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DIVÃ NO DIVÃ


Foto: Google Imagens




- Sim, pode falar.

- Por onde eu começo?

- Escolha o começo que lhe parecer mais interessante.

- Eu sou da área. Diria que dificilmente um profissional pode estar 
mais ligado à seara freudiana do que eu.

- Não diga, é mesmo? Você é psicólogo, psicanalista, psicoterapeuta?

- Nada disso. Eu produzo divãs. Trabalho numa fábrica deles há mais 
de vinte anos. Este divã mesmo, fui eu que fiz. Conheço cada um dos 
meus divãs, centímetro por centímetro.

- Que peculiar. Jamais analisei um fabricante de divãs, e arrisco afirmar que 
essa é uma experiência única nos anais da psicologia.

- Neste divã aqui está escrito "Diva" em baixo relevo, próximo a um 
dos pés do móvel. É minha marca registrada de autoria. Basta levantar 
um pouco ele do chão que já dá pra ver.

- Por que você escreveu "Diva" e não "Divã"?

- Tenho trauma de tio. Não de til, de tio mesmo. Irmão do meu pai, no 
caso. Era pequeno e peguei ele na lavanderia de casa, um pouco mais 
próximo da minha mãe do que seria conveniente a um cunhado com bons 
modos e castas intenções.

- Fale-me mais sobre isso.

- Por favor, pulemos essa parte. Acho que hoje já estou razoavelmente 
bem resolvido em relação a esse episódio.

- Será?

- Ah, sim. Depois que mamãe se foi, passei a administrar melhor o 
trauma.

- E o meu é o primeiro divã em que você se deita ou já passou por 
outros?

- Já deitei essa velha carcaça em cima de milhares de outros. Fazendo 
os testes de controle de qualidade na fábrica e também fora dela, 
testando a qualidade dos analistas.

- E eu? Já tenho uma avaliação preliminar?

- Ainda é cedo. Mas tive ótimas referências suas.

- Você é telegráfico. Parece que vai ser difícil arrancar coisas um 
pouco mais subjetivas suas.

- Acertou em cheio. Sou mesmo muito assertivo no que digo e no que 
pretendo fazer. E em cinquenta minutos de consulta dá para resolver 
muita coisa. Quero dizer, algo de prático, e não ficar nesse blá-blá-
blá estéril.

- Por exemplo?

- Por exemplo, colocar os fantasmas para fora.

- Pois vamos a eles.

- O senhor me arruma uma faca?

- Faca?... serve esta?

- Serve sim.


(...)


- Espera um pouco, o que está fazendo? Para com isso, você está rasgando 
todo o divã...

- É só uma incisão, estou libertando os fantasmas. Estou soltando 
mamãe de sua longa prisão.

- Fique calmo, não me faça pedir ajuda.

- Vem, mamãe, vem... saudade, minha velha.

- Que horror, o que são esses ossos?

- Então, eu poderia explicar tudo direitinho, doutor. Mas acho que não precisa, concorda? Foram alguns anos procurando pelo número 
de série do divã até encontrar o dono, que o vendeu para outro 
analista, que o revendeu para o senhor...

- Não pode ser. Você acabou de falar que tinha superado o trauma.

- Eu precisava tranquilizá-lo para poder também ficar tranquilo e 
fazer o que precisava ser feito. Agora, se me permite, eu e mamãe temos pressa. Se quiser um divã novo, temos vários modelos para pronta entrega. Quer ficar com o meu cartão?


© Direitos Reservados


Comentários

  1. José Carlos Carneiro2:53 PM

    Gostei muito de ler, pois é por aí que eu enxergo o duro ofício dos psicanalistas, mormente quando têm pela frente uma pedreira do tipo dessa que você concebeu. Solução para casos tais acredito um pouco difícil, mesmo ressuscitando-se o Freud. E que ele repouse em sono tranquilo sem se preocupar se suas descobertas trouxeram solução definitiva ou paliativa para os males dos parafusos desregulados, enferrujados, sem lubrificação, sem arruelas...
    Um abraço.

    OBS em tempo:
    Gazeta 15/6/2013
    Saiu "Rádio Miolo".

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  2. Complexos de Édipo à parte... uma excelente estratégia de marketing...
    Abraço, Célia.

    ResponderExcluir
  3. Alessandra Leles Rocha4:42 PM

    Marcelo,
    como dizem por aí "De médico e louco todo mundo tem um pouco"!!!
    Adorei o texto!!! Realmente a psicanálise é uma seara surpreendente!!!rsrsrs
    Com votos de uma semana ainda mais inspirada!!!
    Bjos, Alê

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  4. Claudete Amaral Bueno12:55 AM

    Vc é demais!!!!!!!!!
    Sem comentários!
    Boa semana....um abraço
    Claudete

    ResponderExcluir
  5. Marcelo, quase macabro e hilário ao mesmo tempo!!! Beijo, querido!

    ResponderExcluir
  6. O próprio blog já se auto intitula: divagações oníricas" . Esperar o quê? Depois dessa só mesmo ficando de pé para aplaudir! plaf! plaf! plaf! plaf!

    ResponderExcluir
  7. Clauduarte Sá4:40 PM

    Mais uma vez meu amigo, excelente texto. Eu imaino a cena completa. Muito bom,
    Sucesso,
    ClauduArte Sa

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  8. Freud não explica sua inesgotável capacidade de criar... clap, clap, clap...

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  9. Marco Antonio Rossi4:58 PM

    Bom dia meu amigo e uma otima semana.
    como é dificil olhar para si mesmo.... até para o próprio psicanalista que se prepara para orientar os pacientes e tem uma enorme dificulde de orientar a si proprio...
    eta vida complicada!!!!!
    abraço
    Rossi

    ResponderExcluir
  10. André Albuquerque5:00 PM

    Metáforas cada vez menos metáforas,cada vez mais a própria situação em si,o viver olhando pela janela (ou deitado no divã a contemplar o teto).Parabéns.

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  11. Ju Carvalho5:07 PM

    dos diálogos surreais e hilários:
    "Neste divã aqui está escrito "Diva" em baixo relevo, próximo a um
    dos pés do móvel. É minha marca registrada de autoria. Basta levantar
    um pouco ele do chão que já dá pra ver.

    - Por que você escreveu "Diva" e não "Divã"?

    - Tenho trauma de tio. Não de til, de tio mesmo. Irmão do meu pai, no
    caso. Era pequeno e peguei ele na lavanderia de casa, um pouco mais
    próximo da minha mãe do que seria conveniente a um cunhado com bons
    modos e castas intenções." #consoantesreticentes

    Marcelo Pirajá Sguassábia você se superou em sua nova crônica! Jamais me deitarei num Divã sem pensar no DIVA...

    ResponderExcluir
  12. Leda Valéria Suppa Basile5:08 PM

    você não para de me surpreender com seus textos. Bom demais!

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  13. Francisco Coimbra5:09 PM

    Vou para o divã fazer psicanálise: primeiro dou a fala à Psic, logo a Análise dirá de sua justiça. Comecei… a Psic em silêncio, a Análise nada. Perante este cenário imagino que o problema reside nos personagens, para final de história conto o que aconteceu. A história onde me inspirei era perfeita, sentindo-me imperfeita, resolvi ouvir o meu caso. As vozes interiores não vieram, resolvi exteriorizar, escrevi.
    Abraço.

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  14. Zezinha Lins5:10 PM

    Nossa!!! Surpreendente o final! Parabéns, amigo, acho que já te dei os parabéns, umas cem vezes, mas vc merece, sempre divertindo seus leitores com um ótimo texto, e diversão é bom, afasta as pessoas do divã. Abraçossss!!!

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  15. Clotilde Fascioni5:10 PM

    Marcelo, adorei! Quanta iimaginação. Achei fantastico. Abçs

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  16. José Hamilton Brito5:11 PM

    Humor, classe e um caminhão trucado de doidura.
    Pra quem nao sabe, caminhão trucado e um caminhão com truk.
    Hein! o que é truk? PelamordeDeus !
    O meu, o seu caso nem Freud explica…ou explica. Os seus fantasmas nao estão presos na Bolívia?

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  17. Jorge Sader Filho5:12 PM

    Marcelo, de vez em quando passar dos limites da sanidade é muito bom!
    Você acabou de mostrar isso, com o humor e a classe que lhe é peculiar.
    Abraço. Jorge

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  18. Gina Soares4:39 PM

    Adorei o final… inesperado… rssss
    Muito bom!!

    ResponderExcluir
  19. Ah , amigo Marcelo!!! Adorei!
    Confesso que não esperava o final e acho genial que tenha brincado com nossa imaginação assim. E olha que eu já acumulei muitos pontos em milhas e milhas de viagens na maioneses que faço, viu?
    Chego até a arriscar um trauma básico no profissional,que, deste dia em diante, deve ter aposentado a velha técnica do divã da Diva... (Só pode ser este o nome dela...)
    e o divã, vermelho, né?
    Beijos!

    ResponderExcluir
  20. Mara Narciso12:21 AM

    Um parentesco discreto com Psicose. Agrada, diverte e é absolutamente original. Mesmo que alguém ache que não.

    ResponderExcluir
  21. Uau, por essa não esperava! Você escondeu muito bem a chave do texto no divã! Adorei!

    ResponderExcluir
  22. Francine12:05 AM

    Ando tão sem tempo (sabe como é, fim de semestre/bimestre para
    > professor...), mas finalmente consegui roubar um tempinho para
    > botar minhas leituras em dia.
    > Ótimo texto! Como sempre! Incrível, fiquei imaginando a cena e a
    > cara do psicanalista. Depois dessa, certeza que quem precisou de um
    > divã foi ele..rs
    >
    > Abraço

    ResponderExcluir

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