: Google Imagens



- Sim, pode falar.

- Por onde eu começo?

- Escolha o começo que lhe parecer mais interessante.

- Eu sou da área. Diria que dificilmente um profissional pode estar 
mais ligado à seara freudiana do que eu.

- Não diga, é mesmo? Você é psicólogo, psicanalista, psicoterapeuta?

- Nada disso. Eu produzo divãs. Trabalho numa fábrica deles há mais 
de vinte anos. Este divã mesmo, fui eu que fiz. Conheço cada um dos 
meus divãs, centímetro por centímetro.

- Que peculiar. Jamais analisei um fabricante de divãs, e arrisco afirmar que 
essa é uma experiência única nos anais da psicologia.

- Neste divã aqui está escrito "Diva" em baixo relevo, próximo a um 
dos pés do móvel. É minha marca registrada de autoria. Basta levantar 
um pouco ele do chão que já dá pra ver.

- Por que você escreveu "Diva" e não "Divã"?

- Tenho trauma de tio. Não de til, de tio mesmo. Irmão do meu pai, no 
caso. Era pequeno e peguei ele na lavanderia de casa, um pouco mais 

RÁDIO MIOLO

Independentemente do que você esteja pensando agora, por trás desse pensamento tem uma musiquinha, não tem? De pano de fundo, como quem não quer nada. Às vezes uma, depois outra. Tem dias em que rola uma faixa só, teimosamente. Você até quer passar pra outra, mas o cérebro não deixa. O programador da Sinapse FM resolveu que aquele é o dia daquela música, e não há jabá que o faça mudar de idéia.
Ocorre também da música não ter nada a ver com você, muito menos com seu estado de espírito naquela hora. Mas gruda como chiclete nos neurônios. É quando você se pega cantarolando o prefixo do Programa da Xuxa, sem saber por que cargas d’água, no meio de uma reunião da empresa.
Meu DJ mental é um cara eclético, mas acima de tudo beatlemaníaco. Assumido e incorrigível. Colocar Beatles no aparelho de som pra mim é redundância - as mais de duzentas músicas deles eu assovio o tempo todo. É o que se pode chamar de original soundtrack biológico. Tocou na entrada do meu casamento e quero que toque no me…

POLTRONA 16

1898 Chamam de cinematógrafo, é novidade que acabou de chegar da França. Tem um pano branco bem grande, e um feixe de luz que vem lá de trás mostra gente andando, trens em movimento... mas precisa estar tudo escuro, se não for na escuridão não dá para ver nada. As pessoas se sentam na frente do retângulo de pano para assistir. Uma sensação.

1942 Um homem... uma mulher... uma misteriosa cidade do Marrocos. Humphrey Bogart e Ingrid Bergman, juntos no filme mais esperado do ano. A história de um amor impossível e a intrigante saga de heróis e vilões que se cruzam em desespero e esperança, e que viverão em Casablanca uma aventura que mudará para sempre os seus destinos. Casablanca! Onde cada momento traz um novo perigo. Onde cada beijo pode ser o último!
1956
"Os dez mandamentos", com Charlton Heston e Yul Brynner. Ele com a mão mais boba, ela mais condescendente dessa vez. Uma sessão quase vazia. Dia fértil, borrão de sangue no carpete embaixo da cadeira. Vamos assumir, Deus quem ma…