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POLTRONA 16





1898
Chamam de cinematógrafo, é novidade que acabou de chegar da França. Tem um pano branco bem grande, e um feixe de luz que vem lá de trás mostra gente andando, trens em movimento... mas precisa estar tudo escuro, se não for na escuridão não dá para ver nada. As pessoas se sentam na frente do retângulo de pano para assistir. Uma sensação.

1942
Um homem... uma mulher... uma misteriosa cidade do Marrocos. Humphrey Bogart e Ingrid Bergman, juntos no filme mais esperado do ano. A história de um amor impossível e a intrigante saga de heróis e vilões que se cruzam em desespero e esperança, e que viverão em Casablanca uma aventura que mudará para sempre os seus destinos. Casablanca! Onde cada momento traz um novo perigo. Onde cada beijo pode ser o último!

1956
"Os dez mandamentos", com Charlton Heston e Yul Brynner. Ele com a mão mais boba, ela mais condescendente dessa vez. Uma sessão quase vazia. Dia fértil, borrão de sangue no carpete embaixo da cadeira. Vamos assumir, Deus quem mandou.

1961
Faz toda a lição direitinho, ou então no domingo não tem matinê. Nem bala, nem chocolate, nem "Os 101 Dálmatas".

1977
Não falei pra você, Chico? Ó só, mostra tudo, igual aquela revista que o Téo mostrou pra gente no banheiro da escola. A sua poltrona tá rangendo, Chico, para com isso! O lanterninha vem vindo, cê tá louco?

1998
- Aqui antigamente era um cinema, depois é que virou o templo da nossa igreja. Quando o papai era pequeno, os cinemas não eram nos shoppings. Aliás, shoppings não existiam. Foi aqui que o vovô começou a namorar com a vovó. O vovô conta que estava passando “Os dez mandamentos”, e a vovó não deixava nem pegar na mão dela. Olha lá, o pastor vai dar a benção milagrosa dos sete profetas. Eleve o pensamento em prece, meu filho.
- Mas pai, pastor não é quem fica tomando conta dos carneirinhos? Esse homem de terno, quando for fazer o serviço dele lá na montanha, vai passar calor.
- Sssssshiu. Quietinho aí no seu lugar, senão você vai pro inferno.

2011
Setenta reais e o senhor leva a cadeira. É do material de demolição, salvei essa do entulho... espera só um pouco, moço, vou ter que manobrar três carros pra tirar aquele Corolla ali. Senta aí que eu já venho, pode ficar à vontade. Antiguidade, moço, é pegar ou largar.




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Comentários

  1. Elizete Lee7:15 AM

    É triste mesmo…
    As cidades perderam o encanto, assim como o cinema.
    Abração.

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  2. José Carlos Carneiro12:26 PM

    Seus temas são realmente inovadores. Acredito ser pouco provável que outros cronistas e que tenham ideias tais e quais, não consigam misturar os ingredientes na dose certa. Você não se parece com ele, mas tem muito do dom do Paul Bocuse ao dosar de maneira certa as letras, palavras, frases, percepções etc.
    Um abraço

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  3. O pior dos desmanches que vivemos hoje é o dos valores... Tudo é descartável: objetos, sentimentos, pessoas... se, antiguidade... (?) "larga-se no abandono de vidas improdutivas"... E, não há telão, nem 3D que reproduza isso... Sua crônica levou-me a filmes indescritíveis... que no silêncio de um cinema interiorano podia-se ouvir os suspiros e os sons das interjeições! Hoje, isso tudo é funeral. Valeu, Marcelo!
    Bj. Célia.

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  4. Edmilson Siqueira7:51 AM

    Marcelo:

    Justo hoje que você publicou essa crônica, publicaram no Facebook essa matéria como grande Geriba (era assim que eu chamava o Wagner Geriblello nesse época) sobre o fechamento do Cine Ouro Verde.

    http://www.youtube.com/watch?v=us80DFH8_wA

    Abs.
    Edmilson Siqueira
    Jornalista

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  5. Clotilde Fascioni7:53 AM

    Imagine quantas histórias contaria uma cadeira de cinema dos aureos tempos?! Abrçs meu amigo Marcelo.

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  6. Um texto e tanto, Marcelo. Só faltou Lampião detonando “macacos” e Macunaima pinicando caboclas. Meu abraço.

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  7. José Hamilton Brito7:54 AM

    O duro é ter que brincar com coisa séria. Mas faz isso quem tem talento

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  8. Jorge Cortás Sader Filho7:54 AM

    Qualquer um perde o espírito de fazer graça com charme, diante deste triste fato, até mesmo o nosso Marcelo.
    É a realidade dos nossos dias. Sem volta…
    Abraço.
    Jorge

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  9. Wagner Bastos7:57 AM

    Muito bom.

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  10. Adorei, querido! Você é uma figura!!! Beijão!

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  11. Bateu uma saudade da missa domingueira, da macarronada e depois o matine com Mazzaropi ou Tarzã. Que bom que tivemos a oportunidade de aproveitarmos coisas boas da nossa época, podendo recontá-las. Isso é mágico!!

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  12. Alessandra Leles Rocha1:23 AM

    Oi, Marcelo!!!
    Muito bom!!! Sua criatividade me encanta!!! Parabéns!!!
    Tenha uma semana SENSACIONAL!!!
    Abraços,
    Alê

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  13. Zezinha Lins1:25 AM

    E assim é com o cinema, com os relacionamentos, com a vida… Gostei, Marcelo. Uma linda semana cheia de inspiração, como sempre. Um abraço!

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  14. Marco Antonio Rossi1:57 AM

    Meu caro amigo um excelente inicio de mes de junho!!!!
    VIVA SÂO JOÂO, SÂO PEDRO E SANTO ANTONIO!!!!!
    Que saudades do CINEMA!!!!
    Abraço
    Rossi

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  15. É Marcelo... É uma triste verdade e linha do tempo da novidade que virou antiguidade... Aqui na Estância houve uma tentativa em reativar o cinema. Nada feito... Durou apenas uma temporada, todos que gostam de cinema viajam até a cidade mais próxima ou até a sua Campinas. Os que não vão, depredaram o que puderam... A realidade é triste. Hoje o seu post não foi nada engraçado. Foi sério, realista, machucou o coração com esta nostalgia de Cinema Paradiso... Parabéns!Bj

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  16. Mara Narciso12:05 AM

    O cinema abraçou de vez a nostalgia. É saudade demais.

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  17. O tempo passa arrastando preciosidades. E se reveste de coisas superficiais. E descarta pedaços expressivos do coração. Triste triste, Marcelo! Grande texto.

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  18. é o tempo e esse rolo compressor alcunhado de modernidade, trazendo muita coisa boa, é verdade, mas matando uma série de tradições, diminuindo o relacionamento humano... bela descrição desta apressada contemporaneidade. abs

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  19. Antonio Fonseca1:15 AM

    É. Uma vez, num cinema, um lanterninha me deu o maior flagra: Ela
    > segurava minha lanterna e eu; a sua joia. Não deu em nada. Ainda bem.

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