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GENEALOGIA QUASE ILUSTRE



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Ananias, um parente muito próximo dos descendentes diretos de Noé, gerou Jacó Jr., que depois da arca seca, em terra firme e com muita lábia, convenceu Lenora a gerar Alcebíades no então abandonado compartimento dos gorilas. De Alcebíades a Theodore Jonathan, mais conhecido como TJ,  foram umas 230 gerações, das quais praticamente nada se sabe. Jonathan, o bocejador incorrigível, gerou Lucy, aquela que jamais perdia um comício. Lucy gerou Abelardo, o ser humano mais rápido do seu tempo na palitagem de dentes, cuja agenda de palestras sobre o assunto estava quase sempre lotada. Abelardo era funcionário público nas horas vagas, e em uma de suas viagens a trabalho acabou gerando Adolpha, que do pai só ganhava acenos distantes e uma ou outra bala de goma com validade vencida. Adolpha, embora com motivos de sobra para não ter libido nem ânimo de procriar, gerou os gêmeos Natan e Carolino, que juntos abriram cartório em conhecida cidade e passaram também a receber do avô, de vez em quando, as costumeiras balas de goma - agora enviadas por sedex. Natan optou pelo celibato, ao contrário de Carolino, que trouxe ao mundo extensa prole. Da prole de Carolino destacou-se o mal-humorado Rubão, comprador de ferro velho que 16 anos antes de morrer fabricou o próprio caixão, o único que se tem notícia construído em ferro galvanizado. Rubão deixou como herdeira a ruiva Pâmela, nascida com orelhas triplas. Pâmela gerou Quirino, dono da loja "Rei das Persianas" e eleito por três vezes, não consecutivas, segundo secretário do Clube dos Diretores Lojistas de Sertão Grande. Quirino gerou Jorgito, bom de saltos ornamentais mas retardado em controle de estoque. Em segundas núpcias com uma balzaqueana chamada Maria Dalva, Jorgito foi pai de oito crianças, sete delas vitimadas pelo escorbuto. Sabrina, a que sobrou, também morreu cedo - aos 22 - porém a tempo de dar a luz a Sergei, embaixo de uma mesa de pôquer. Do pano verde da mesa, Sergei talvez tenha herdado a inclinação para lidar com grandes extensões de soja, que lhe deram fortuna para contrair matrimônio com Deoclélia Antonia, filha do abastado Juan Pablo de Luccrétia, cujo conglomerado de fábricas de isqueiros abastecia toda a ilha de Cuba em seus dias de glamour. Dessa união, porém, não há descendentes conhecidos, o que leva a crer que a milenar linhagem ali conheceu o seu ponto final.



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Comentários

  1. Uma árvore genealógica escrita com genialidade. As múltiplas leituras que o Marcelo consegue fazer do dia a dia é de fazer phDs da vida rasgarem os cartuchos. Aliás, Marcelo é pHD em criatividade. Eita, escritor viajado !!!!!!!!!!!!!!! Parabéns!!!

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  2. Meu Deus do Céu... essa gente era adepta do 'crescei e multiplicai-vos'... sem dúvida alguma... Como dizia minha sogra, sem três orelhas e com os cinco dedos... 'naquela época não havia os recursos que vocês têm hoje'... Detalhe: ela e o Bento... benzeram dezesseis... Que prole! Uma floresta genealógica... com um ginecológico superpoderoso! Que texto hein, Marcelo... retrocedi a logo ali...1970 quando peguei para mim, um lindo galho dessa árvore!!
    Abraço, Célia.

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  3. Marcelo, meu caro amigo... Devo lhe dizer que tive que fazer uma árvore genealógica semelhante à dos Cem anos de Solidão. O Gabo baixou aí?
    Mas, será que nesta árvore não houve alguma escapadinha, afinal, não era só a jaula dos gorilas que ficou vazia...
    rsrsrs
    Ótimo texto , como sempre!
    Beijos!

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  4. Arca de noé secou e foi a "eva" que gerou tantos frutos? Uau... quanta imaginação!!!!!!!!!

    E no compartimento dos coelhos? Que será que ocorreu? risos... beijo, querido!

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  5. A gente acaba identificando alguns dos parentes.... rss
    Muitooo bom!
    bjs

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  6. Lisette Feijó12:39 AM

    Nem quero pensar….
    Abraço Lisette.

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  7. Pra variar, muito divertido como só você, Marcelo, sabe fazer. Eu não me atrevo a pesquisar minha árvore genealógica porque vou acabar descobrindo que sou filho da pqp, e isso não tem a menor graça! Meu abraço.

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  8. Clotilde Fascioni12:40 AM

    Adorei! Muito divertido. Abraços Marcelo.

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  9. Jorge Sader Filho12:41 AM

    Fico imaginando as origens. Como teria surgido o primeiro político safado no Brasil? Quando? Como? Onde? Tudo dentro da mais perfeita descrição jornalística.
    Grande bola, Marcelo. Como sempre, esbanjando criatividade.
    Abraço.
    Jorge

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  10. Martha Tavares Pezzini12:52 AM

    Abraço, Marcelo!
    > Como já fiz a genealogia da minha família, fui ler depressa!
    > Rs.Como sempre, gostei.

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  11. Sandra Nogueira12:53 AM

    que ótima, Marcelo. Cheguei a ter medo que Fidel também pertencesse
    à linhagem rsrsrs
    um abraço

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  12. José Carlos Carneiro12:55 AM

    De Noé e até onde você conseguiu destrinchar os ramos dessa árvore genealógica tão divertida e peculiar, creio que nada faltou para caracterizar uma possível família cuja origem e continuidade tenha trilhado caminhos tão originais.
    (Não nego que sou bem chegado nessa temática, pois, nas pesquisas que fiz uns vinte anos atrás, descobri sobre a árvore genealógica que me deu origem coisas do arco da velha).
    Valeu, cara! Ponto para você.
    Um abraço.

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  13. Marco Antonio Rossi12:56 AM

    Meu amigo, boa noite e um otimo final de semana.
    Êta arvore genealogica complicadinha ,né?
    Abraço
    Rossi

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  14. Claudete Amaral Bueno12:56 AM

    Ai, Marcelo!!!!!

    Vc tem imaginação, hein???????????? rssssssss

    Um abração....bom final de semana

    Claudete

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  15. Alessandra Leles Rocha12:57 AM

    Marcelo,
    como sempre, a sua criatividade em ALTÍSSIMO grau!!! Muito bom!!!
    Com votos de uma semana ainda mais INSPIRADA!!!
    Bjos., Alê

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  16. Clauduarte Sá12:58 AM

    Parabens, meu amigo. Muito bom, como sempre.
    Felicidade, sucesso,
    ClauduArte

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  17. Marcelo, dentro dessa ramagem toda, fiquei prestando atenção ao isqueiro, à bala de goma, ao escorbuto, ao palito de dentes, ao pôquer... Eta imaginação de ouro recheada de detalhes verossímeis! Como não agradar, né? Parabéns!

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  18. Mara Narciso12:51 AM

    Embora uma árvore genealógica simples, diverte pelas poucas particularidades e os nomes escolhidos. Destaco ainda a figura escolhida pelo editor.

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  19. Antonio Fonseca1:12 AM

    Conheço essa etnia e afianço que você se esqueceu que Segei gerou
    > Anfilófio que gerou Sabugoia que casada com Franscolino, alemão da
    > gema, quis homenagear o ancião Sergei e batizou seu primogênito com
    > o nome de Sergay. E ele roda bolsinha, aqui em BH, na praça do Papa.

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