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Mostrando postagens de Julho, 2013

MANIFESTO PELA VOLTA DO TEMPO

O sujeito que assina este mal-arrumado desabafo, em nome de toda a humanidade (à exceção talvez dos anciãos com mais de 100, bem servidos de saúde e paradoxalmente fartos de viver), vem a público exigir que o tempo volte o mais rápido que puder. E que fique claro que não me refiro à volta no tempo; o que reivindico é o retorno do próprio tempo, calmo e humilde, à vida das pessoas.

É espantoso como tudo, há uns poucos anos, levava muito mais tempo para ser feito. E quanto mais vagaroso era o processo, mais tempo, estranhamente, sobrava para o cidadão.

Criava-se o porco no quintal. Matava-se o bicho. Jogava-se água fervente sobre o pelo, a ser raspado na navalha. Abria-se a barrigada, separava-se as partes, temperava-se e deixava-se, da noite para o dia, o leitão esquartejado submerso em marinada. Providenciava-se a lenha, acendia-se o fogo, cozinhava-se lentamente e degustava-se mais lentamente ainda. Era um tempo de sobra que não acabava nunca mais, de enjoar de fazer nada. De botar c…

ÓVULOS PENOSOS. ESTÁ SERVIDO?

wikimedia commons


Os veganos estão certos. Estão certíssimos. Não só pela determinação de não ingerir cadáveres de animais, mas também por, coerentemente, se recusarem a consumir os derivados deles. Especialmente o ovo, o mais nojento e abominável desses subprodutos.
Que não se conteste o valor nutricional do dito cujo, o que o coloca entre os alimentos mais completos que existem. Sem falar do sabor, que quando frito é, de fato, uma iguaria. Basta ele e um pouco de arroz branco, e teremos um dos mais estonteantes  manjares já concebidos pela espécie humana.
O problema é quando você se põe a pensar na natureza daquilo que está comendo. E aí vem à mente alguns fatos e imagens não propriamente abridores de apetite – como o órgão excretor do produto, a cloaca, e os não raros ovos com suas cascas saindo de fábrica manchadas  de sangue. Uma vez coletados, higienizados e enfileiradinhos em suas assépticas embalagens de supermercado, não revelam à dona de casa a suja e dura crueza de sua gestaçã…

O CHULÉ DE HITLER

wikimedia commons

É triste e embaraçoso. Viram o rosto e tapam ostensivamente seus narizes com as mãos, à minha passagem. As pessoas se afastam, a repulsa vai me isolando até o limite do insuportável. No meio da multidão, quase sempre se abre uma clareira por onde ando, tamanho o efeito dessa bota malcheirosa. Mas curiosamente consigo antever, nesse caminho que se abre, um sinal de respeito e submissão pacífica. Uma reverência do povo para com seu líder. Vamos, vamos, deixem passar o rei dos fedidos.

No colégio, Fohenstein, aquele de bigodinho ridículo e cabelo repartido que veio de Auschwitz, é o mais perverso. Do alto de seus coturnos ele me olha com cara de nojo, como se dos meus pés saíssem gases letais. Meu Deus, até onde vai a crueldade humana! Eu não tenho culpa se os fungos proliferam mais em mim do que na maioria das pessoas. Isso não faz da minha uma raça inferior, nem de Adolph um ser humano abjeto. Que foi que eu fiz para merecer tanta perseguição? O que me vale é a amizade …

DECOTE DE ANDREZA

Edouard Manet



Os seios de Andreza eram indecentemente belos. Tão ostensivamente lindos que não havia como não serem expostos em decotes generosos, sempre em tecido leve e transparente.
Tamanha era a beleza de seus contornos que, não raramente, Andreza provocava divórcios e outras desavenças conjugais por onde passasse. Não só pelo ciúme das esposas ao notarem os olhares demorados dos maridos sobre os bem torneados gêmeos, mas também pelo efeito contrário: quando não sucumbiam ao transe hipnótico dos seios da moça, resistindo bravamente à tentação, os maridos acabavam por sugerir uma masculinidade vacilante, o que levava à desconfiança das mulheres sobre o poder de fogo dos companheiros. "Será que é homem mesmo esse traste que eu tenho em casa?", pensavam algumas. A dúvida sobre a "macheza do cabra" causava mais cisma e desconforto do que o interesse exacerbado - que seria a reação natural. Afinal, Andreza era Andreza.
Sua fama espalhava-se, e a cidade devia a ela uma …