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RÁDIO MIOLO








Independentemente do que você esteja pensando agora, por trás desse pensamento tem uma musiquinha, não tem? De pano de fundo, como quem não quer nada. Às vezes uma, depois outra. Tem dias em que rola uma faixa só, teimosamente. Você até quer passar pra outra, mas o cérebro não deixa. O programador da Sinapse FM resolveu que aquele é o dia daquela música, e não há jabá que o faça mudar de idéia.

Ocorre também da música não ter nada a ver com você, muito menos com seu estado de espírito naquela hora. Mas gruda como chiclete nos neurônios. É quando você se pega cantarolando o prefixo do Programa da Xuxa, sem saber por que cargas d’água, no meio de uma reunião da empresa.

Meu DJ mental é um cara eclético, mas acima de tudo beatlemaníaco. Assumido e incorrigível. Colocar Beatles no aparelho de som pra mim é redundância - as mais de duzentas músicas deles eu assovio o tempo todo. É o que se pode chamar de original soundtrack biológico. Tocou na entrada do meu casamento e quero que toque no meu enterro, mesmo não estando mais lá pra escutar.

Acontece algo que me deixa feliz e a Rádio Miolo ataca de “I want to hold your hand”. Se falta coragem não falta “Hey Jude”, a fabulosa injeção de ânimo que o velho Macca fez para o filho do John. Um momento de reflexão e tiro da cachola “Julia”, “Because”, “Across the Universe”. Se quero meditar, a lavra do George Harrison leva à Índia numa sentada, de preferência em posição de lótus.

Porém nem tudo é Beatles, embora quase tudo seja. E de repente se abre o inesgotável baú dos mineiros. Só de Beto Guedes tem pelo menos umas 20 músicas no hit parade pessoal: “Tesouro da Juventude”, “Noite sem Luar”, “Sol de Primavera”, “Maria Solidária”, não há o que ainda possa ser dito dessas coisas, são os profetas do Aleijadinho em forma musical. Valem todo o ouro das Gerais.

Chico é a próxima parada do dial. “Meus Caros Amigos”, com “O que será” e “Mulheres de Atenas”, ou aquele outro disco com um Buarque pra lá do terceiro uísque, fotografado à frente de uma samambaia, que tem “Cálice” e “Trocando em miúdos”. Em outra estação, mas na mesma frequência, Caetano e o eterno espanto de “Bicho”, “Jóia”, “Muito”, de um “Cinema Transcendental” que transcende “Qualquer Coisa”. Trilhas de uma época em que não se falava de música de trabalho, exposição à mídia, shows privê no Golden Room do Copa.

Vamos aos clássicos. A Quarta balada de Chopin, alguns trechos de Tristão e Isolda, os Brandenburgos de Bach, o concerto para piano de Rachmaninov. Tudo isso em deliciosa ciranda no toca-discos interno. Vira e mexe esses monumentos reaparecem, virando e mexendo comigo, tocando sem que seja preciso levantar da cadeira e caçar o disco na estante.

O que acaba acontecendo é que eu coloco pra tocar só os mais novos. O tido como “diferente”, que vai surgindo. E ouço a fim, muito a fim de ser pego de surpresa, arrebatado com algo demolidor. É pena, mas essa primeira audição quase sempre acaba sendo a última. 

Então volto ao meu flash-back. Som na caixa craniana, graves e agudos equalizados. No repertório, só as dez mais de todos os tempos. Sem correr o risco de incomodar o vizinho e economizando energia elétrica.


© Direitos Reservados

Comentários

  1. Jorge Cortás Sader Filho7:27 AM

    As dez mais sempre são garantia de qualidade. Tanto músicas como as certinhas do Stanislaw.
    Abraço.
    Jorge

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  2. José Carlos Carneiro1:59 PM

    Uma bela retrospectiva que nada deixa a desejar aos mais refinados gostos musicais. E como é vasta a relação que a memória consegue manter!
    Ah! Música, divina música! Eu poderia viver sem ela, mas meu viver seria insosso, apático, sem configuração geométrica, sem tempero...
    Caso eu fique surdo minha vitrola virtual tocaria o que mais gosto.

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  3. Alessandra Leles Rocha4:03 PM

    Marcelo,
    peço licença; mas, 'essa crônica foi pra mim'!!!rsrsrs
    Minha tarde de ontem (07/06/2013) foi exatamente como descrito perfeitamente por você e acabo de descobrir que nosso repertório está afinado.
    Parabéns por mais esse texto genial!!!
    Com votos de um fim de semana bem musical, ok?!
    Abraços, Alê

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  4. Clotilde Fascioni4:03 PM

    Muito bom, Marcelo, muito bom mesmo.

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  5. Minha trilha sonora é imensa... de tudo um pouco... depende do momento... A música alimenta-me, e torna-se sempre uma pausa para minhas decisões. Com fundo musical, tudo melhora... Sublima-se mais facilmente. Indico: "Songs of The Beatles" - Gregorian Chant - Divino!
    Abraço, Célia.

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  6. Zezinha Lins1:44 AM

    Nossa!!! Eu ainda não tinha encontrado um nome pra isso, agora sim, Rádio Miolo kkkkk. E quando fica lá dentro toda hora saindo pela boca e me vejo cantarolando umas coisas ridículas mas que de tanto tocar por ai, fica lá gravado na Rádio Miolo… Ah, esse menino é genial!!! Um abraço, Marcelo!!

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  7. Que crônica musical e gostosa... adorei! Na porta de casa queria fixar um aviso: PROCURA-SE VIZINHO COM BOM GOSTO MUSICAL.... e aí, som no crânio, maestro! Bj

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  8. Claudete Amaral Bueno4:43 PM

    "Amei" a mensagem de hoje....TÃO verdadeira!!!!!!!
    Que raiva eu tenho, qdo n/ gosto da música...e ela insiste em tocar!
    Estou há 1 semana c/ um hino na cachola.....que a boca teima em acompanhar!
    Mas ele é bonito! Só que tanta repetição, enjoa, cansa! Pq será que isso acontece, não?
    Um abraço p/ vc!
    Claudete

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  9. Marco Antonio Rossi4:44 PM

    Otima semana a voce meu amigo!!!!
    falando e rádio e musica, lembra da Banda, Geni, a Praça.....
    o rádio também tinha suas novelas.......na saudosa Radio São Paulo e
    esportes na Panamericana que virou Jovem Pan......
    Abraço
    Rossi

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  10. Arlete Gudole Lopes4:45 PM

    Adorei o texto, Marcelo.

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  11. André Albuquerque4:45 PM

    Excelente .Forte abraço.

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  12. Ah, Marcelo, esse repertório tem futuro, viu? E a Rádio Miolo vai ter lugar de destaque nos espaços vip do meu rádio. Abração.

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  13. José Hamilton Brito4:49 PM

    Vc começou com os Beatles…vou falar uma heresia para muitos: eu preferia OS INCRÍVEIS. Ainda o The mamas… O resto, nos conformes.
    Mas o que fazer? Eu por exemplo, prefiro quebrar o rádio a ouvir João Gilberto.Pronto. É isso.

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  14. Você não está só, não, Marcelo, conheço muita gente que não come, não dorme, não toma banho, sem ouvir um som, não importa qual, pode ser música clássica, popular, ponto de macumba… Gostei do seu relato. Meu abraço.

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  15. Risomar Fasanaro4:50 PM

    Nossa, Marcelo, eu poderia ter escrito este texto…Gostamos dos mesmos compositores…E quando às vezes a musiquinha do Teló resolve se instalar na minha cabeça? é de matar, Marcelo, mas acontece. E por mais que tente esvaziar o cérebro, ela não deixa…
    Que ideia escrever sobre isso. Acho que todos os leitores se encontraram…Beijos

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  16. Anônimo7:06 PM

    Então... enquanto eu lia a sua crônica musical, fui ouvindo uma voz aqui na minha vitrola cerebral: "Cadê a sua, cadê a sua, cadê a sua?" Queria ter uma música assim que me fizesse esquecer o leke leke leke.
    Rita Lavoyer

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  17. Genial! Adorei...
    E não é que tem um pouco de mim aí? rs
    Abraço!

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  18. Meu querido amigo, eu sintonizo essa sua rádio, ou será que é a minha rádio que toca as mesmas músicas? I will! Porque seja Yesterday ou amanhã... com 'uma pequena ajuda dos meus amigos' ou não, eu sou gamada (olha o termo! Trouxe da adolescência desses flash backs) nesses sons todos... Eu 'sou do ouro, eu sou você, sou o mundo, sou Minas Gerais'...
    Ah, estas músicas que 'colam' na mente nem sempre são as nossas preferidas, porém há algumas que são sempre bem vindas. Existe uma, a música da minha vida, Clube da Esquina II, que ainda dói quando a ouço, ainda sou eu, arrancada das minhas raízes. E minha tradução...
    Amei este seu post! Citaria Bituca... Certas canções que ouço, ops, certos textos que leio, cabem tão dentro de mim, que perguntar carece, como não fui eu quem fiz...
    Um beijo, caro amigo!

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  19. Anônimo8:25 PM

    Тhe simple wеdding ԁrеѕs nеed not be unfаѕhionablе or ԁowdy.
    An Iowa woman is loоking foг thе owner of Dylan's Candy Bar but does not neglect juicy wedding day details, including the headpiece has a free-spirited vibe and the bottom looks like delicious frosting! After all it is your wedding day. We can buy a regular dress off the rack.

    Stop by my homepage ... ao cuoi [http://clickbank-tribune.com]

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  20. Mara Narciso12:05 AM

    Uma alegria nostálgica, silenciosa no seu tema musical, algo melancólica. O passado quando vem na formas de música, dificilmente vem como festa. Mesmo as boas festas de ontem vêm embaladas numa alegria triste.Belíssimo texto!

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  21. Sintonia na sua viagem musical, caro amigo...também me pego cantarolando mentalemente os meus superhits... hoje mesmo, caetanicamente, minha caixa craniana tocava sem parar Soy Loco por Ti America.

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  22. Maria Inês Prado5:01 PM

    Ótima tradução do que todos somos - rádios miolos. Vez ou outra, também me pego cantarolando, tal qual disco enroscado...Simplesmente acontece...
    Abraço.

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