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DUÑA EXPLICA

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Abandonando o pedestal onde merecidamente repousa sobre louros, Mestre Duña, num assomo de humildade, se nivelou a nós mortais para dissecar alguns enigmas que há muito intrigam a alma humana.

Frases, comentários ou mesmo interjeições jocosas desse Aristóteles moderno transformavam-se instantaneamente em citações, máximas, enunciados, fórmulas e teoremas. Tais aforismos saíam desgovernadamente de seus lábios, ora em golfadas, ora aos borbortões, mas sempre com a chancela singular de quem é Doutor Honoris Causa pelas Universidades de Harvard, Oxford e Unip.

No intuito de testemunhar o inusitado torvelinho cultural, repórteres da BBC e da National Geographic, PHDs, filósofos e cientistas de todas as vertentes do conhecimento se espremeram por três dias defronte à choupana duñesca, alvo de peregrinação de muçulmanos e católicos, budistas e neo-pentecostais.

As aparições do Mestre se sucediam em intervalos regulares, à janela do seu quarto, onde o Iluminado se apresentava invariavelmente trajando sua túnica de lantejoulas cor de abóbora e azul celeste, a postos para dar vazão à sua cornucópia de saber.

Vamos agora a alguns excertos dessas 72 horas de bem-aventuranças.

Lan House
Trata-se somente de um nome afrescalhado para a conhecida loja de armarinhos e aviamentos, tão familiar às nossas prendadas titias e avós.

Galeorrinídeos
Mestre Duña relutou em elucidar esta questão, julgando-a por demais óbvia. Afinal, sentenciou o guru, quem não sabe que os galeorrinídeos pertencem à família de peixes elasmobrânquios precisa de cola para passar no exame psicotécnico.

Batatinha quando nasce
Obra basilar na formação poética de Drummond, trata-se de um divisor de águas da lírica em língua portuguesa. Recentemente Duña deu à lume um ensaio definitivo sobre o assunto, dele resultando um alfarrábio de 800 páginas que se detém sobre os sentidos recônditos dessa estrofe de quatro versos, aparentemente boçal e despretensiosa.

Garrida
A origem etimológica do termo é um tanto obscura, e se perde em tempos imemoriais. Tão imemoriais que, quando incluído no Hino Nacional, o vocábulo já era arcaico. Esse imemorialismo latente talvez explique porque tanta gente não se lembre da letra ao entoá-lo.

Maxilar
Grande loja de dois pavimentos localizada em Paraiponga, especializada em utilidades domésticas.

“O espelho da vida é a sombra do infinito”
Grafado no courvin da poltrona de um buzunga da Cometa, entre aspas mas sem crédito ao autor, Mestre Duña afirma que este paradoxo há 28 anos vem roubando o seu sono, no vão esforço de decifrá-lo. Se alguém sobre ele for capaz de lançar luz, que entre sem demora em contato pelo e-mail: msguassabia@yahoo.com.br

© Direitos Reservados




Marcelo Pirajá Sguassábia é redator publicitário e colunista em diversas publicações impressas e eletrônicas.
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Comentários

  1. Vejo hoje, em seu artigo manifestações de todas as origens: - as laicas e as vaticaniais; as de palácios em alvoradas nada românticas, e as do Mestre Duña que não entendeu nada, não viu nada, e despenca olhando sua queda pelo "espelho da vida à sombra do infinito”... 'Inimaginável ou Imexível' mesmo? Fico na dúvida...
    Abraço,
    Célia.

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  2. Marcelo, hoje é sábado, dia de são pedro... me perdoa, amigo, não consigo pensar em nada que não seja um bom forró, um bom licor e um excelente par de dança, para logo mais... risos... brincadeiras, à parte, a palavra GARRIDA não me diz nada. Sempre a cantei, por decorá-la.. risos... seria terra firme,forte, fértil? risos... beijão!

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  3. José Carlos Carneiro8:24 AM

    Cacilda! E eu que ousei pensar que poderia, mais que você, tentar desvendar certas protuberâncias mal tratadas pela história! Infelizmente não conto com um Duña nessa empreitada. Então só me resta parabenizar.

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  4. Claudete Amaral Bueno1:54 PM

    Marcelo: Mestre Duña
    Estou entrando em contacto, mas n/ é p/ decifrar a frase: O espelho da vida é mestre do infinito....(?)
    e sim, p/ dizer que o Mestre hoje EXAGEROU nas s/ definições....e eu fiquei boiando....rssssssss
    Um abração...bom fim de domingo!
    Claudete

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  5. Clotilde Fascioni8:07 AM

    Hhahah, muito engraçado o seu Duña. Infelizmente também não sei decifrar o seu enigma.
    Abraços Marcelo e tudo de bom.

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  6. Jota Effe Esse8:08 AM

    Tudo isso é apenas pra dizer que a vida é eterna. Meu abraço.

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  7. Jorge Cortás Sader Filho8:09 AM

    Já não basta o PT. Agora surge Mestre Duña! Passeata nele!
    Valeu, Marcelo. Abraço.

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  8. Nubia Nonato8:12 AM

    Se o mestre não consegue desvendar tal mistério, não serei eu, deixo isso
    para os inúmeros que avassalaram este país ultimamente, mas gostaria do endereço
    da loja maxilar, deve ter um monte de tranqueira a R$ 1,99.
    Um grande abraço Marcelo e desculpe a ausência, se puder.
    Até amigo.

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  9. Nubia Nonato8:13 AM

    Meu comentário ficou incompleto, depois de “inúmeros” inclua “entendidos”.
    Desculpe de novo.

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  10. Alessandra Leles Rocha8:15 AM

    Oi, Marcelo!!!
    Adorei o seu texto!!! Sua forma tão particular em escrever foi, no dia de hoje, um bálsamo para me aliviar a terrível decepção que estou sentindo com a vida!!!
    Tenha uma semana cheia de muita inspiração!!!
    Bjos.,
    Alê

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  11. Rossi8:17 AM

    Boa tarde, 1 hora antes da decisão da Copa das Confederações.
    Uma otima semana!!
    gostaria que o magistral mestre Duña explicasse o provérbio:
    oestudo é a luz da vida, economize luz não estudando, que foi lançado no primeiro horário de verão.
    Obrigado
    Marco Rossi

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  12. Quando o Duña aparece, pode esperar descobertas inusitadas nunca antes na história da filosofia antropofílica! Duña é o cara!O único que não pode dizer que não sabia de nada.

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  13. José Hamilton Brito5:50 PM

    Eita, ate que enfim.
    Aqui em Araçatuba todos querem saber onde fica a casa do Duña. Quando alguém some , diz-se que ele foi na casa do Duña.
    Uns dizem que ele é predador, outros , que ele é ” menina”…será?

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  14. Olá amigo Marcelo!
    Ah, meu Deus... Mestre Duña sempre a nos iluminar as faces da lua... 'Sobre as batatinhas quando nascem' o correto é continuar assim: espalham a rama pelo chão. Bem, sabiamente disse ser um divisor de águas e é isso que elas fazem, dividindo o grande rio grande com suas ramas no chão de água corrente. Já trabalhei na Maxilar e fui campeã de vendas de tapetes voadores e fui cliente da Lan House, quando teci minha colcha de retalhos de sonhos. Sobre o espelho da vida, melhor não mexer com as sombras. De lá podem vir coisas indecifráveis até para Duña...
    Viajei, né? Ótimo!
    Adorei!
    Um beijo, ótimo texto!

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  15. Celi Estrada6:05 PM

    Gostei da explanação do DUÑA.
    Celi

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  16. Mara Narciso6:51 PM

    Prefiro ficar com algo mais simples e menos retumbante, uma singela frase que estava escrita no meu primeiro quadro negro/verde, conhecido como lousa entre os paulistas:" O Estudo é a luz da vida". Como o Grande Mestre Duña explicaria isso a uma criança de sete anos?

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  17. Antonio Fonseca1:10 AM

    > Desvendarei o paradoxo: "O espelho da vida é a sombra do infinito".
    > Nada mais é que: Quem confere ferro com o ferro será conferido. E
    > tenho dito.
    >

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  18. Quanto me acrescenta ler as definições de mestre Duña, que ser almanáquico! Esse oráculo poderia me explicar por que no pacote de gominhas há tantos sabores se todo mundo só gosta das vermelhinhas?

    em tempo: no cabeçalho do blog está faltando A Cidade entre os veículos que publicam suas lavras.

    abs,

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